O mundo acaba e o inquérito fica
4 Mar, 2026
Por Sergio Tamer O “inquérito do fim do mundo”, como o chamou certa vez o ex-ministro Marco Aurélio, também conhecido por “inquérito das fake news ” voltou à cena, ao completar quase 7 anos de contorcionismo jurídico, graças à carta enviada pelo presidente do Conselho Federal da OAB ao seu homólogo do STF. Embora tardiamente, esse despertar sonolento da OAB para tudo o que vem se sucedendo ao longo desse tempo de forma heterodoxa, não invalida, todavia , as admoestações contidas naquela missiva, pelo contrário, trata-se de um documento que merece a devida acolhida e consideração por parte da Suprema Corte. Destaque-se aqui que o documento é uma manifestação conjunta da Diretoria Nacional e dos presidentes dos conselhos seccionais, os quais reafirmam a necessidade de proteção às garantias constitucionais da atividade jornalística , por sinal um dos pilares de qualquer sistema democrático, e às prerrogativas da advocacia. A OAB ressalva, ainda, que o STF deve estrita observância da excepcionalidade que deu origem ao citado inquérito e dos limites constitucionais que legitimam a atuação estatal. Para a Ordem, “ a advocacia não pode atuar sob ambiente de incerteza quanto aos limites da atuação investigativa estatal, sobretudo em temas que envolvam sigilo profissional, acesso a dados e preservação da confidencialidade da relação entre defensor e constituinte”. Em seguida, afirma que “a defesa da democracia [...] não se esgota na repressão a ataques institucionais; ela se completa com a observância estrita do devido processo legal, da ampla defesa, do contraditório e da liberdade de expressão”. São conceitos sérios, observações válidas e verdadeiras que servem como uma espécie de “cartão vermelho” para a atuação do STF por meio desse famigerado inquérito. Temo, no entanto, que a OAB esteja a “chover no molhado” com tais palavras. O histórico do inquérito no 4781, não é nada abonador. I nstalado de ofício (sem solicitação do Ministério Público), há cerca de 7 anos pelo então presidente do STF, Dias Toffoli, com o objetivo de investigar “a existência de ameaças e denunciações caluniosas, difamantes e injuriantes que atingem a honra e a segurança dos membros da corte e de seus familiares” – os alvos do inquérito aberto, naquele momento, e talvez a sua motivação principal, eram os procuradores da força- tarefa da Laja Jato em Curitiba que, segundo o entendimento que havia, teriam “incentivado a população a ficar contra decisões do Supremo, como Deltan Dallagnol e Diogo Castor”. Argumentava-se, ainda, que “milícias digitais” estavam atacando virulentamente o STF e seus membros o que teria ensejado uma interpretação alargada do Regimento Interno da corte. O escolhido diretamente por Toffoli para essa missão foi o ministro Alexandre de Moraes. Muito s juristas se manifestaram na ocasião sob o prisma de que o Supremo não deveria fazer a própria investigação, mas sim requisitar que os órgãos encarregados de sse procedimento , como a Polícia Federal e a própria Procuradoria-Geral da República, pudessem fazê-la. A OAB, registre-se, presidida por Felipe Santa Cruz (2019-2022), emitiu na ocasião nota em apoio à decisão do ministro Toffoli. O ano de 2019 – berço do inquérito das fake news pelo Supremo, foi mesmo um ano atípico até mesmo para os padrões da política brasileira : tivemos procurador-geral da República revelando que planejou matar um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) ; ex-presidente preso, ex-presidente solto e o então presidente , sempre muito arreliado, chegou em ritmo acelerado e meio aloprado , tendo comprado briga até com astros de cinema , sendo que agora ele é o preso da vez . .. O tom de confrontação , inicialmente entre lavajatistas e o STF – transmudou-se para bolsonaristas x STF. E conforme o andar da carruagem, tudo pass ou a cair na rede montada pelo STF sob os ditames plenipotenciários do ministro Alexandre de Moraes. Assim, a intentona de 8 de janeiro e tudo mais que passasse a ser, ainda que meramente de raspão, uma “ameaça à democracia ”, e depois “ameaça à soberania”, etc. logo caía na malha fina d o inquérito aberto em 2019 por Toffolli . E ness e diapasão , o inquérito comandado por Moraes vai colecionando, e justificando, as mais esdrúxulas situações , especialmente agora com esse tenebroso imbróglio do Banco Master. A o completar 7 anos de perturbadora existência, esse meta inquérito vai muito além de um tempo razoável, exatamente por ampliar em demasia o seu foco de ação . Estudos recentes, inclusive apresentado em sessão do STJ pelo ministro Rogerio Schietti , nos dão conta de que, com suporte nas legislações portuguesa, italiana e chilena, “os códigos mais modernos costumam prever um prazo máximo de duração das investigações – em torno de 2 anos – ao cabo do qual deverá o Ministério Público oferecer a denúncia ou promover o arquivamento do inquérito . ” Agora, precisamos saber o que o presidente Edson Faccin, do STF, fará com a carta que recebeu, leu e deu conhecimento aos seus pares. Enquanto isso, a OAB pode esperar sentada, pois se depender do ilustre relator do famoso inquérito, o mundo acaba e ele permanece . Pelo memos é o que se depreende da resposta que deu sobre o assunto em entrevista à Folha , em dezembro de 2023 . Moraes se limitou a responder, com aquele seu ar elevado de demiurgo: “ele vai ser concluído quando terminar” ...