Relatório indica que funcionários da Meta tiveram acesso a imagens íntimas gravadas com óculos Ray-Ban
7 Mar, 2026
Uma investigação publicada em fevereiro pelos jornais suecos Svenska Dagbladet e Göteborgs-Posten, em parceria com a jornalista freelance queniana Naipanoi Lepapa, revelou que funcionários de uma empresa subcontratada pela Meta tiveram acesso a vídeos e imagens íntimas capturadas pelos óculos inteligentes Ray-Ban Meta. Entre o material descrito pelos trabalhadores estão cenas de pessoas usando o banheiro, se despindo e praticando sexo, aparentemente sem saber que estavam sendo filmadas.A investigação e quem está por trás delaO relatório é resultado de entrevistas com mais de 30 funcionários em diferentes níveis hierárquicos da empresa Sama, sediada no Quênia e responsável pela anotação de dados para os sistemas de inteligência artificial da Meta. Os trabalhadores assinaram acordos de confidencialidade e falaram anonimamente, sob risco de demissão caso fossem identificados.A apuração também contou com depoimentos de ex-funcionários americanos da Meta que confirmaram a existência de anotação de dados ao vivo em múltiplos projetos da empresa. Os repórteres não tiveram acesso às instalações onde o trabalho é realizado nem ao material manuseado pelos anotadores, mas obtiveram contratos de trabalho e documentação descrevendo as operações da Sama.Divulgação/MetaO que os funcionários relataram verOs trabalhadores descreveram um fluxo constante de vídeos gravados com os óculos Ray-Ban Meta que chegavam às suas telas com conteúdo altamente sensível. Um funcionário relatou ter visto um homem colocar os óculos na mesinha de cabeceira antes de sair do quarto — e, logo depois, sua esposa entrar e se trocar sem saber que estava sendo filmada.Outro trabalhador descreveu cenas de parceiros saindo do banheiro nus. Há ainda relatos de usuários que, aparentemente sem perceber, filmaram seus próprios cartões bancários, assistiram pornografia enquanto usavam os óculos e até gravaram relações sexuais.Vemos tudo, de salas de estar a corpos nus. A Meta tem esse tipo de conteúdo em seus bancos de dados. As pessoas podem se gravar da maneira errada sem nem saber o que estão registrando. São pessoas reais, como você e euOs funcionários também trabalham com transcrições de conversas entre usuários e o assistente de IA dos óculos. Segundo os relatos, o conteúdo vai muito além de perguntas cotidianas: há registros de conversas sobre crimes, protestos e comentários de teor sexual sobre terceiros.O que a Meta respondeuEm declaração compartilhada com a BBC, a Meta confirmou que “às vezes” compartilha conteúdo enviado pelos usuários ao chatbot Meta AI com prestadores de serviços terceirizados, com o objetivo de melhorar a experiência dos produtos, prática que a empresa descreveu como comum no setor. A Meta afirmou que os dados passam por filtragem prévia para proteger a privacidade, citando como exemplo o desfoque automático de rostos.Conteúdo Relacionado Relógio da MetaDona do Instagram planeja o lançamento de um smartwatch em 2026A política de privacidade dos vestíveis da Meta estabelece que fotos e vídeos capturados pelos óculos são enviados à empresa quando o usuário ativa o processamento na nuvem, interage com o serviço de IA ou faz upload de mídia para o Facebook ou Instagram. Transmissões ao vivo, transcrições de texto e gravações de voz também são enviadas à Meta por padrão.O documento ainda alerta que os usuários não devem compartilhar com os assistentes de IA “informações que não desejam que sejam usadas e retidas, como informações sobre tópicos sensíveis”, uma ressalva que pressupõe que o usuário leu e compreendeu todas as políticas aplicáveis.Apesar de contatada diversas vezes pelos jornalistas suecos ao longo de dois meses, a Meta não respondeu às perguntas específicas sobre como material íntimo chega até anotadores no Quênia, quanto tempo os dados são armazenados ou como funciona na prática o direito de objeção dos consumidores.O problema da luz de gravação e do consentimento invisívelOs óculos Ray-Ban Meta acendem uma luz ao gravar vídeo ou tirar fotos. No entanto, a investigação sueca aponta que muitos usuários simplesmente não percebem que estão filmando (ou não interpretam corretamente o significado da luz). Em agosto de 2025, a Meta passou a ativar por padrão a câmera com IA ao receber o comando de voz “Hey Meta”, o que ampliou o alcance da coleta automática de imagens.Especialistas em proteção de dados ouvidos pelos jornalistas questionam se os usuários têm real consciência do que concordam ao usar os óculos. Petter Flink, especialista em TI e segurança da Autoridade Sueca de Proteção de Privacidade (IMY), foi direto ao ponto: “O usuário realmente não faz ideia do que está acontecendo nos bastidores.”Kleanthi Sardeli, advogada de proteção de dados da organização sem fins lucrativos None Of Your Business (NOYB), aponta que pode haver uma violação clara das regras europeias: “Se isso acontece na Europa, faltam tanto transparência quanto base legal para o processamento.” Ela defende que o consentimento explícito deveria ser exigido sempre que dados forem usados para treinar inteligência artificial.Divulgação/MetaVendedores desinformados e dados que “ficam no app”Durante a investigação, repórteres visitaram dez revendedoras dos óculos em Estocolmo e Gotemburgo para verificar como os funcionários explicavam o tratamento de dados aos clientes. Os resultados foram preocupantes: vários vendedores afirmaram que nada é compartilhado com a Meta e que tudo fica “armazenado localmente no aplicativo”, informação que os próprios testes dos jornalistas mostraram ser incorreta.Ao analisar o tráfego de rede gerado pelo aplicativo Meta AI, os repórteres verificaram contato frequente com servidores da Meta na Suécia e na Dinamarca. O funcionamento do assistente de IA exige que os dados sejam processados pela infraestrutura da empresa e não é possível usar os recursos de IA apenas localmente no celular.Processo e ação regulatóriaAs revelações já produziram consequências legais e regulatórias. No Reino Unido, o Information Commissioner’s Office, órgão regulador de dados, enviou uma carta formal à Meta pedindo esclarecimentos sobre o relatório. Nos Estados Unidos, foi protocolada uma ação coletiva contra a Meta e a Luxottica of America, subsidiária da fabricante dos óculos Ray-Ban.O processo questiona diretamente o slogan de marketing dos óculos “projetado para privacidade, controlado por você” afirmando que nenhum consumidor razoável entenderia essa promessa como compatível com a transmissão de imagens íntimas do interior de suas casas para trabalhadores no exterior. A ação alega violação de leis estaduais de proteção ao consumidor e pede indenizações, penalidades punitivas e mudanças obrigatórias nas práticas da empresa.Leia também:CPU Snapdragon Wear Elite é apresentado com foco em IA local para dispositivosNovo Amazfit T-Rex Ultra 2 chega com tela gigante e recursos avançados para atividades outdoorFone ou caixa de som? Conheça o acessório gigante que virou febreQuando os óculos sabem mais do que o donoO caso dos óculos Ray-Ban Meta expõe uma tensão crescente entre a conveniência dos dispositivos de IA vestíveis e a opacidade de como os dados gerados por eles são tratados. A ideia de um assistente pessoal sempre disponível vem acompanhada de uma cadeia de subcontratação global que poucos consumidores conhecem e que, segundo os próprios trabalhadores que a operam, processa conteúdo que jamais deveria sair do ambiente doméstico.A pergunta que o relatório deixa sem resposta definitiva é se a Meta tomará medidas concretas para mudar esse fluxo como foi no caso do escândalo da Cambridge Analytica ou se aguardará o desfecho das investigações regulatórias. Com a empresa planejando adicionar reconhecimento facial aos óculos ainda em 2026, segundo o New York Times, a pressão sobre suas práticas de privacidade tende a crescer antes de diminuir.Fonte(s): Svenska Dagbladet e BBCConteúdo Relacionado 🎧 Áudio InovadorAdeus, AirPods? Shokz OpenDots One são os fones que você precisa ter