Brasil é líder em biotecnologia agrícola, mas falta rapidez regulatória
7 Mar, 2026
A bioeconomia brasileira entra em 2026 com uma agenda estratégica centrada em regulação, inovação e atração de investimentos. A agropecuária está no cerne desta evolução, que ainda carece de velocidade para que investimentos públicos e privados não se percam no tempo. É o que defende Deia Vilela, nova presidente da Associação Brasileira de Bioinovação (ABBI). Leia mais China pode atingir em breve cota de salvaguarda para carne bovina Trigo lidera valorização e atinge máxima em um ano na bolsa de Chicago Evento da FAO termina com incentivo à sustentabilidade na produção rural Ao CNN Agro, a executiva afirma que a prioridade do setor é ampliar a influência técnica junto ao governo para acelerar aprovações e consolidar o Brasil como polo de produção — e não apenas de consumo — de biotecnologia. No universo agro, os biocombustíveis denotam o potencial do Brasil como fornecedor, principalmente por causa do avanço do etanol de milho e da diversificação de matérias-primas, como soja, sorgo que também podem se transformar em alternativa aos combustíveis fósseis.“O Brasil é exponencial em biocombustíveis. Quando falamos de etanol de cana ou de cereal, há uma enorme aplicação de biotecnologia para aumentar eficiência”, afirma Vilela.Segundo ela, o uso de enzimas e leveduras específicas permite maior rendimento industrial, melhor aproveitamento de coprodutos como DDG e óleo de milho, além de ganhos energéticos. A inovação, diz, ocorre em ritmo acelerado — o que reforça a necessidade de um ambiente regulatório compatível.Regulação mais ágil como prioridadeEntre os principais pontos da agenda está a defesa de maior agilidade regulatória. Para Vilela, o Brasil possui estrutura técnica robusta, mas precisa acelerar processos para não comprometer a competitividade.“Acreditamos no papel regulador do governo, inclusive do ponto de vista do consumidor. A questão é como tornar esse processo mais ágil, sem que ele seja um entrave”, diz.Ela explica que produtos de biotecnologia — como as leveduras e os próprios biocombustíveis — passam por rigorosos estudos toxicológicos e exigem dossiês complexos. O desafio, porém, é evitar que a velocidade da inovação internacional não seja traduzida para o mercado brasileiro, prejudicando o ‘tempo dos investimentos’.A proposta da associação inclui mecanismos de “fast tracking” para acelerar aprovações, especialmente em áreas estratégicas como bioenergia.Interior como vitrine da economia circularNo agronegócio, a executiva destaca o avanço da industrialização no interior do país como caso emblemático de economia circular. Usinas de etanol de milho que aproveitam integralmente a matéria-prima — produzindo combustível, DDG para ração animal e óleo — são apontadas como exemplo de eficiência logística e produtiva.Além disso, ela vê espaço crescente para bioproteção agrícola, biomateriais derivados de açúcar e aplicações industriais que alcançam setores como plástico, papel e cosméticos.“O futuro é bio. Há muito conhecimento sendo desenvolvido no Brasil e na região. A bioeconomia é presente e futuro”, resume, ao mesmo tempo que reconhece que há espaço para maior industrialização e cita como exemplo o desenvolvimento de enzimas industriais.Embora o Brasil utilize esses produtos, ainda há margem para ampliar a produção local via biotecnologia industrial, com fermentação controlada e redução de custos. “O Brasil já é polo de consumo. Pode ser também polo de produção”, frisa. “Todos nós consumimos produtos feitos com biotecnologia, seja pão, cerveja ou etanol. Precisamos desmistificar o tema e mostrar que a bioinovação faz parte do cotidiano”.Impacto econômico e geração de empregosA ABBI reúne 24 empresas e participa da Comissão Nacional da Bioeconomia, no âmbito da implementação do Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia. Segundo Vilela, o principal papel da associação é atuar como representante institucional do setor em temas sensíveis como pegada de carbono, proteção de propriedade intelectual e regulação de novos produtos.“Queremos influenciar políticas públicas que favoreçam o desenvolvimento do setor e, no fundo, o Brasil”, afirma. Atualmente, as 24 empresas associadas à BBI geram cerca de 200 mil empregos ligados à biotecnologia, entre produção industrial, pesquisa e áreas comerciais.Vilela avalia que o potencial de expansão é significativo, desde que o ambiente institucional favoreça investimentos. “Se ampliarmos o tamanho do mercado, podemos atrair mais empresas internacionais para produzir no Brasil, não apenas vender.”Para ela, o país reúne escala produtiva, mercado consumidor relevante e base agrícola estratégica, fatores que sustentam a tese de transformar o Brasil em hub regional de biotecnologia para a América Latina.