Cansaço ideológico: por que a Paramount pode virar a grande rival “anti-woke” da Netflix
8 Mar, 2026
Depois de uma oferta agressiva, a Paramount Skydance Corporation confirmou, no fim de fevereiro, a assinatura final do contrato de aquisição da Warner Bros. Discovery. A proposta bilionária atravessou a negociação de compra dos ativos da Warner que vinha sendo feita pela Netflix e, na prática, pode consolidar o novo grupo de mídia como uma forte opção “anti-woke” no mercado dos streamings. No fim de 2025 , a Netflix chegou a dar como certa a negociação, estimada em mais de US$ 82 bilhões — US$ 27,75 por ação. A Paramount, por sua vez, ofereceu US$ 31 por ação, o que fez com que a avaliação da Warner ficasse em cerca de US$ 110 bilhões. Diferentemente de outros concorrentes que apostam fortemente em novas propriedades intelectuais ou narrativas experimentais, o grupo Paramount mantém forte presença de franquias tradicionais e entretenimento para um público mais amplo. Entre os títulos mais emblemáticos do estúdio estão produções de diretores como Alfred Hitchcock, a trilogia O Poderoso Chefão e a série de filmes de ação Missão: Impossível , além de um portfólio consistente de séries para a televisão. São formatos clássicos da indústria audiovisual, voltados a uma audiência mais abrangente e historicamente menos associados a debates ideológicos. Em uma posição diametralmente oposta está a Netflix, que oferece um vasto conteúdo que destaca pautas progressistas relacionadas à identidade de gênero e sexualidade. O progressismo abrange séries como Jovens Recrutas , que retrata a homossexualidade entre os fuzileiros navais, ou Heartstopper: Forever , onde o foco são romances entre adolescentes LGBTQIAPN+. Até mesmo obras de conteúdo infantil, como as animações Jurassic World: Acampamento Jurássico , Moranguinho na Cidade Grande , Guardiões da Mansão do Terror , CoComelon , O Clube das Babás , Ridley Jones: A Guardiã do Museu e Transformers não estão livres de cenas em que se fala em linguagem neutra, uma das pautas do movimento woke. A Disney+, serviço de streaming da Disney, também produziu conteúdo direcionado para esse público. Em seu canal no YouTube, a companhia publicou, em 2021, um minidocumentário da Marvel que celebra como “heroína” uma criança de 12 anos que nasceu um garoto e se identifica como garota. "Esta é uma mensagem realmente importante que nós temos que compartilhar com as próximas gerações", diz, no vídeo, Sana Amanat, então vice-presidente de conteúdo da Marvel. Já a Pixar, que pertence à Disney, veiculou a animação Out , que trata de um rapaz que se assume gay para os pais. Em um breve depoimento antes do início das cenas, o diretor Steven Hunter comemorou o fato de que o desenho inclui um beijo gay: “Eu nunca tinha visto dois caras se beijando em um filme da Disney”. Frente a essa oferta de conteúdo, parte do público passou a enxergar o catálogo da Paramount como mais focado em ação, aventura e entretenimento tradicional, em contraste com a percepção de que outras plataformas priorizam narrativas mais explicitamente políticas ou identitárias. Esse interesse por produções que evitam debates explícitos pode ser visto como um sinal de que pelo menos parte dos consumidores acredita que o entretenimento dominante se tornou excessivamente ideologizado. Naturalmente, ganham espaço as empresas que oferecem uma alternativa percebida como mais neutra. Outro fator que pode pesar na percepção “anti-woke” da aquisição da Warner pela Paramount é a interferência do presidente Donald Trump nas negociações. Quando o martelo ainda não tinha sido batido, o republicano cobrou publicamente a demissão da ex-conselheira de segurança nacional e ex-embaixadora dos EUA na ONU, Susan Rice, do conselho da Netflix. Rice disse que os democratas tomariam medidas contra as empresas que “se ajoelham” diante de Trump. Em resposta, o presidente pediu a cabeça da executiva e disse que a Netflix “enfrentaria as consequências” caso ela não fosse demitida. O CEO da gigante do streaming, Ted Sarandos, chegou a ser convidado para participar de reuniões na Casa Branca envolvendo as propostas de aquisição da Warner. O resultado das negociações, porém, não sofreu nenhuma alteração. Trump, por sua vez, disse que iria se afastar do caso, deixando qualquer análise sobre as propostas para a divisão antitruste do Departamento de Justiça. Ao desistir oficialmente da compra, a Netflix emitiu um comunicado no qual aponta que a empresa teria sido “uma excelente administradora das marcas icônicas da Warner Bros.”, e que o negócio, caso fosse fechado, preservaria e até mesmo fortaleceria a indústria global do entretenimento. Sobre a oferta hostil feita pela Paramount, a nota explica que a compra da Warner “pelo preço certo” sempre foi vista pela Netflix como uma “boa oportunidade”. “O negócio, porém, nunca foi uma ‘necessidade’ a ser atendida a qualquer custo”, completa o texto . O diretor financeiro da Netflix, Spencer Neumann, celebrou a multa de US$ 2,8 bilhões, cerca de R$ 14,6 bilhões, que será paga pelo rompimento do acordo prévio com a Warner. “Vamos seguir em frente, e com esses bilhões nos nossos bolsos, que não tínhamos há algumas semanas”, disse o CEO. Pelo acordo, a multa será paga pela Paramount. A guinada provocada pela aquisição pode atingir a linha editorial da CNN, emissora integrante do portfólio da Warner. Alvo constante de críticas de Trump por sua postura de oposição, o canal de TV é costumeiramente atacado pelo presidente dos EUA sob a alegação de produzir fake news . Em um caso recente, no início de fevereiro, a jornalista Kaitlan Collins questionou Trump sobre os arquivos do caso de Jeffrey Epstein. Além de não responder às perguntas, o presidente fez críticas pessoais contra Collins, dizendo que ela era “a pior repórter, que nunca sorri”. A CBS, emissora de TV sob controle da Paramount, recentemente colocou em xeque sua reputação de imparcialidade ao ceder a pressões para agradar a Casa Branca. Além da indenização de US$ 16 milhões pagos no processo que aponta favorecimento à então candidata Kamala Harris em uma entrevista ao programa 60 Minutes , o canal confirmou a demissão do âncora Anderson Cooper e o fim do talk show político noturno de Stephen Colbert, outro crítico ao governo Trump.