Por que o ChatGPT está sendo cancelado?

admin
17 Mar, 2026
Na cultura do cancelamento, empresas ou figuras públicas costumam ser alvo de boicotes após declarações ou comportamentos considerados problemáticos pelos ativistas. Foi assim em 2020, quando a escritora J.K. Rowling foi cancelada após publicar comentários interpretados como transfóbicos. Como resposta, milhares de leitores anunciaram um boicote à franquia Harry Potter . Livrarias passaram a ser pressionadas a retirar seus livros das vitrines e atores dos filmes da série se distanciaram publicamente da escritora. É óbvio que movimentos como esse iriam, uma hora ou outra, chegar ao universo da inteligência artificial. A mira agora está apontada para o ChatGPT, o mais novo alvo da cultura do cancelamento. Ao mesmo tempo em que avança em novas frentes de disputa no Oriente Médio, a guerra contra o Irã está ganhando novos contornos dentro dos Estados Unidos. Esta batalha está sendo travada nas trincheiras digitais, entre a OpenAI e a Anthropic por conta de contratos entre as gigantes da Inteligência Artificial e o governo de Donald Trump. O impasse teve como resultado uma onda de desinstalações do ChatGPT, da OpenAI, e um aumento na busca pelo Claude, da empresa rival. O movimento batizado de “ Quit GPT ” – “Abandone o GPT”, em tradução livre – afirma contar com a adesão de mais de 4 milhões de pessoas que desinstalaram o app de IA de seus dispositivos eletrônicos. A principal justificativa para buscar alternativas ao ChatGPT, descreve o site do movimento, são as ligações estreitas da empresa com o governo Trump. Além do contrato firmado entre a OpenAI e o Pentágono , em substituição ao acordo anterior da Defesa dos EUA com a Anthropic, o movimento destaca as doações feitas pelo presidente da criadora do ChatGPT, Greg Brockman, à campanha eleitoral de Donald Trump: mais de US$25 milhões. A ferramenta também estaria sendo utilizada pelo Departamento de Justiça em Washington para recrutar agentes do ICE. Logo, pela lógica dos ativistas digitais, quem usa o ChatGPT financiou indiretamente a morte de duas pessoas em Minneapolis durante protestos realizados na cidade contra o serviço de imigração do governo norte-americano. Esse discurso foi adotado pelo ator Mark Ruffalo, uma das celebridades que puxam a fila pela desinstalação do ChatGPT. Em uma postagem a favor do boicote compartilhada em seu perfil no Instagram, o ator que deu vida a Hulk em filmes da Marvel afirmou que “a tecnologia deles [OpenAI] dá força ao ICE”. Um seguidor, postando uma resposta, perguntou se o ator abandonaria também seu perfil no Instagram, já que o proprietário da Meta, o empresário Mark Zuckerberg, é simpático ao governo Trump. A cantora Kate Perry foi outra a se manifestar a favor do Claude, IA rival do ChatGPT. Em seu perfil no X , a artista postou o que seria um print confirmando sua assinatura no serviço de inteligência artificial da Anthropic. Em resposta, uma seguidora questionou se a cantora precisa da IA para compor as músicas. Após a Anthropic ter se recusado a atender as demandas do pentágono para o uso da inteligência artificial pelos militares, um novo contrato do Departamento de Guerra foi firmado com a OpenAI para o mesmo uso da inteligência Artificial, desta vez com o ChatGPT. O anúncio desencadeou uma reação imediata no setor de tecnologia e entre usuários. Dados de empresas que monitoram o setor de tecnologia mostram que o aplicativo ChatGPT registrou um salto de 295% nas desinstalações após o anúncio. Ao mesmo tempo, a Anthropic viu sua popularidade crescer, com o Claude se tornando o app de IA mais popular entre os usuários. Os ativistas do movimento Quit GPT sugerem o uso de ferramentas alternativas de código aberto como Lumo, Confer, Mistral e LLaMA. Para eles, grandes empresas estariam mais propensas a permitir o autoritarismo pelo uso de suas linguagens. Há ainda uma clara sugestão de boicote ao uso do GroK, modelo de IA do X, de propriedade do empresário Elon Musk. Segundo o movimento, “as razões para não usar o GroK são óbvias” (apesar de não citar nenhuma dessas razões), mas “felizmente quase ninguém usa o chatbot do Elon”. “As pessoas acham que o ChatGPT é a única IA disponível, mas não sabem que seus executivos são os maiores doadores de Trump. É hora de mudar esse cenário. Vamos atingi-los no bolso”, aponta o manifesto do Quit GPT. O sonho de quebrar financeiramente a OpenAI por meio do boicote é compartilhado também do outro lado do Atlântico. Em um artigo publicado no jornal britânico The Guardian , o historiador e escritor holandês Rutger Bregman defende que o movimento de desinstalação do ChatGPT seja abraçado por usuários europeus. Ele ainda compara a estratégia digital à mobilização feita nos anos 1950 nos Estados Unidos contra a prisão da costureira negra Rosa Parks, que se negou a dar seu lugar no ônibus a um homem branco. Por mais de um ano, moradores negros de Montgomery, Alabama, deixaram de andar de transporte coletivo, o que teria ajudado a falir uma das empresas. “Eles não tentaram desmontar todo o aparato de segregação de uma só vez, mas escolheram um alvo e por 381 dias, caminharam, pegaram carona ou dirigiram até o trabalho. Isso quebrou financeiramente a empresa de ônibus. A OpenAI é a nossa empresa de ônibus agora, e é possível cancelar o ChatGPT em segundos. Uma ação pequena, repetida várias vezes, pode se tornar um terremoto político”, escreveu. O protesto contra o ChatGPT não é algo inédito no campo da tecnologia digital em uso por forças militares. Em 2018, o Google passou por situação semelhante quando funcionários descobriram que a empresa estava colaborando com o Pentágono no “Projeto Maven”. O programa usava tecnologia de Inteligência Artificial para analisar imagens captadas por drones militares e identificar automaticamente objetos e possíveis alvos. Houve uma forte reação interna, com mais de 4 mil funcionários do Google assinando uma carta de protesto e a demissão de engenheiros. Como consequência das manifestações internas, a empresa decidiu não renovar o contrato militar e publicou diretrizes públicas de uso ético da IA.