Expedição Voz dos Oceanos chega ao Recife e alerta sobre plásticos de uso único
20 Mar, 2026
A capital pernambucana é uma das paradas da expedição Voz dos Oceanos , iniciativa liderada pela família Schurmann a bordo do Veleiro Kat, que busca mapear e combater a poluição plástica nos mares. A passagem pelo Recife reforça o debate sobre o descarte inadequado de resíduos, um problema ambiental crônico nas zonas costeiras globais. De acordo com o capitão da embarcação, Wilhelm Schurmann, o diagnóstico visual ao redor do mundo aponta um vilão claro: "A maior quantidade de plástico poluente que a gente vê nos oceanos e nas praias, nos lugares por onde a gente passa, é, sem dúvida, garrafa PET". A dinâmica de consumo desse material é apontada como a raiz da questão. "Se a gente parar para pensar, a pessoa que vai consumir fica com aquela garrafinha por apenas um ou dois segundos, talvez um minuto no máximo, e depois ela já é descartada. O problema é que, na maioria das vezes, esse descarte acaba não sendo apropriado e o plástico acaba indo parar no mar", explica Wilhelm. A expedição Voz dos Oceanos é uma iniciativa liderada pela família Schurmann a bordo do Veleiro Kat - Maria Clara Trajano/JC Tecnologias a bordo do Veleiro Kat Como forma de dar o exemplo, o Veleiro Kat opera com sistemas avançados de sustentabilidade. A geração de energia utiliza placas solares, sistemas eólicos e hidrogeradores, que aproveitam a força da água para carregar as baterias. O gerenciamento de resíduos e efluentes é rigoroso. "Nós também temos um sistema de compostagem, então todo o nosso lixo é devidamente separado". O material reciclável é lavado e processado em uma compactadora a bordo, que reduz o volume do lixo em até 80%. "Com isso, conseguimos minimizar a quantidade de resíduos e segurar tudo até chegar a um porto que tenha um local adequado para reciclagem". Leia Também Ademi-PE debate os impactos e as incertezas da Nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental Grupo JCPM apresenta na COP30 caso de regeneração ambiental no Recife e reforça papel do setor privado na agenda climática A água utilizada na embarcação passa por um sistema aeróbico e biológico, sendo finalizada por luz ultravioleta. "A água passa por lâmpadas UV que matam 99% das bactérias em uma única passada, e nós a deixamos circulando umas 20 vezes no tanque para garantir que esteja totalmente tratada. É literalmente como uma mini estação de tratamento dentro do veleiro, algo muito raro de se ter em uma embarcação desse porte", explica. Outro equipamento de destaque é o triturador de vidro, que transforma garrafas em um material semelhante à areia. O processo permite armazenar cerca de 200 garrafas em um balde de 20 litros. "Na verdade, somos o primeiro veleiro no mundo a ter uma dessas, e temos muito orgulho de ter essas soluções únicas aqui no Veleiro Kat". Em terra, o material triturado é doado para artesãos de biojoias ou destinado à construção civil. Veja também: Saiba como acessar nossos canais do WhatsApp #im #ll #ss #jornaldocommercio" /> Reaproveitamento na indústria em Pernambuco A passagem da expedição pelo Recife também marca a parceria com a Tramontina no desenvolvimento de soluções em economia circular, por meio da linha Oceano +Clean. A iniciativa resultou na cadeira Marina, fabricada com matéria-prima integralmente reciclada. Toda a produção de plásticos da marca, incluindo esta linha sustentável, está concentrada em Pernambuco, operando nas fábricas localizadas nos bairros da Várzea, no Recife, e no município de Moreno. O diretor administrativo e financeiro da Tramontina Delta — que fabrica plásticos e louças de mesa —, Igor Arregui, explica que a empresa encerrou o último ano com 1.450 toneladas de plástico reciclado processado. A fabricação da cadeira Marina exigiu adaptações. "Trabalhar com material virgem é diferente, porque você sabe exatamente como aquele material vem da petroquímica. Quando você usa um material que é 100% reciclado, aí sim você enfrenta alguns desafios na produção, mas que vamos vencendo com a tecnologia e o conhecimento que acumulamos nesses 26 anos produzindo mesas e cadeiras de plástico", explica. Apesar das variáveis do processo de reciclagem, o executivo afirma que o controle de qualidade atende às exigências normativas. "O resultado é um produto com resistência que passa nos testes; ela tem uma resistência de 154 kg, que é o padrão do mercado", afirma. Segundo Arregui, a iniciativa reflete a urgência do reaproveitamento. "Saber que esse material foi recolhido da praia, que ficou na areia porque a maré levou ou porque estava no oceano, nos dá uma satisfação muito grande. A empresa como um todo fica muito satisfeita de poder contribuir para o meio ambiente, principalmente com os oceanos", conclui. Quem é a família Schurmann? A Família Schurmann é o primeiro grupo brasileiro a circum-navegar o globo a bordo de um veleiro , trajetória iniciada em 1984 e que acumula mais de quatro décadas de experiência marítima. Atualmente, a tripulação composta por Vilfredo, Heloísa, Wilhelm e Erica, coordena a iniciativa Voz dos Oceanos. Lançado em agosto de 2021 com o apoio do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o projeto é um movimento global dedicado a documentar e combater a poluição plástica nos mares. A missão une pesquisa científica, educação ambiental e a busca por soluções industriais e tecnológicas para reduzir o impacto dos resíduos nos ecossistemas marinhos. O objetivo da expedição é sensibilizar governos, indústrias e consumidores sobre a urgência de substituir plásticos de uso único por alternativas recicláveis ou reutilizáveis.