Jackie de Botton: ‘A inovação que a gente precisa é mais básica e está nos relacionamentos’
22 Mar, 2026
Jackie de Botton: ‘A inovação que a gente precisa é mais básica e está nos relacionamentos’ Cofundadora da The School of Life Brasil é uma das atrações do São Paulo Innovation Week, que será realizado entre os dias 13 a 15 de maio. Crédito: Gabriel Brito/Matheus Mendes Falar de filosofia aplicada à vida cotidiana ainda soa, para muita gente, como algo distante. Foi justamente para encurtar esse espaço que nasceu a The School of Life — escola criada em Londres, em 2008, pelo filósofo Alain de Botton, com um objetivo direto: traduzir ideias da filosofia e da psicologia em ferramentas práticas para lidar com emoções, relações e escolhas do dia a dia. Não por acaso, como resume o próprio fundador, “A The School of Life foi fundada para levar sabedoria e beleza para onde mais precisamos delas, os desafios e dificuldades da vida cotidiana”. À frente da operação brasileira desde 2013, Jackie de Botton fez a ideia ganhar escala e, em pouco mais de uma década, já recebeu mais de 450 mil alunos em cursos da instituição por aqui. No mundo, a School of Life está presente em sete cidades — Londres, Amsterdã, Paris, Berlim, Melbourne, Seul e São Paulo, sendo esta a única unidade nas Américas — e já impactou mais de 12 milhões de pessoas por meio de suas escolas, cursos e do canal no YouTube. Em conversa com a Coluna, Jackie explica: “A gente entende inteligência emocional como a capacidade de regular as próprias emoções e compreendê-las melhor. E faz isso a partir das melhores ideias da filosofia e da psicologia”. “Não somos preparados para a vida. Não aprendemos a lidar com frustração, morte, raiva, compaixão. E isso chega — às vezes tarde — como uma falta enorme”, diz. “A School of Life nasce desse lugar: de tentar oferecer esse conhecimento antes que ele vire arrependimento.” Não por acaso, Jackie leva agora essa discussão para além da sala de aula. Ela está entre os mais de mil palestrantes do São Paulo Innovation Week, que acontece entre 13 e 15 de maio, na Mercado Livre Arena Pacaembu e na Faap. Realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, o festival reúne nomes da inovação, tecnologia e empreendedorismo — mas, no caso dela, o recorte é outro: “A inovação que a gente precisa é mais básica e não menos necessária. Está nos relacionamentos, nas famílias, na forma como a gente convive.” Antes de encontrar esse caminho, Jackie percorreu outros. Esteve em Davos ainda jovem, acompanhando o pai, trabalhou no grupo que fundou a Endeavor e passou pelo mercado financeiro. A vocação empreendedora veio cedo — junto com uma lição que só o tempo ensina. “Quase todos os projetos demoram não duas vezes mais, mas dez vezes mais do que a gente imagina. E aí o entusiasmo acaba. O que fica é a paciência.” Talvez por isso, a palavra — quase fora de moda — seja central no seu discurso. “A gente fala muito pouco de paciência, como se fosse uma virtude menor. E não é. É ela que sustenta projetos, relações, tudo que importa.” E vai além: “Os grandes campeões não são os que jogam melhor, mas os que conseguem lidar com o fracasso muitas vezes até ganhar.” Se há um diagnóstico recorrente no trabalho da escola, ele passa pela dificuldade contemporânea de atenção. “A gente vive com muitas janelas abertas, com escolhas infinitas. Isso diminuiu nossa tolerância — ao erro, à frustração, ao outro.” O resultado é um mundo mais reativo e menos disposto a escutar. “A sabedoria está em conseguir expandir para lugares onde você não concorda — e ainda assim tolerar, escutar, conviver.” No Brasil, essa dificuldade ganha nuances próprias. “Aqui existe uma alegria muito singular, mas também uma tendência a levar tudo para o pessoal. O feedback vira ataque, não instrumento de crescimento.” Em outras culturas, diz ela, a relação é mais direta. “O brasileiro contorna. E quando recebe, se ressente.” A School of Life atua justamente nesse território das relações — amorosas, familiares e profissionais. Não por acaso, um dos temas mais explorados é o amor. “A gente parte de uma ideia simples: o amor dá trabalho.” E detalha: “Amor maduro é quando você atravessa o tempo e consegue amar também o que é difícil no outro.” Essa abordagem prática da filosofia — mais Sócrates na rua do que teoria em livros — é o que diferencia a proposta. “A filosofia nasceu da conversa, de perguntas abertas. Não de respostas prontas.” Em um mundo que exige posicionamentos imediatos, Jackie defende o contrário: “Às vezes, tudo que a gente precisa são cinco minutos com a pergunta certa.” A urgência do tema também aparece nos números. “De 2020 para 2025, tivemos um aumento de 130% nos casos de burnout e doenças psicossociais no trabalho.” Não por acaso, a escola ampliou sua atuação em empresas, ajudando lideranças a lidar com o fator humano. “Hoje não dá mais para separar. A pessoa que trabalha é a mesma que está lidando com pais envelhecendo, filhos, relações.” Ainda assim, é fora das telas que Jackie vê a transformação mais potente. “Estamos reaprendendo algo muito básico: olhar, escutar, estar presente.” Ela cita pesquisas recentes sobre a amígdala — área do cérebro ligada à regulação emocional — que teria sido impactada pelo isolamento e pelo excesso de mediação digital. “Ela funciona como um músculo. E só se desenvolve com convivência real.” Talvez por isso, iniciativas simples ganhem força dentro da escola, como cafés da manhã presenciais. “A grande revolução hoje é o convívio e a gentileza. É prestar atenção no outro.” No fim, o que Jackie propõe não é exatamente uma solução — mas um deslocamento. Menos performance, mais consciência. Menos velocidade, mais presença. “Ser humano não é algo que a gente simplesmente é. É algo que a gente aprende”, conclui. Sobre o São Paulo Innovation Week O evento reúne líderes, empresas, startups e especialistas em uma programação abrangente que conecta tecnologia, empreendedorismo, indústria, economia criativa, inteligência artificial e transformação social. Serão três dias de intensa programação, com: - Mais de 1.000 palestrantes em 30 conferências e 15 trilhas temáticas; - 1.000 startups, 200 expositores e um ambiente de geração de negócios; - Mentorias, workshops, exposições e ativações imersivas em espaços inovadores. Entre os nomes já confirmados, há autores de best sellers, ganhador do Nobel e intelectuais influentes estrangeiros. Como: Adam Frank, Luc Ferry, António Damásio, Daniel Goleman, Dmitry Muratov, entre outros. Os ingressos já estão à venda. Assinantes do Estadão têm 35% de desconto: clique aqui para adquirir o passaporte para os três dias de evento. Não assinantes devem acessar este link.