Novo governo, velhos desafios: para onde o Rio caminha

admin
23 Mar, 2026
Na política, tudo é passageiro. Nas estruturas de poder, ora se está no comando, ora se está fora. O que permanece – e isso independe de quem governe – é o bem-estar da população. Chegamos a um desses momentos de passagem. Com a mudança na principal cadeira do Palácio Guanabara, o estado do Rio de Janeiro se coloca diante de novas perspectivas. Ainda não se sabe quem estará no comando até outubro, quando acontecem as eleições; muito menos quem sairá vencedor nas urnas. Seja lá quem for o(a) eleito(a), o estado com o segundo maior PIB do Brasil tem desafios que vão muito além dos nomes – exigem uma visão estratégica aprimorada sobre os enormes potenciais além do petróleo que o território fluminense e seu povo possuem, e que precisam ser vistos com mais atenção. Passados mais de 50 anos da fusão entre os estados do Rio de Janeiro e da Guanabara, o próximo governante terá de mirar nesta realidade de dois estados que, embora unidos em 1975, ainda não trabalham de maneira coordenada. Há desafios gigantescos. A começar pela dívida bilionária. A situação fiscal do Rio de Janeiro é uma das piores do Brasil, o que dificulta a valorização dos servidores, a modernização da máquina pública e a realização dos investimentos de infraestrutura que os municípios precisam. Quem assumir o Governo do Estado terá, como primeira tarefa, assumir as condições previstas no Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), ao qual o Rio aderiu no final de 2025, que prevê investimentos necessários em setores como educação e infraestrutura. Sem dúvida, são investimentos com retorno garantido. Mas ajustar as contas, por si só, não bastará. O verdadeiro desafio estará em reposicionar a economia fluminense para além de sua histórica dependência do petróleo. É nesse ponto que o próximo governador precisará demonstrar visão de futuro e capacidade de articulação. Um primeiro eixo evidente está no fortalecimento do setor agropecuário, ainda subestimado no estado. Regiões como o Norte e o Noroeste Fluminense possuem vocação produtiva clara, mas carecem de políticas públicas mais consistentes, crédito acessível e apoio técnico. Investir em produtividade, inovação no campo e integração logística pode transformar o agro fluminense em um vetor real de desenvolvimento regional, reduzindo desigualdades históricas. Outro ponto central será a aposta mais ousada em ciência, tecnologia e inovação. O Rio reúne universidades de excelência, centros de pesquisa e capital humano qualificado, mas ainda falha em converter esse potencial em desenvolvimento econômico sustentável. É preciso aproximar academia e setor produtivo, estimular startups, fortalecer parques tecnológicos e criar um ambiente favorável à nova economia — aquela que gera empregos de maior qualidade e valor agregado. O turismo, por sua vez, segue sendo uma riqueza mal explorada. A capital é uma vitrine global, mas o interior ainda não foi plenamente integrado a essa cadeia. Um projeto consistente de turismo integrado — conectando litoral, serra, interior histórico e rural — pode ampliar o tempo de permanência dos visitantes, distribuir renda e dinamizar economias locais. Isso exige planejamento, infraestrutura e promoção coordenada, algo que historicamente faltou ao estado. Por fim, a retomada do crescimento passa inevitavelmente por grandes projetos de infraestrutura. Será fundamental a capacidade de articulação com o Governo Federal e a iniciativa privada. Projetos como a Ferrovia EF-118, ligando o Rio de Janeiro ao Espírito Santo, têm potencial para transformar a logística regional, reduzir custos, atrair investimentos e impulsionar cadeias produtivas inteiras. Mas, para sair do papel, dependem de prioridade política, segurança jurídica e planejamento de longo prazo. O próximo governador do Rio de Janeiro não terá o luxo de governar apenas para o presente. Precisará construir bases sólidas para o futuro, enfrentando velhos problemas com novas soluções e, sobretudo, enxergando o estado como um território diverso, cheio de oportunidades ainda pouco exploradas. Mais do que administrar crises, será preciso liderar um novo ciclo de desenvolvimento — um ciclo que finalmente conecte as diferentes vocações do Rio e coloque sua economia em um caminho mais equilibrado, inovador e sustentável. Sem falar na segurança pública (ou falta de), que teremos de abordar em um novo artigo. Aguardemos os próximos movimentos deste enorme tabuleiro.