Como uma mente saudável pode aumentar a longevidade
29 Mar, 2026
Nan Niland, 72, trabalhou como dentista por quatro décadas. "Era realmente minha autodefinição", diz ela. "Provavelmente mais do que deveria." Quando se aposentou, em 2020, estabeleceu uma rotina de exercícios, leituras, costura e caminhadas ao ar livre. Mas com o tempo começou a sentir falta de mais estrutura e de propósito. Foi então que soube, por um boletim local, sobre uma organização beneficente em sua cidade que recolhe e redistribui utensílios domésticos para famílias em situação de vulnerabilidade. Hoje, ela dedica cerca de 15 horas semanais ao trabalho voluntário. "Precisava sentir que estava fazendo algo além de me satisfazer", afirma. Muito se escreve sobre como hábitos físicos —exercício, alimentação e sono— contribuem para uma vida longa e saudável. Mas pesquisas indicam que, com o envelhecimento, uma mentalidade positiva marcada por otimismo e senso de propósito também pode beneficiar a saúde e aumentar a longevidade. Sentir que importa faz diferença A sensação de ser valorizado e de ter algo a oferecer aos outros —chamada pelos pesquisadores de "mattering" ("importar")— pode impulsionar comportamentos saudáveis com impacto direto na longevidade. "Se você sente que importa, é mais provável que mantenha vínculos sociais, cuide de si, esteja presente para os outros e continue investindo na vida", diz Jennifer B. Wallace, autora do livro "Mattering". A médica Linda Fried, que atuou como geriatra no início da carreira, percebeu que muitos de seus pacientes estavam "genuinamente doentes", mas a causa do adoecimento era, frequentemente, a ausência de um motivo para levantar da cama pela manhã. Ela passou a recomendar o voluntariado e, mais tarde, criou seu próprio programa de pesquisa sobre o tema. Os resultados mostraram que pessoas que se voluntariaram ficaram mais ativas fisicamente, se sentiram mais fortes e apresentaram leve melhora em testes cognitivos após alguns meses. Também relataram maior sensação de deixar um legado e de contribuir com a comunidade. O voluntariado, porém, não é o único caminho. Tornar-se presença habitual em um café, numa praça ou em qualquer outro espaço de convivência também ajuda. "Encontrar ambientes onde você sente que importa protege contra a solidão e o esvaziamento de sentido que podem surgir na aposentadoria", diz Wallace. O poder do otimismo Manter uma visão positiva da vida —e do próprio envelhecimento— também traz benefícios concretos. Um estudo de 2022 revelou que mulheres acima dos 50 anos com os maiores índices de otimismo viveram, em média, 5% mais e tiveram maior probabilidade de chegar aos 90 anos do que as menos otimistas. Outra pesquisa recente mostrou que adultos a partir dos 50 anos com atitude positiva em relação ao envelhecimento —aqueles que se sentiam tão úteis ou felizes quanto quando eram mais jovens— mantiveram ou até melhoraram levemente seu desempenho em testes físicos e cognitivos ao longo de 12 anos. Segundo Becca Levy, professora de saúde pública e psicologia na Universidade Yale que coordenou o estudo mais recente, o mecanismo é parecido com o do "mattering": sentir que há algo a esperar do futuro leva as pessoas a seguir orientações médicas, praticar mais atividade física e manter relações sociais. Pesquisas de Levy indicam ainda que uma visão positiva do envelhecimento pode proteger contra o estresse, reduzindo níveis de cortisol e marcadores de inflamação. Envelhecer, é claro, não é fácil. Perder pessoas queridas, enfrentar doenças ou assumir o papel de cuidador pode abalar a identidade e a perspectiva de qualquer um. Mas o otimismo, nessas situações, não significa negar as dificuldades. "Tem muito mais a ver com resiliência do que com positividade", diz Deepika Chopra, psicóloga da saúde. Pessoas otimistas "enxergam os obstáculos como algo temporário, que têm condições de superar." Para cultivar o otimismo, Chopra recomenda o hábito diário de antecipar algo com prazer —pode ser uma caminhada, uma conversa com um amigo ou até o que vai comer no jantar. "Quando as pessoas imaginam repetidamente o futuro como limitado ou em declínio —o que muitos idosos fazem—, o cérebro começa a reforçar essas expectativas", explica. "Mas se direcionarmos conscientemente a atenção para algo pequeno, um momento positivo futuro por dia", isso treina o cérebro a antecipar que coisas boas ainda estão por vir. O avô de Chopra, Madan Syal, é um exemplo vivo dessa atitude. Ele diz se sentir bem com o envelhecimento e aprecia jogar cartas com a esposa todos os dias. Mas o que ele realmente aguarda com entusiasmo é completar 100 anos em julho.