“Por Dentro da Machosfera” mostra como o algoritmo perverte a masculinidade

admin
30 Mar, 2026
Lá pelas tantas do documentário “Por Dentro da Machosfera”, o jornalista Louis Theroux pergunta a um dos personagens que vive de promover o discurso belicoso típico da bolha dos redpillados: “Por que não ser uma pessoa boa?” O sujeito explica o óbvio: moderação, caridade e misericórdia não geram engajamento. Não dão dinheiro nem fama nem influência. O algoritmo quer o caos. A cizânia! ENTRE PARA A MINHA COMUNIDADE NO WHATSAPP! [https://sndflw.com/i/BGCLFclD6FuMggrDeeYS] Só por causa desse diálogo “Por Dentro da Machosfera” já valeria a recomendação. Mas o filme tem mais coisas interessantes. Quase todas deprimentes, mas interessantes. Desde a misoginia de fachada até a análise meio psicanalítica que Theroux faz dos entrevistados usando um recurso muito simples e eficiente: o silêncio. E, porque o entrevistador se mostra interessado em ouvir, os personagens se revelam. Insegurança Mas me empolguei aqui. Permita-me voltar algumas casas para dizer que “Por Dentro da Machosfera” é um documentário da Netflix sobre os influenciadores que vivem de pregar uma masculinidade sem outro valor que não a própria masculinidade. É uma gente vaidosa (o que vai contra o que entendo por “masculinidade”, mas tudo bem) e que se acha melhor do que os outros porque tomou a “red pill”. Isto é, são uns machos de araque que se dizem capazes de ver o que acontece nas entranhas do Sistema, sem jamais se deixarem contaminar pelo Sistema. É uma doideira infelizmente muito real e um pesadelo que mistura muita insegurança e... Não, é insegurança pura! Outra característica, aliás, raramente associada ao tipo de masculinidade que os machinhos da machosfera tanto exaltam. Sofrimento Mas seria um erro de minha parte, aqui, ficar só na revoltinha histérica contra os influenciadores da machosfera e não pensar nas causas do fenômeno francamente nojento. Na promiscuidade, na hipergamia, no desequilíbrio no mercado de relacionamentos, na pressão social pelo sucesso, nas taxas de suicídio masculino e na cultura da “ignorância esclarecida” própria da Internet. Nada disso, claro, justifica a brutalidade moral da machosfera. Mas ajuda a entender por que o discurso red pill encontra terreno fértil, sobretudo nas mentes mais despreparadas. São assuntos que a gente não vê sendo discutidos a sério por aí. Pelo contrário! Parece que há um esforço para se varrer todos esses problemas para debaixo do tapete. Ou, pior, para reduzi-los a expressões de ódio. Quando dá para ver na cara dos influenciadores da machosfera que, por falta de homens realmente bons e que lhes sirvam de exemplo, eles estão sofrendo. Sofrendo muito. E fazendo muita gente sofrer também. Influenciadores toscos Agora me pergunta se o documentário é politicamente enviesado. (...) É. Claro que é! Mas o que se pode fazer se alguns líderes de direita fazem questão de se associarem a uma gente ignorante e truculenta? O que fazer se esses influenciadores toscos promovem uma ideia retrógrada (e nada cristã!) da família tradicional? Como ignorar o fato de que os machos redpillizados exaltam o que o capitalismo tem de pior e são imprudentíssimos ao gozarem da liberdade? Não tem como fechar os olhos para o fato de que sempre haverá idiotas para perverterem o ideário conservador. Assim como a esquerda perverteu boa parte do ideário progressista e assim como sempre haverá idiotas para consumir acriticamente esses ideários pervertidos. Ainda mais com as redes sociais estimulando o conflito, botando lenha na fogueira e atiçando os ânimos de uma juventude carente de líderes virtuosos e que se façam seguidos pelo exemplo, não pelo escândalo e suas aparentes vantagens.