‘O Evangelho Segundo São Mateus’ ganha sessão especial no Cine Cultura
2 Apr, 2026
Marcus Vinícius Beck Jesus Cristo varreu os vendilhões do templo. Trouxe a espada, não a paz. Para os críticos, esse Cristo seria uma autorrepresentação de Pier Paolo Pasolini, diretor de “O Evangelho Segundo São Mateus”, que terá sessão neste sábado (4/4), no Cine Cultura, em Goiânia. É um Cristo dos pobres, um Cristo ecumênico, como disse José Geraldo Couto. No site do Instituto Moreira Salles (IMS), ele lembra que o Jesus Cristo pasoliniano operava milagres, ainda que o cineasta italiano quisesse sublinhar sua condição terrena, carnal e humana. Ateu, comunista e homossexual, Pasolini lançou o filme em 1964. O diretor venceu o prêmio do júri no Festival de Veneza daquele ano, ao associar crença católica e marxismo. Sua ideia, dizia, era reviver a vida sacralizada de Cristo desde seu nascimento até sua ressurreição. Para tanto, o cineasta recorreu ao preto e branco. A fotografia é pura, sem efeitos visuais. Os diálogos são objetivos, telegráficos. A montagem optou pelo corte seco. Aquele discurso — o “Sermão da Montanha” — foi filmado com Cristo em primeiro plano e o mar ao fundo. A luz mudava, de acordo com a hora do dia. Pasolini queria chegar próximo ao texto bíblico. Neorrealista, fez das paisagens ao sul da Itália a locação. Os trabalhadores da região foram figurantes. Jesus Cristo foi interpretado pelo estudante espanhol Erique Irazoqui, de 19 anos. Quando escolhido para Cristo, Irazoqui desconfiou. “Muito ideológico”, afirmou. Mas logo se viu convencido pelo escritor comunista Giorgio Manacorda a aceitar o papel: “Faça um Jesus Cristo gramsciano.” Manacorda se referia ao filósofo italiano Antonio Gramsci. Ator Erique Irazoqui, de 19 anos, interpreta Jesus Cristo em filme – Foto: Divulgação Contexto Todo o cachê de Irazoqui se destinou às causas antifranquistas. Por sua participação em “O Evangelho Segundo São Mateus”, esteve sob o radar da Falange Espanhola Tradicionalista, partido que Francisco Franco criou nos anos 30 para aglutinar fascistas e monarquistas. Na cena da crucificação — o clímax dramático —, Maria foi interpretada pela própria mãe do diretor italiano. Pier Paolo Pasolini afirmava que seu filme era uma narrativa épica-lírica, com tom nacional-popular. “É um grande mito popular”, declarou a jornalistas, em 1964. Segundo o cineasta, essa visão remonta a Gramsci, deputado e secretário-geral do Partido Comunista Italiano (PCI). Pasolini, morto em 1975, aos 53 anos, sob circunstâncias ainda não elucidadas, defendia a necessidade de se distinguir dois níveis: o pessoal e o social-nacional. “Há a religião como eu a vivencio e a concebo, e há a religião como eu a percebo entre o povo. Há a maneira como as massas hoje imaginam Cristo”, explicou o diretor, na coletiva. “Não me propus a criar uma reconstrução histórica do Evangelho Segundo São Mateus.” Autor do livro “Il Vangelo Secondo Matteo”, Roberto Chiesi é categórico: “Trata-se de filme impulsionado por uma paixão pelos pobres, pelos despossuídos, pelos marginalizados.” Chiesi ainda diz que os corpos ao centro do Evangelho pasoliniano expressam sofrimento. Cineasta era fascinado pelo sentido artístico da fé Pier Paolo Pasolini foi intelectual de expressão na Itália – Foto: Divulgação Para Roberto Chiesi, Pasolini era fascinado pelo mundo popular e pela tradição artística que essa fé refletia. “Em muitas cenas de ‘O Evangelho Segundo São Mateus’, ecoam os mestres da Renascença sem citá-los, mas sim evocando-os respeitosamente”, explica Chiesi. Pasolini, apregoa, adorava o irracional e os rituais religiosos. Embora seu senso sagrado envolvesse uma dimensão sombria, não separava o espírito da carne. Sentia urgência em dialogar com isso porque era um intelectual — escrevia poemas, textos jornalísticos, teatro. Nem sempre foi assim, há que se dizer. Após o Festival de Veneza, os católicos criticaram o filme: “Pouco sagrado.” Foi preciso meio século para que o jornal “L’Osservatore Romano”, porta-voz do Vaticano, reconhecesse a habilidade do diretor em “deixar a Bíblia fluir”. Assinado pelo editor Giovanni Maria Vian, o texto entendia ser “o melhor filme já feito sobre a vida de Jesus”, bem como uma obra-prima do cinema. E destacava que “a humanidade febril e primitiva que o diretor mostra na tela concede um novo vigor ao verbo cristão”. A trilha sonora reforça tudo isso. Na película, ouve-se o gospel-blues “Dark Was The Night, Cold Was The Ground”, de Blind Willie Johnson, além do spiritual “Sometimes I Feel Like a Motherless Child”, na voz de Odetta — mas também é bom ouvir a versão de Mahalia Jackson. A “Paixão de São Mateus”, de Bach, também se escuta no filme pasoliniano. “Podemos observar que a música moderna, com seu acento revolucionário, corresponde ao elemento revolucionário da luta que Cristo teve de enfrentar”, disse Pasolini, em conversa com a imprensa. “Enquanto a música clássica corresponde ao elemento divino ou místico.” “O Evangelho Segundo São Mateus” é, acima de tudo, desprovido de complacência com os opressores. Como escreveu Glauber Rocha, Pasolini retrata um “Cristo desmistificado e revolucionário, que parece ter saído das encíclicas de João XXIII”. É para ser revisto sempre. The post ‘O Evangelho Segundo São Mateus’ ganha sessão especial no Cine Cultura appeared first on Diário da Manhã - O Jornal do leitor Inteligente .