Cinco anos depois, qual é o saldo das vacinas contra a Covid-19?
7 Apr, 2026
Durante a pandemia de Covid-19, o Brasil experimentou uma crise parecida com a que havia ocorrido no início do século 20. No centro de ambas as situações estavam as vacinas: no caso mais recente, foram aquelas contra o coronavírus e suas variantes; no mais antigo, as doses que imunizavam contra a varíola. Outro ponto em comum foi a defesa inflamada de ambos os lados, de que ou a vacina ajudaria a erradicar a doença ou de que as aplicações causariam mais danos do que o vírus sozinho. Cinco anos depois do início da aplicação das vacinas contra a Covid-19, é possível apontar que as visões mais otimistas e mais pessimistas do espectro estavam equivocadas. Diferente do que esperavam lideranças políticas mundo afora, a pandemia não acabou logo após o início da imunização. Do mesmo modo, apesar de haver casos registrados de efeitos colaterais, as vacinas mais preveniram do que agravaram o quadro de saúde das pessoas. Mais de 5,5 bilhões de pessoas foram imunizadas contra a Covid-19; cinco anos depois, não há qualquer sinal de sequelas em larga escala. Veja a seguir alguns dos posicionamentos mais enfáticos a favor das vacinas contra a Covid-19. Expectativas otimistas demais Tedros Adhanom Ghebreyesus Em janeiro de 2021, o então diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) se reuniu com líderes de vários países para avaliar o início da vacinação. Naquele momento, apenas 36 países tinham dado início à aplicação das doses. “As vacinas estão nos dando esperança real de controlar a pandemia nos próximos 12 meses”, afirmou o líder da OMS. Após 12 meses, em janeiro de 2022, o Brasil registrou o período de maior letalidade da doença. António Guterres Em setembro de 2021, o secretário-geral da ONU defendeu um plano global de vacinação contra a Covid-19. No evento, ele lamentou a desigualdade na distribuição das vacinas pelo mundo e cobrou uma ação integrada de todos os países. “A segurança global da saúde falhou até agora, custando 4,5 milhões de vidas, e com as cifras aumentando. Temos vacinas eficazes contra a COVID-19. Podemos acabar com a pandemia”, disse o secretário-geral da ONU. O fim da Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional da Covid-19 só foi declarado pela OMS em 5 de maio de 2023. E, mesmo assim, não é que o vírus e suas variantes tivessem sido erradicados: a declaração serviu apenas como um marco para o fim da fase mais aguda da transmissão da doença. Joe Biden Em julho de 2021, o então presidente dos Estados Unidos reforçou a necessidade de aplicação da vacina como a única forma de se acabar com a pandemia de Covid-19. “É muito simples. A pandemia existe para aqueles que não foram vacinados. Se você estiver vacinado, não será hospitalizado, não ficará na UTI e não vai morrer”, disse Biden, em entrevista à CNN norte-americana. Até 29 de dezembro de 2021, o Sistema de Registro de Casos Adversos de Vacinas dos EUA (VAERS, na sigla em inglês) recebeu cerca de 10 mil relatos de mortes ocorridas em qualquer momento após a vacinação. A grande maioria dos casos era referente a idosos internados em instituições de longa permanência, onde a taxa de mortalidade natural por causas pré-existentes já é elevada. João Doria O então governador de São Paulo foi o primeiro entre seus pares a dar início à vacinação contra a Covid-19 no Brasil, em janeiro de 2021. Crítico mordaz de Jair Bolsonaro, Doria costumeiramente acusava seu antagonista de “negacionismo” em relação aos imunizantes. “Se podemos começar a salvar vidas já, por que vamos esperar que diariamente, quase 700 pessoas percam a vida para atender o capricho de alguém que está sentado no Palácio do Planalto e acha que tem de ser uma única vacina no País? Isso não é justo, não é humano”, afirmou Doria ao anunciar o lançamento do plano estadual de vacinação contra a Covid-19, em dezembro de 2020. Mesmo com as vacinas já disponíveis e sendo aplicadas, o país registrou em abril de 2021 o pico de mortes diárias provocadas pela doença: foram 4.249 óbitos relacionados ao coronavírus em um período de 24 horas. Críticas à vacina se mostraram exageradas Conforme a vacinação foi avançando no Brasil, vozes críticas aos alegados efeitos colaterais dos imunizantes se acumularam. Seja para as vacinas à base de mRNA, como a da Pfizer ou a da Moderna, ou para aquelas baseadas em vetores virais, como a da AstraZeneca e a Janssen, a rapidez na criação da vacina e a tecnologia empregada foram duramente criticadas. Assim como na Revolta da Vacina de 1904, narrativas alarmistas amedrontaram e desincentivaram o uso dos imunizantes. A seguir, veja alguns estudos que ajudam a entender que, apesar de terem efeitos colaterais, as vacinas não pioraram de forma generalizada o estado de saúde das pessoas após a aplicação. Miocardite provocada por vacinas de mRNA? Na bula da Comirnaty, a Pfizer reconhecia que um dos efeitos colaterais conhecidos da vacina contra a Covid-19, “com mais frequência em homens mais jovens”, é a inflamação do coração (miocardite) e de seu revestimento (pericardite). Em 2022, sabia-se que o número de casos era baixo, mas a frequência exata ainda estava em debate. Estimativas da época sugeriam um caso a cada três mil vacinados com duas doses, e um caso a cada 10 mil que tomaram a dose de reforço da vacina de mRNA, na população entre 18 e 39 anos. Um estudo de 2024 publicado na revista Nature [https://www.nature.com/articles/s41541-024-00893-1] revisou outras pesquisas envolvendo milhões de pacientes e identificou que a incidência de miocardite em vacinados pode chegar, em públicos específicos, a algo entre 1 a 5 casos a cada 100 mil pacientes. O estudo ainda reforça que os casos da doença são maiores entre aqueles que não tomaram nenhuma dose das vacinas à base de mRNA. A infecção por SARS-CoV-2 foi associada a um risco de miocardite 18,28 vezes maior em comparação com pessoas não infectadas, segundo o estudo, enquanto a vacinação foi associada a um risco 3,24 vezes maior em comparação com pessoas não vacinadas. Em síntese, o estudo conclui que as vacinas mantêm um balanço entre risco e benefício claramente positivo, pois, embora a vacinação apresente possibilidade muito rara de miocardite, a própria infecção pelo vírus representa um perigo muito mais elevado para o coração e para a saúde geral. Os imunizantes podem desencadear outros problemas de saúde? Um estudo publicado na revista Vaccine em abril de 2024 e disponível [https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38350768/] na Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos cita a ocorrência de outras doenças além da miocardite potencialmente provocadas pelas vacinas contra a Covid-19. Segundo a pesquisa realizada com quase 100 milhões de pessoas vacinadas contra o coronavírus, houve um aumento de 2,49 vezes de casos de Síndrome de Guillain-Barré após a primeira dose da vacina AstraZeneca. A síndrome é uma doença autoimune rara e grave, onde o sistema imunológico ataca por engano os nervos periféricos, causando inflamação, fraqueza muscular progressiva e formigamento, podendo levar a paralisia temporária. A mesma vacina teria, segundo o estudo, sido responsável pelo aumento de 3,23 vezes dos casos de Trombose de Seio Venoso Cerebral. A doença é um tipo raro de Acidente Vascular Cerebral (AVC) que ocorre quando um coágulo sanguíneo bloqueia as veias ou seios durais do cérebro, impedindo a drenagem de sangue. Ao contrário do AVC arterial, afeta frequentemente jovens e mulheres. Por fim, a pesquisa ainda coloca na vacina de mRNA da Moderna a possível responsabilidade pelo aumento de 3,78 vezes nos casos de Encefalomielite Disseminada Aguda, uma doença inflamatória autoimune rara do sistema nervoso central, caracterizada pela perda de mielina no cérebro e medula espinal. Comum em crianças, geralmente ocorre após infecções virais ou vacinação. Ainda assim, o estudo mostrou que na prática esses casos adversos acontecem em uma frequência entre 1 e 2 casos a cada milhão de pacientes vacinados. O estudo concluiu que a identificação desses sinais serve para que as autoridades de saúde possam investigar mais a fundo e refinar as orientações de segurança. A vacina poderia causar mais mortes do que a própria Covid-19? Em 2021, o vencedor do prêmio Nobel de Medicina em 2008, Luc Montagnier, disse, em entrevista para um documentário, que novas variantes dos vírus seriam produtos e resultados da vacinação. Para sustentar sua afirmação, o francês disse ainda que em cada país a curva de vacinação seria acompanhada pela curva de mortes, sugerindo que quanto maior fosse a quantidade de vacinados, maior também seria o número de mortes naquele país. Apesar de o vídeo ter sido retirado do ar, a fala do especialista ganhou repercussão. A resposta ao argumento de Montagnier, porém, veio no final de 2025 com a publicação de um estudo pelo JAMA [https://jamanetwork.com/journals/jamanetworkopen/fullarticle/2842305], um dos periódicos científicos mais respeitados do mundo. A pesquisa acompanhou 28 milhões de adultos para avaliar a segurança a longo prazo das vacinas contra a COVID-19. Os pesquisadores compararam a mortalidade por todas as causas entre indivíduos vacinados e não vacinados em um período de quatro anos. Os resultados indicam que não houve aumento no risco de morte para o grupo vacinado, que apresentou uma probabilidade significativamente menor de falecer por complicações graves da doença. Além disso, a análise estatística demonstrou uma redução na mortalidade geral.