Que o Cruzeiro se salve das vaidades e da intolerância
8 Apr, 2026
Ganhando ou perdendo, não importa. Algo podre está no ar. E não se resume ao vestiário do Cruzeiro ou aos bastidores da sua SAF. A humanidade, como um todo, está por um fio. Não somente por conta das guerras e bombas, mas, principalmente, pelo assustador destampar do esgoto de onde emergiram – sem qualquer vergonha ou pudor – a imbecilidade, a ode ao ódio e o completo abandono ao senso de coletividade, de cidadania, de convívio harmonioso entre os povos, as nações, os diferentes e mesmo entre os iguais. O mundo está se afogando na intolerância programada. Seja na falta de empatia entre jogadores de futebol de um mesmo time, como começa a vir à tona no elenco celeste, ou na estratégia de novos Hitler’s que estão cometendo genocídios (Palestina, Líbano, Irã, Cuba, Sudão, entre outros), com abjeto objetivo econômico e de poderio político. O pior é ver que a geração atual de jovens (e de adultos individualistas e imbecilizados) não olha para essa questão da falta de empatia e de respeito ao outro com a preocupação que deveriam. Pior, normatizam e, assim, avalizam tanto a “ilha da fantasia” em que se transformou o futebol mercantilizado quanto o extremismo político. O episódio do afastamento do volante Walace é só um pequeno sinal do quanto o mundo do futebol atual também está mergulhado no individualismo e na intolerância. Pelo ocorrido e publicizado, é possível imaginar como deve ser o vestiário, o centro de treinamento, as concentrações, a “casa” de um elenco de jovens e adultos (alguns infantilizados) onde cada um recebe fortunas que vão de 200 mil a 2 milhões de reais por mês. A mensagem vazada de Walace foi como o descuidar de deixar a janela de uma casa desorganizada aberta exatamente no momento em que um vizinho passou e assistiu uma cena estarrecedora. Em outras palavras, a crítica do volante a um colega de trabalho não é um fato isolado. Ela é só a pequena parte – tornada pública – de algo tenebroso muito maior que está encoberto ou ainda não detonado. Os primeiros resultados do Cruzeiro no Brasileirão e na Libertadores (vexames consecutivos entremeados por lampejos de recuperação) deixam evidente que se nada de muito forte for feito pelo “dono dessa casa” não terá cortina suficiente para esconder o que se passa de podre por detrás da janela. A aparente inércia deixa o risco de ser tarde demais, pois a tendência é que o interior desse lar cruzeirense se quebre sem chance de conserto. Por seu lado, Artur Jorge, que chegou causando boa impressão, faz o que se espera dele: tenta blindar qualquer ambiente desestabilizado, durante suas declarações públicas, pois, sabe ele, isso também é papel de um comandante. Mas a ponta final desse para-raios (para-vaidades) não pode ficar no treinador. É urgente que o comando da SAF Cruzeiro também dê sinais claros – e públicos – de que não admitirá mais essa casa cheia de individualismo e desrespeito com o coletivo. Cabe aos donos da SAF e aos seus diretores imediatos a obrigação de exigir – de forma enérgica e pública – que o elenco de salários milionários se enquadre. Repito o que venho dizendo nos rabiscos das semanas anteriores: o Cruzeiro não estará na briga contra o rebaixamento na reta final do Brasileirão. Porque, ao contrário de 2019 e 2023 (quando escapou por um triz), a indignação da Nação Azul está antecipada. Mas é fundamental lembrar a todo momento que o investimento feito para essa temporada de 2026 foi para ser campeão de tudo – e não para lutar contra o pior. Se no Campeonato Brasileiro já estamos fora do páreo, é urgente mostrar claramente a esses jogadores mimados, individualistas e sem nenhuma empatia que, se as conquistas da Libertadores e da Copa do Brasil não vierem, a culpa será única e exclusivamente deles.