Brasil tem recorde de voos, mas judicialização trava setor, diz Iata
12 Apr, 2026
Brasil tem recorde de voos, mas judicialização trava setor, diz Iata Resumo O Brasil bateu recordes na aviação e no turismo internacional em 2025. Os aeroportos do país transportaram 129,6 milhões de passageiros no ano passado, enquanto o número de visitantes estrangeiros que vieram ao país por via aérea chegou a 9,3 milhões, ambos os maiores da série histórica. Mesmo assim, o país ainda não aproveita todo o potencial que tem para crescer no transporte aéreo. Essa é a avaliação de Peter Cerdá, vice-presidente regional da Iata (Associação Internacional de Transporte Aéreo) para as Américas. Em entrevista exclusiva ao UOL, o executivo afirmou que o avanço recente mostra o compromisso das companhias aéreas com o mercado brasileiro, mas ressaltou que ainda existem entraves estruturais que impedem uma expansão maior do setor. "Quando olhamos os números do mercado doméstico, foi um ano muito forte e positivo. Isso mostra o compromisso da indústria em continuar crescendo no Brasil, mesmo com todos os desafios que ainda enfrentamos", disse. Segundo ele, o aumento da demanda indica que mais pessoas estão viajando e que o país segue avançando na ampliação do acesso ao transporte aéreo. "Mais pessoas estão viajando, o que é muito bom. Estamos no caminho certo para tornar o transporte aéreo viável e acessível para todos os brasileiros", afirmou. Turismo ainda pouco explorado Apesar do crescimento recente, Cerdá avalia que o Brasil ainda recebe menos turistas internacionais do que poderia, considerando suas dimensões e atrativos. O país registrou cerca de 9,3 milhões de visitantes estrangeiros em 2025. Para o executivo da Iata, esse número mostra espaço significativo para expansão e que há uma grande oportunidade. "Quando você olha para países como Espanha ou México, o Brasil tem todos os ingredientes para se tornar um destino dominante para viagens e turismo", disse. Na avaliação dele, o setor precisa atuar de forma mais coordenada com o governo para transformar esse potencial em resultados concretos. "O setor de viagens e turismo precisa estar melhor alinhado. Precisamos transmitir mensagens mais claras ao governo sobre o que é necessário para que o país cresça mais nesse segmento", afirmou o executivo. Entraves: Custos e judicialização Entre os principais obstáculos para o crescimento da aviação no Brasil, Cerdá cita o ambiente regulatório, os custos elevados e o alto nível de judicialização do setor. "O Brasil não pode continuar sendo o país mais litigioso do mundo [na aviação]. Simplesmente, não pode", afirmou. Segundo ele, o custo total de uma viagem aérea vai muito além da tarifa paga pelo passageiro, já que inclui diversos encargos e taxas. "Me frustra muito quando o governo diz que viajar é caro. Bem, por que é caro? Quando você começa a destrinchar o custo total, a viagem é apenas uma parte, mas depois existem todos esses custos adicionais, como a sobretaxa de combustível, as tarifas aeroportuárias e assim por diante", disse Para Cerdá, mudanças no ambiente regulatório e na estrutura de custos poderiam contribuir diretamente para ampliar o acesso ao transporte aéreo. "Se o governo, particularmente o governo brasileiro, trabalhar junto com a indústria para criar o ambiente regulatório correto e reduzir alguns desses custos que estão atualmente no consumo, isso certamente terá um impacto positivo", afirmou. Reforma tributária preocupa Outro ponto que preocupa a indústria é o impacto da reforma tributária sobre o custo das viagens. Segundo o executivo da Iata, a alíquota estimada em torno de 26% pode tornar o transporte aéreo mais caro para muitos brasileiros. "Uma alíquota de 26% terá um efeito devastador sobre viagens e turismo", afirmou. De acordo com o executivo, o aumento de custos pode reduzir a demanda e afetar diretamente a expansão das rotas aéreas. "Se as viagens ficarem mais caras, muitos brasileiros simplesmente não poderão viajar. [...] Isso pode fazer com que as companhias reduzam frequências ou deixem de abrir novas rotas", disse o executivo. Além do impacto para passageiros, Cerdá ressaltou que a conectividade aérea também é essencial para o transporte de cargas e para a integração de regiões mais isoladas do país. "Em um país como o Brasil, onde você está se candidatando a muitas comunidades com acesso difícil ou inexistente por via terrestre, o transporte aéreo se torna crucial do ponto de vista social e de saúde", afirma Cerdá. Eleições no Brasil Cerdá também destacou a importância de diálogo entre o setor e o próximo governo após as eleições presidenciais. Segundo ele, independentemente de quem seja eleito, a indústria aérea precisa trabalhar em parceria com a administração desde o início do mandato. "Independentemente de quem seja eleito, o importante é que a indústria trabalhe muito próxima da nova administração desde o início", afirmou. De acordo com ele, a aviação pode contribuir diretamente para o desenvolvimento econômico do país, desde que existam condições adequadas para o crescimento do setor. "Se a indústria puder contribuir para o sucesso e para a agenda [proposta] do novo governo, todos nós nos beneficiaremos. Mas também precisamos que o governo faça a sua parte para criar as condições adequadas", disse Cerdá. Evento no Brasil como oportunidade A realização da Assembleia Geral Anual da Iata, um grande encontro internacional da aviação, no Brasil também mostra o interesse da indústria global no mercado brasileiro. Para Cerdá, trazer executivos de companhias aéreas, fabricantes e fornecedores para o Brasil é uma forma de destacar tanto o potencial quanto os desafios do setor no país. "Em um evento como a assembleia da Iata é que você traz toda a comunidade da aviação, como os executivos mais seniores das companhias aéreas, fabricantes e fornecedores. Governos de várias partes do mundo vindo ao Brasil é um reflexo claro do compromisso da indústria com o país, mas também é uma oportunidade. A indústria será muito honesta com o Brasil", afirmou Cerdá. Ao mesmo tempo, ele destacou que o evento também serve para discutir abertamente os obstáculos que ainda precisam ser superados. "É uma oportunidade para mostrar as oportunidades do Brasil, mas também para sermos muito claros sobre quais são os desafios e o que precisa ser feito para que o país cresça mais rapidamente no transporte aéreo." "[É uma oportunidade de] apresentar o Brasil e suas oportunidades, mas também deixar bem claro para o governo que queremos trabalhar em estreita colaboração com o governo atual e com o novo governo que assumirá o poder", concluiu Peter Cerdá. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.