Biólogos identificam duas novas espécies de besouro-joia, uma delas por acaso
15 Apr, 2026
Besouros são um dos grupos mais bem-sucedidos da história da vida na Terra. São mais de 400 mil espécies conhecidas desses insetos, e essa lista acaba de aumentar. Pesquisadores descreveram em um artigo, publicado em março no periódico Biodiversity Journal, duas novas espécies de besouros do gênero Agrilus, da família Buprestidae, que inclui espécies conhecidas como besouros-joias. Os autores são Letizia Migliore, pós-doutoranda do Laboratório de Entomologia do Museu de Zoologia da USP (MZUSP), e Giancarlo Curletti, pesquisador do Museu Cívico de História Natural de Turim (Itália). A primeira espécie, Agrilus butantan, foi batizada em homenagem ao Instituto Butantan, na zona oeste de São Paulo, onde ela foi encontrada. A segunda, A. ciliaris, é natural da Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso, e fazia parte da coleção de Entomologia do MZUSP. O espécime passou despercebido por mais de uma década na coleção. Os buprestídeos são muito característicos, e é relativamente fácil distinguir uma espécie da outra com base em sua morfologia externa, segundo Letizia. "A coloração, o tamanho, tudo era diferente." Conhecida apenas por um único exemplar —uma fêmea—, A. butantan chama a atenção pela sua beleza. Ela possui os élitros (escudos que recobrem as asas) em tons variados de laranja, marrom e preto, com um "V" invertido na seção medial do corpo em branco. O ventre é todo amarelado, com uma faixa preta central. As antenas são robustas e o escutelo (uma pequena placa triangular visível entre a base dos élitros) é grande com uma mancha preta. O animal é maior do que costumam ser as demais espécies do gênero. A espécie A. ciliaris possui uma coloração entre roxo, preto, laranja e amarelo com duas manchas amarelas na porção medial e duas na porção final dos élitros, e o ventre é branco e preto. Os besouros da família Buprestidae costumam ser específicos das plantas que se alimentam, o que torna mais difícil identificar uma espécie nova, já que se não for buscada a planta exata pode ser que o encontro nunca ocorra. "Eles são diurnos e não são fáceis de capturar com as armadilhas [luminosas]", diz. O fato curioso da descoberta é que A. butantan foi encontrado pela irmã gêmea de Letizia, Serena Migliore. Ela também é bióloga e trabalha no LEEv (Laboratório de Ecologia e Evolução) do Instituto Butantan. "A Serena sempre faz o mesmo caminho até o LEEv, e lá ainda existe bastante vegetação, e certo dia ela viu esse buprestídeo comendo uma plantinha [um chal-chal, gênero Allophylus] e ficou surpresa, porque ele era muito diferente, laranja, muito bonito. E ela conseguiu coletar o bicho, com a plantinha que ele estava se alimentando", conta Letizia. Além de mandar as fotos para a irmã, Serena as encaminhou a Curletti, especialista no grupo, que ficou entusiasmado. "Ali a gente já constatou que era uma espécie diferente", diz Letizia. Segundo Letizia, a expectativa é que a porção de vegetação no Butantan seja mantida, garantindo assim a sobrevivência da espécie. "Se aquela região de mata que tem no instituto desaparecer, é provável que o bicho também desapareça." Esper Kallás, diretor do Instituto Butantan, diz que a homenagem "reflete como a atmosfera de curiosidade científica transmitida pelo Butantan contamina a todos, e a dedicação e compromisso que temos com a ciência brasileira e mundial". Letizia e Serena trabalham em áreas distintas: a primeira seguiu para a sistemática e evolução de besouros (entomologia), enquanto a segunda tem suas pesquisas com foco na ecologia de répteis de ilha (herpetologia). "Aos cinco anos, nosso pai já nos levava para coletar insetos e ganhamos o primeiro saco de puçá [para capturar insetos]. E aí o amor foi nutrido cada vez mais, até a hora de seguir para a faculdade, e optamos por biologia", diz Letizia. As irmãs dizem que costumam se ajudam nos trabalhos de campo. Quando uma encontra algum inseto ou lagarto que possa interessar à outra, a ideia é fotografar ou tentar capturar os animais. "Ela continuou com os insetos e eu fui para a herpetologia, mas eu estou sempre buscando bichos", diz Serena. O encontro fortuito de uma "pequena joia" no caminho do trabalho de Serena sugere que ainda existem descobertas a serem feitas em áreas verdes na capital. "O fato de A. butantan ter sido encontrado nessa região específica, no meio da cidade, em um lugar que ainda tem fragmento de mata, nos indica que deve ter muito mais ainda por se conhecer, e é importante tentar manter isso."