Crônica: Melhor com ele
25 Apr, 2026
"Quando me vi pela primeira vez em um pequeno e simples quarto de hotel, sozinha, em Paris, foi como se esse mundo sonhado estivesse se abrindo finalmente todo para mim". Quando fiz 18 anos, o que eu mais queria era ser livre, e ser realmente livre na época, na minha bolha, era ter um carro. Quando aconteceu parecia que eu tinha ganho o mundo todo. Sair em horários que eu decidia, por caminhos que eu não conhecia, interagindo sem intermediários com pessoas novas. Essa pequena liberdade me parecia um ato transgressor para uma menina criada com regras e uma ideia de mundo perigoso demais para uma mulher. Lembro de conquistar avanços dentro de São Paulo. Quanto mais longe eu ia do bairro em que nasci, mais livre me sentia e mais imaginava como seria ir pelo mundo todo, escolhendo meus próprios caminhos. Demorei bastante tempo, tive que superar medos de uma fragilidade feminina construída culturalmente e um casamento desfeito para conseguir colocar o plano de ‘conquistar o mundo’ em prática. Quando me vi pela primeira vez em um pequeno e simples quarto de hotel, sozinha, em Paris, foi como se esse mundo sonhado estivesse se abrindo finalmente todo para mim. Como viajar sem propósito era proibitivo para uma recém-livre divorciada que queria pagar suas próprias contas, minha estratégia foi arranjar trabalhos que me levassem a esses destinos. Foi assim que criei a necessidade de estar em Paris na semana de moda com uma cliente que gostou da ideia de pesquisa de mercado ao meu lado. A estratégia de unir trabalho e viagem vingou e nos dez anos seguintes eu entrava nos aviões me apropriando da nova vida de cidadã do mundo, como gostava de me ver. Quando conheci meu marido, essa era minha vida. Ele, que andava de bicicleta por São Paulo e já tinha morado fora bem jovem, era muito mais desenvolto do que eu. Me vi então com o parceiro ideal. Fernando anda pelo mundo como se estivesse na própria casa (e não estamos?) e entre amigos. É gentil com todos, se comunica bem em algumas línguas e não se intimida em ir a pé e de metrô para onde for. Meu marido sempre parece um insider . Bem, esta semana estou em Milão, sem meu par. ‘Inventei’ um trabalho fora no feriado que deixou São Paulo ‘às moscas’. Fernando achou que exagerei e não veio. Eu achei que ele não viu a oportunidade que vi e embarquei. Brava, claro. Nesses dias me vi em vários momentos como aquela menina assustada da primeira noite sozinha em Paris. Somos feitos de camadas de um passado que também nos acompanha. Sei quem eu fui e não quero voltar a ser. Esse pequeno intervalo de solidão me fez valorizar cada esforço feito para que eu me tornasse a mulher autônoma que eu era há 19 anos quando Fernando me conheceu. Tive também nesses dias medo de ter me perdido no cuidado do meu marido, de ter novamente me tornado dependente. A cada dia sozinha examinei minuciosamente minhas sensações, medos, alegrias e quem sou eu agora depois de tantos anos casada. Andei horas sozinha, trabalhei, vi a beleza que me inspira, almocei com clientes, fiz novos amigos e cheguei à simples conclusão de que não preciso do Fernando para nada (sou mesmo autônoma finalmente), mas o quero ao meu lado para tudo.