Jornal testemunha a política do Maranhão
1 May, 2026
Jornal testemunha a política do Maranhão O Imparcial consolidou-se como espaço de registro, debate e mediação dos principais acontecimentos políticos do estado, atravessando regimes, censuras e transformações Entre o ruído das rotativas e o peso das decisões políticas que atravessaram gerações, a trajetória do jornal O Imparcial se entrelaça com a própria construção do espaço público no estado. Mais do que um veículo informativo, o periódico consolidou-se como uma arena simbólica onde se registraram disputas de poder, formulações de governo e manifestações sociais — ora como observador atento, ora como mediador ativo. Ao longo de um século, acompanhou ciclos de centralização e ruptura, períodos de autoritarismo e fases de abertura, evidenciando o papel estruturante da imprensa regional na leitura da política brasileira. Idealizado pelo empresário João Pires Ferreira, o J. Pires, eoseu irmão José Pires que decidiram converter uma gráfica comercial em um projeto editorial com pretensões de independência. o nascimento de O Imparcial, rompeu com a lógica predominante de periódicos alinhados às oligarquias locais, propondo um jornal que se afastasse do modelo de “folhetim de aluguel”. A escolha do 1o de maio, Dia do Trabalhador para o lançamento carregava simbolismo e indicava um posicionamento voltado às questões sociais e às tensões políticas do período. Para celebrar seus 100 anos no contexto político maranhense, elencamos, dez fatos marcantes de sua trajetória: A Revolução de 1930 e a Queda de Magalhães de Almeida O jornal nasceu no auge da “Política dos Governadores”. Em 1930, registrou a deposição de Magalhães de Almeida. A importância aqui foi a transição do poder estadual para as mãos dos Interventores Federais nomeados por Getúlio Vargas, mudando drasticamente a estrutura de comando no interior do estado. O Estado Novo e a Resistência Silenciosa (1937-1945) Durante a ditadura de Vargas, o jornal teve que lidar com o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda). As notícias políticas eram estritamente controladas. A curiosidade é que, mesmo sob censura, o jornal mantinha viva a chama intelectual do Maranhão, publicando crônicas que, entre linhas, discutiam a liberdade. Agente participante do processo político maranhense A “Nacionalização” com Assis Chateaubriand (1944) A compra por Chateaubriand não foi apenas comercial, foi um fato geo-político. O Imparcial passou a ter acesso à “Agência Meridional”, recebendo notícias de Brasília e do mundo via teletipo muito antes dos concorrentes. Isso deu ao eleitor maranhense uma visão global da política. O Golpe de 1964 e o AI-5 O jornal registrou o clima de apreensão em São Luís. É o período em que o jornalismo político precisou se tornar mais técnico para evitar perseguições. O arquivo do jornal deste período é uma das fontes mais ricas para entender quem foram os políticos locais cassados e como a Assembleia Legislativa do Maranhão reagiu ao regime. A Eleição de José Sarney ao Governo (1965) Este é um divisor de águas. Sarney, que era colaborador do jornal, elegeu-se governador rompendo com o grupo de Vitorino Freire (o “Vitorinismo”). O Imparcial documentou a modernização administrativa que Sarney propunha, como a construção da Barragem do Bacanga e do Porto do Itaqui. Primeira mulher a comandar São Luís (1978) A primeira mulher a governar como prefeita de São Luís foi Lia Varela, que assumiu o cargo interinamente em 1978. Ela também foi a primeira mulher negra a comandar uma capital brasileira. No entanto, a primeira prefeita eleita pelo voto direto em São Luís foi Gardênia Gonçalves, que venceu as eleições de 1985 e governou entre 1986 e 1989. O Primeiro Maranhense no Planalto (1985) Com a morte de Tancredo Neves, Sarney assume a presidência. Para O Imparcial, foi o período de maior prestígio político: o jornal da “província” agora tinha seu ex-redator como o homem mais poderoso do país. A cobertura focou na estabilização econômica (Plano Cruzado). A Constituinte de 1988 O jornal funcionou como um tradutor da nova Constituição para o povo maranhense. Detalhou como os direitos sociais e a descentralização de recursos afetariam as prefeituras do interior, que historicamente dependiam de favores políticos da capital. A Ruptura de 2014 (Eleição de Flávio Dino) Após quase 50 anos de influência direta ou indireta do grupo Sarney, o jornal cobriu a mudança histórica no Palácio dos Leões com a eleição de Flávio Dino, marcando uma ruptura política significativa após décadas de controle de um único grupo.. A cobertura foi histórica por mostrar a alternância de poder em um estado conhecido pela estabilidade (ou estagnação) de suas elites políticas. O Centenário e a Eleição de 2026 Chegando a 2026, o jornal se debruça sobre a sucessão estadual atual. O fato político aqui é a longevidade: o jornal sobreviveu a todos os ciclos acima e continua sendo o “diário oficial da opinião pública”, documentando como o Maranhão se posiciona frente à polarização nacional moderna. Ao completar cem anos neste 1o de maio de 2026, data simbólica vinculada ao Dia do Trabalhador, O Imparcial reafirma sua posição como observador privilegiado e agente participante do processo político. O reconhecimento como Patrimônio Cultural Imaterial do Maranhão, por meio da Lei no 12.727 de 2025, proposta pela deputada Iracema Vale (MDB), institucionaliza essa trajetória centenária.