Audiovisual enfrenta a maldição de Sísifo

admin
5 May, 2026
No final de março, em reunião presidida pela ministra da Cultura, Margareth Menezes, o Comitê Gestor do Fundo Setorial do Audiovisual definiu a distribuição dos recursos para o exercício de 2026. Na ausência de realizadores nesse comitê, o direcionamento dos recursos repetiu e aprofundou um viés que entendo equivocado, pois há vários anos os recursos são prioritariamente direcionados aos distribuidores —em detrimento de produtores e realizadores, como ocorria nos anos 1970 e 1980, período em que os filmes nacionais ocupavam um terço do nosso mercado. O Brasil não é mais o mesmo, novas mídias surgiram, mas há mais de 15 anos a tentativa de avançar no mercado graças à capitalização dos distribuidores e ao enfraquecimento dos realizadores não tira o cinema brasileiro da faixa de 10% a 15% das produções exibidas nas salas. É hora de aprofundar o conhecimento e o estudo do direcionamento dos recursos, do quadro legislativo e fiscal, com uma visão de longo prazo. Não existe uma definição estratégica para a indústria do audiovisual, que fica à mercê de lobbies variados, numa espécie de "quem pode mais chora menos" eterno. Ministério da Cultura, Secretaria do Audiovisual e Ancine (Agência Nacional do Cinema) batem cabeças sem qualquer visão de longo prazo. As representações ministeriais no comitê gestor estão bem desenhadas, mas elas deveriam estar presentes numa instância de definição de estratégia de Estado, assessoradas pelos profissionais da área —e não num fundo que distribui anualmente o mesmo valor do custo de um filme americano, isso sem considerar os gastos com P&A (divulgação), que representam outro tanto. Estamos num momento delicado: um projeto precário de regulamentação do streaming está no Senado Federal. Sua formulação foi fruto do embate entre os players internacionais de VOD (vídeo sob demanda) e os produtores nacionais. Em função do momento político internacional bastante desfavorável e do fato de o Brasil ainda estar sob ameaça, sugeri, neste mesmo espaço, que essa regulamentação e pactuação ficassem para o ano que vem. Curiosamente, muitos profissionais e parte dos jovens críticos da grande imprensa "compraram" a versão de que os recursos atribuídos à atividade são suficientes. Esse direcionamento atual dos recursos (excluídos aí os direcionados aos arranjos regionais, cuja efetivação se deu graças às bancadas no Congresso, o que é saudável) vem sendo aplicado numa política de criação de "campeões nacionais" do ramo. Esse formato, na nossa indústria, não consegue superar seu entrave principal, ou seja, ter espaço no mercado das salas, que continuará sendo o de entrada inicial dos produtos na cadeia de "janelas" do audiovisual. Só filmes considerados "campeões nacionais" conseguem acessar a franja das 52 semanas que o ano tem nos cinemas; as outras produções levam a pecha de "dilapidar" recursos públicos a partir da "dramaturgia", quando, na verdade, é por falta de tela e recursos para visibilidade. Uma política de "campeões nacionais" não é em si perversa. Funciona, mas não sozinha. Na França já há produtores capazes de estruturar projetos de US$ 60 milhões ou mais, mas essa capacidade decorre de um volume de recursos públicos seis vezes maior que o do Brasil —e os franceses têm 50% de seu mercado reservados com economia decorrente de royalties. A política de filmes "campeões nacionais" já foi praticada por Lula, que, como bom social-democrata progressista, conseguiu que diversos segmentos da nossa economia (agropecuária, Embraer e WEG, entre outros) obtivessem sucesso em seus ramos. Mas, na questão do audiovisual, seguimos —desde sempre sem querer— entender a sua complexidade. Enquanto o Brasil e a classe não incorporarem a questão na real dimensão que ela tem, o cinema brasileiro seguirá tomando tapas desmerecidos e sofrendo a maldição de Sísifo, ou seja, um esforço repetitivo e sem propósito. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.