Objetivo é colocar Brasil no top 5 global de IA, diz fundador de 1o unicórnio do setor na América Latina
15 May, 2026
A startup brasileira Enter quer transformar o país em um dos principais polos globais de desenvolvimento de inteligência artificial aplicada ao setor jurídico. A empresa acaba de atingir valor de mercado de US$ 1,2 bilhão (R$ 6 bilhões) após uma rodada de investimentos de US$ 100 milhões (R$ 500 milhões) liderada pelo Founders Fund, do investidor Peter Thiel, tornando-se o primeiro unicórnio (com avaliação acima de US$ 1 bilhão) de IA da América Latina. "Nosso objetivo é colocar o Brasil no G5 mundial de IA, ao lado dos Estados Unidos, da China e dos países que vão definir essa geração de tecnologia", diz o CEO e cofundador da Enter, Mateus Costa-Ribeiro, em email à Folha. Além do Founders Fund, participaram da rodada fundos como Ribbit Capital e Sequoia Capital, conhecidos por investir em grandes empresas globais de tecnologia. Com sede em São Paulo, a Enter atua no setor jurídico corporativo e desenvolveu uma plataforma de automação baseada em agentes de inteligência artificial. O sistema, chamado EnterOS, é usado por empresas como Bradesco, Nubank, Mercado Livre, Airbnb e Latam Airlines. Na prática, a plataforma lê processos judiciais, cruza informações internas das empresas, busca evidências e estrutura estratégias preliminares de defesa em ações cíveis e trabalhistas. Os advogados entram na etapa final de revisão e validação. A empresa considera o sistema judiciário brasileiro um dos mais complexos do mundo. Segundo Costa-Ribeiro, o país concentra mais de 90% dos processos trabalhistas globais, o que gera altos custos e disputas recorrentes para grandes corporações. "Se conseguimos resolver esse problema no Brasil, conseguimos resolver em qualquer lugar do mundo. Como exemplo, temos empresas americanas como Meta e United, que sofrem mais processos de consumidores no nosso país do que nos Estados Unidos", disse. A empresa afirma que o objetivo da plataforma é reduzir custos jurídicos e aumentar a taxa de sucesso em disputas judiciais por meio da automação de tarefas repetitivas e da integração de dados. Ele descreve o sistema EnterOS como altamente automatizado. "Construímos um produto que permite customização em escala para além do que um ser humano consegue fazer. Nós assumimos toda a parte processual e deixamos o estratégico para o advogado. Todos os processos que rodam na Enter são auditados e revisados por um advogado habilitado do cliente". A operação da plataforma depende da conexão constante com sistemas da justiça, bancos de dados das empresas e fontes externas de informação. Por isso, a startup concentra parte relevante dos investimentos em infraestrutura tecnológica. "Investimos para atingir resultados como o da Latam Airlines, cujo jurídico aumentou 30% da taxa de improcedência em processos com o uso da nossa tecnologia. Além disso, seguimos padrões globais de segurança. Temos parcerias com a OpenAI e a Anthropic, os dois principais laboratórios de IA do mundo, garantindo que nenhum dado dos nossos clientes seja armazenado", diz. COMO A EMPRESA SURGIU A startup foi fundada em setembro de 2023 por Mateus Costa-Ribeiro, Michael Mac-Vicar e Henrique Vaz. Na época, Costa-Ribeiro cursava o MBA na Universidade Stanford, nos Estados Unidos, e estruturava um projeto voltado a uma nova geração de empresas jurídicas baseadas em inteligência artificial. A operação começou com seis pessoas. Costa-Ribeiro conta que conciliava a rotina acadêmica com a gestão da startup. "A empresa começou pequena e, em cinco meses, a receita saltou de R$ 8 mil para R$ 80 mil por mês. Eu acordava às 4h da manhã todos os dias para trabalhar com o time, que ficava no Brasil. Em dezembro, decidi abandonar o MBA porque a sensação de tocar a empresa pela metade era insuportável". Desde o início, a companhia estruturou uma equipe com profissionais experientes do setor de tecnologia, incluindo brasileiros que atuavam no exterior. "Buscamos pessoas que estavam na Microsoft, na Amazon e em outras empresas fora do país para trabalhar em São Paulo. Michael e Henrique vieram da Wildlife Studios [startup brasileira de games que também foi avaliada acima de US$ 1 bilhão], onde eram CTO e CMO. Não abrimos mão de uma barra de talentos altíssima", afirma Costa-Ribeiro. Hoje, com o novo aporte, Costa-Ribeiro afirma que o foco da empresa vai além da valorização de mercado. "Ser unicórnio é um marco, mas não é o objetivo. A prioridade da Enter segue sendo crescimento e execução em escala".