Aos 80 anos, memória de 50: o que a ciência descobriu sobre os superidosos com cérebros décadas mais jovens
5 Jun, 2026
Aos 80 anos, memória de 50: o que a ciência descobriu sobre os superidosos com cérebros décadas mais jovens Cérebros que desafiam o tempo ajudam cientista a entender por que há quem chegue aos 80 anos com memória comparável à de adultos décadas mais jovens Clique aqui e escute a matéria PORTO ALEGRE - Imagine uma pessoa de 80 anos com a memória e a agilidade mental de alguém 20 ou 30 anos mais jovem. No mundo da neurociência, eles são conhecidos como "superagers" (em português, superidosos - pessoas a partir de 80 anos que apresentam capacidade de memória e raciocínio comparável a adultos de 50 a 60 anos. Eles desafiam a expectativa comum de declínio cognitivo relacionado à idade. Enquanto a medicina tradicional foca exaustivamente no que dá errado no cérebro com o passar dos anos, como ocorre nos estudos da doença de Alzheimer e outras demências, a neurocientista Emily Rogalski, uma das maiores autoridades mundiais no tema, propõe um olhar inverso: o que acontece quando o cérebro resiste ao tempo? Durante aula ministrada nesta quinta-feira (4), no Brain Congress, em Porto Alegre, Emily compartilhou dados de suas pesquisas no Healthy Aging & Alzheimer’s Research Care (HAARC) Center, da Universidade de Chicago (EUA). A descoberta mais impactante não é apenas que esses idosos têm boa memória, mas que seus cérebros são biologicamente diferentes. A pesquisa de Emily Rogalski não busca apenas entender a memória, mas redefinir o que é possível ao longo do envelhecimento. Ser um superidoso não significa ser imune a doenças. A questão é que eles possuem uma resiliência biológica tão boa que os mantêm com a mente afiada enquanto o corpo avança no tempo. O segredo pode estar, segundo a neurocientista, em uma combinação de biologia privilegiada, neurônios de conexão social e uma recusa ativa em parar de participar do mundo. O que a neurociência encontrou nos superidosos Ao comparar mapas cerebrais de idosos comuns com pessoas de 50 a 60 anos, nota-se um afinamento generalizado da camada externa do cérebro (o córtex). Contudo, nos superidosos, esse mapa permanece "limpo". "Não houve afinamento significativo nos superidosos, em relação ao grupo de 50 a 60 anos", revelou Emily Rogalski. Mais surpreendente ainda foi a descoberta relacionada ao córtex cingulado anterior, que é uma estrutura cerebral fundamental que atua como uma ponte entre o sistema límbico (emoções) e o córtex pré-frontal (razão e lógica). Ele desempenha um papel crucial na regulação emocional, no controle de impulsos, na resiliência e na detecção de conflitos cognitivos. "O cíngulo anterior era, na verdade, mais espesso nos superidosos do que nos indivíduos de 50 a 60 anos. Apesar de serem 20 a 30 anos mais velhos, eles possuíam uma região do cérebro que era mais espessa na velhice." "Essa região é vital para a atenção, uma função crítica para a memória", explicou a cientista. Resistência à atrofia: o segredo da lentidão Uma dúvida persistente na ciência era se os superidosos nasceram com cérebros "maiores" ou se envelheciam mais devagar. Durante a apresentação, Emily Rogalski apresentou a resposta: a taxa de perda de massa cerebral (atrofia) nesses indivíduos é duas vezes e meia mais lenta do que a de seus pares da mesma idade. Biologicamente, o ritmo de envelhecimento deles se assemelha muito mais ao de alguém na faixa dos 50 anos. Mas o que sustenta essa integridade? A resposta pode estar em um nível microscópico. Ao analisar tecidos cerebrais, a equipe de Emily encontrou uma abundância de neurônios de von Economo (ou neurônios fusiformes). São células cruciais para a cognição social, autoconsciência e tomada de decisões rápidas. "Quando medimos a densidade desses neurônios, vimos que os superidosos possuíam quatro a cinco vezes mais neurônios de von Economo do que seus pares comuns", destacou a neurocientista. Além disso, os neurônios em áreas como o córtex entorrinal (principal centro de orientação e consolidação da memória) são visivelmente maiores e mais saudáveis, assemelhando-se aos de adultos jovens. Estilo de vida e conexão social: muito além da genética A ciência já sabe que fatores de estilo de vida podem reduzir a prevalência de demência em até 40%. No grupo de superidosos, estudado por Emily Rogalski, 85% praticam exercícios físicos regularmente. No entanto, um fator subjetivo ganha destaque: a sociabilidade. Mesmo hábitos controversos aparecem nos dados. Cerca de 40% dos superidosos ainda relatam fumar, um reflexo da geração em que cresceram, embora esse número venha caindo drasticamente nas últimas décadas. A neurocientista enfatizou que isso não é um endosso ao fumo, mas uma observação geracional. Outro ponto que desafia o preconceito de idade (etarismo) é o nível de atividade. Mais de 6% ainda trabalham em suas ocupações principais, e a maioria lidera organizações ou faz voluntariado. Quebrando barreiras com tecnologia Para provar que a idade avançada não é um impedimento para a ciência moderna, a pesquisadora equipou mais de 200 superidosos com sensores vestíveis de alta tecnologia para monitorar sono, atividade física e até a "dinâmica de conversação" como medida de conexão social. Muitos revisores de seu projeto foram céticos, acreditando que idosos de 80 anos não conseguiriam usar os dispositivos. "O etarismo deles entrou em jogo", criticou Emily, ao celebrar que os participantes alcançaram mais de 95% de precisão no uso dos sensores. *A colunista faz a cobertura do Brain a convite da organização do congresso