Por que há tantas músicas depreciando mulheres em plataformas? E por que são tão ouvidas? Veja vídeo

admin
5 Jun, 2026
O dia tinha começado bem até eu entrar num uber. Logo de cara, ouvi o refrão do funk. Tão carregado de palavrões e termos depreciativos contra mulheres que até o motorista pareceu ficar sem graça. - Dá pra acreditar que essa é uma das músicas mais tocadas do Brasil?, me perguntou ele, abaixando o volume. - É mesmo?, perguntei, incrédula, tentando memorizar uns versos para checar mais tarde se aquilo era mesmo verdade. E não é que era? A música em que um tal DJ Oreia começa chamando de filha da p. a namorada que o deixou após supostamente ser traída realmente estava entre as mais tocadas no Spotify Brasil. Na mesma semana, li uma reportagem na revista Marie Claire apontando que nada menos que metade das dez músicas mais ouvidas na plataforma no País reproduz discursos misóginos. A coluna procurou a plataforma para comentar o assunto, mas ainda não obteve retorno. O espaço segue aberto. Esse talvez seja um dos aspectos mais precisos do nosso tempo: a proliferação de memes, hits chicletes e algoritmos que transformam a objetificação feminina em algo “natural”. Não que música machista seja uma novidade. Um montão de letras há décadas classifica mulheres como “boazudas”, “cachorras”, “loucas”, “burras”, “interesseiras”. Ou simplesmente como “novinhas” disponíveis ao sexo. Mas a escala e a velocidade de repetição de versos misóginos ganharam proporções inéditas. Hoje, as músicas não dependem só de rádios. Elas entram em playlists automatizadas, viralizam no TikTok, viram trilha de academia, memes, dancinhas infantis. Termos que seriam inaceitáveis em conversas cotidianas são cantados em alto som. E geram cliques, cortes, compartilhamentos e reações que aumentam o engajamento. Sobretudo de jovens, que passam a normalizar essas atitudes - na linha, “se todo mundo está ouvindo e cantando, que mal há?”. Como os algoritmos não estão nem aí para qual é o conteúdo, esqueçam reflexão, talento e inovação: o que vale para as plataformas digitais é permanência, repetição, viralização. Seja do que for. Nesse cenário, quanto maior a capacidade de produzir frases curtas que grudem na memória, provoquem alguma excitação instantânea e sejam compartilhadas - até pela bobagem que alguém teve coragem de dizer - , maior a chance de engajar. E de rentabilizar. E não só o funk está inundado de “hits” que apresentam a mulher como objeto de consumo. Eles estão em tudo quanto é ritmo, do sertanejo ao pop. Mudam a batida, o figurino e o público. Permanece a lógica de submissão maquiada de humor ou “cultura”. O curioso é que muitas dessas músicas são consumidas também por mulheres. Numa era de hiperexposição, transformar o corpo em linguagem pode parecer uma forma de controle sobre a própria narrativa e símbolo de empoderamento. Mas a questão é: o quanto isso é realmente escolha individual e o quanto é resposta a pressões culturais e de validação social? E o que acontece quando gerações inteiras crescem ouvindo, repetidamente, que mulheres valem pelo corpo, pela disponibilidade sexual ou pela capacidade de satisfazer expectativas masculinas? Embora ninguém vire machista por uma só música, a repetição desses comportamentos e mensagens fortalece uma cultura em que objetificar a mulher parece engraçado, banal e até inevitável. Assim, palavrões se multiplicam, termos ofensivos viram “brincadeira”, violência vem disfarçada de “ironia”, humilhação ganha coreografia. E, antes que os haters venham com a ladainha do “Ah, hoje nem cantar se pode mais”, um esclarecimento: não se trata de mimimi, censura ou moralismo. Músicas sempre falaram de desejo e relações humanas. Mas é bem diferente falar de sexo e pregar posse sobre outra pessoa e subserviência feminina. Sobretudo num País onde casos de violência contra a mulher se contam aos milhares, embalados por canções que deveriam na verdade estar no lixo eletrônico. MAIS COLUNAS DA AUTORA Já ouviu falar de tradwives? O que as ‘esposas tradicionais’ revelam sobre a vida das mulheres hoje É possível não dar celular para filho na infância. Sou prova disso. E os resultados compensam Comunidades digitais impulsionam cultura do estupro e do feminicídio. Sem nenhum controle