Das bancas ao celular: como jornais tradicionais se reinventaram
8 Jun, 2026
A transformação digital, apontada por especialistas como parte da chamada Quarta Revolução Industrial , alterou a forma como empresas, veículos de comunicação e consumidores se relacionam. Em um ambiente marcado pela velocidade da informação e pela disputa constante por atenção, marcas tradicionais passaram a enfrentar o desafio de preservar relevância sem perder identidade. A adaptação tecnológica deixou de ser apenas uma mudança de plataforma e passou a envolver linguagem, posicionamento e construção contínua de confiança. No setor de comunicação, a mudança ficou evidente na migração do consumo de notícias do impresso para o ambiente digital. O avanço da internet, da banda larga e dos smartphones modificou hábitos de consumo e acelerou transformações nas redações. O que antes dependia da circulação física dos jornais passou a ser acessado em tempo real, principalmente por meio do celular. A mudança no comportamento do público também impactou diretamente o modelo de circulação da informação. O leitor passou a buscar atualização contínua e acesso imediato às notícias, reduzindo espaço para o ciclo tradicional do jornal impresso. Dados do setor apontam que a circulação de jornais impressos no Brasil registrou queda de 16,1% em 2022 , movimento acompanhado pelo crescimento do consumo digital. Se antes rádio, televisão e jornal impresso concentravam a circulação de notícias em horários e formatos definidos, o ambiente digital ampliou as possibilidades de acesso - JAILTON JR/ JC IMAGEM Diretor de jornalismo do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação, Laurindo Ferreira afirma que a transição foi resultado de um processo gradual de mudança de comportamento do público. “ A sociedade de uma maneira geral no mundo todo estava muito apta e se preparando para consumir produtos digitais. A gente viu, claramente no mundo todo também, uma queda importante de leitura dos jornais físicos ”, afirmou. Segundo ele, a pandemia da Covid-19 representou um marco importante para consolidar essa mudança dentro do SJCC. “ Foi exatamente neste período que o JC deixou de circular como jornal impresso e a gente criou toda uma estratégia de fortalecer e produzir conteúdos digitais. Ali foi uma virada importante para perceber a relevância do consumo de conteúdos digitais ”, disse. Laurindo Ferreira, diretor de jornalismo do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação - JAILTON JR/ JC IMAGEM “ A gente fez uma transição tecnológica, mas não teve transição nenhuma do ponto de vista dos nossos valores ”, pontuou Laurindo. Ele destacou que a credibilidade da marca, que completou 107 anos recentemente, permaneceu associada aos mesmos princípios adotados antes da digitalização. “ O Jornal do Commercio sempre foi um jornal de muita apuração, muito cuidado com a informação e muito zelo pela ética ”, afirmou. Para o diretor, a capacidade de renovação foi determinante para a permanência da marca. “ O JC tem essa capacidade de inovar e de se renovar para manter-se relevante .” Credibilidade e vínculo com o público Para especialistas, a adaptação das marcas depende também da capacidade de preservar identificação com o público. Renata Victor, coordenadora do curso de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco , afirma que a relação entre consumidores e marcas mudou com o avanço das plataformas digitais. “ Antes, as marcas tradicionais falavam de forma mais distante. Hoje, no digital, o público participa, comenta, critica e cobra posicionamentos. As marcas precisaram aprender a dialogar de forma mais humana e próxima ”, sustentou. A transformação dos hábitos de consumo alterou a dinâmica da informação. Se antes rádio, televisão e jornal impresso concentravam a circulação de notícias em horários e formatos definidos, o ambiente digital ampliou as possibilidades de acesso. Renata Victor, coordenadora do curso de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco - ARQUIVO PESSOAL O conteúdo passou a ser consumido em tempo real, principalmente por meio de celulares e computadores, em uma lógica marcada pela atualização constante. Segundo levantamento da consultoria Comscore, o Brasil possui uma das maiores populações digitalmente ativas no consumo de notícias online, cenário que impulsionou veículos tradicionais a ampliarem presença em plataformas digitais e adotarem novos formatos de distribuição, como newsletters, podcasts e vídeos curtos . A expansão das redes sociais também intensificou o debate sobre credibilidade da informação. O crescimento da circulação de conteúdos sem apuração e o avanço de ferramentas de inteligência artificial passaram a impor novos desafios para empresas de comunicação e para o público , diante da dificuldade de diferenciar conteúdos verificados de materiais manipulados ou falsos. A partir desse cenário, veículos tradicionais passaram a reforçar processos de checagem e critérios editoriais como forma de manter a confiança do público em meio ao excesso de informação. Para Bruno Rafael Gueiros, publicitário e doutor em Ciências da Linguagem , a sobrecarga de informações transformou a atenção em um ativo disputado pelas marcas. “ Nesse ambiente digital, onde a informação circula em alto volume e alta frequência, a atenção se torna um bem valioso e escasso ”, disse. Bruno Rafael Gueiros, publicitário e doutor em Ciências da Linguagem - ARQUIVO PESSOAL O especialista também aponta que relações de confiança ajudam marcas tradicionais a romper a lógica de consumo acelerado das redes sociais. “ Quando uma marca consegue estabelecer uma relação de confiança com o consumidor, há uma quebra dessa lógica e o surgimento de um vínculo mais forte ”, comentou. Para Laurindo, a tecnologia alterou formatos e rotinas, mas não substituiu os elementos que sustentam a relação do público com marcas históricas. “ O celular é o meio. O que a gente continua entregando é qualidade editorial e uma boa marca chamada Jornal do Commercio ”, afirmou.