SAFiel apresenta nova proposta bilionária para transformar o Corinthians em SAF
8 Jun, 2026
SAFiel apresenta nova proposta bilionária para transformar o Corinthians em SAF No dia 2 de junho, o grupo SAFiel, que defende a transformação do Corinthians em Sociedade Anônima do Futebol (SAF), encaminhou ao clube uma nova carta de intenções não vinculante para a criação da empresa. Entre as propostas está a captação de até R$ 3 bilhões para auxiliar no alívio financeiro imediato dos cofres alvinegros. O documento ao qual o Meu Timão teve acesso renova a oferta apresentada originalmente em outubro de 2025 e defende a constituição da SAF nos moldes da SAFiel, modelo que prevê captação popular de recursos entre torcedores e a preservação de mecanismos de participação do clube na gestão. Ao longo de mais de dez páginas, o grupo formado por Carlos Teixeira, Eduardo Salusse e Maurício Chamati justifica a necessidade de apreciação urgente da proposta com base na situação financeira do Corinthians. Entre os argumentos apresentados estão o endividamento superior a R$ 2,8 bilhões, o crescimento diário dos juros da dívida (R$ 1,2 milhões), os déficits recentes, as restrições de fluxo de caixa, a necessidade de antecipação de receitas e os compromissos financeiros relacionados à Neo Química Arena. A proposta prevê uma captação de R$ 2,5 bilhões, com possibilidade de alcançar R$ 3 bilhões em caso de demanda acima do esperado. Segundo o documento, os recursos seriam destinados, principalmente, ao saneamento das dívidas do futebol, investimentos esportivos, melhorias de infraestrutura, implementação de mecanismos de governança e fortalecimento do clube social. Pelo modelo apresentado, a futura SAF receberia os ativos e passivos ligados ao futebol profissional, incluindo direitos econômicos e federativos de atletas, contratos comerciais, receitas de transmissão, marcas vinculadas ao departamento e demais obrigações relacionadas à atividade. Assim, todo esse patrimônio seria administrado de maneira independente das demais modalidades do Parque São Jorge. Em contrapartida, o Timão, na figura do clube social, manteria participação societária na empresa, receberia royalties estimados em R$ 600 milhões ao longo de dez anos pela utilização da marca, teria extensão de patrocínios para outras modalidades e contaria com um canal formal de cooperação institucional. Além disso, o Corinthians manteria direitos especiais de governança por meio de uma golden share — mecanismo que concede poder de veto e direitos estratégicos. O projeto também prevê a criação de órgãos como Conselho de Administração, Conselho Fiscal, Conselho Cultural e Comitê de Governança. Um dos pilares da proposta é a pulverização do capital. A SAFiel ainda deseja que as ações com direito a voto sejam destinadas exclusivamente a torcedores corinthianos, com investimentos a partir de R$ 250 e limites de participação por CPF. Investidores institucionais poderiam participar apenas por meio de ações sem direito a voto, caso fosse necessário complementar a captação. O texto também prevê mecanismos de proteção à identidade do clube, incluindo veto a alterações no nome, escudo, cores e símbolos. Outra medida é a cláusula de reversibilidade, que permitiria ao Corinthians retomar o controle do futebol em situações como descumprimento de obrigações essenciais, problemas graves de gestão ou descaracterização da identidade institucional. A efetivação da operação dependeria de uma série de etapas, entre elas a aprovação dos órgãos estatutários do Timão, a realização de due diligence — processo de investigação e auditoria que antecede operações financeiras e societárias — por empresa independente, validações regulatórias e aprovação final dos associados em Assembleia Geral. Por se tratar de uma carta de intenções não vinculante, a proposta não obriga as partes à conclusão do negócio. O documento, entretanto, solicita que o projeto seja formalmente analisado pela presidência, pelo Conselho de Orientação (Cori) e pelo Conselho Deliberativo (CD) antes de eventual deliberação dos associados. De acordo com o atual Estatuto do clube, iniciativas relacionadas a investimentos ou alterações estruturais dependem da presidência da diretoria, atualmente ocupada por Osmar Stabile. Já o Cori possui função consultiva e fiscalizadora, podendo analisar temas apenas quando formalmente encaminhados pela diretoria ou pelo Conselho Deliberativo. Além disso, o grupo apresentou um cronograma estimado para a implementação do projeto: - Entrega da proposta: já realizada; - Assinatura da proposta: na data de eventual aceitação; - Instalação do sistema virtual para início das diligências: 30 dias após a aceitação; - Conclusão da due diligence e do valuation do clube (a ser realizado por uma empresa Big Four): 180 dias após a aceitação; - Registro dos fundos e/ou ofertas na Comissão de Valores Mobiliários (CVM): entre 180 e 210 dias após a aceitação; - Roadshow (apresentação do projeto para diversos público) e período de reservas: 210 dias após a aceitação; - Anúncio dos conselheiros independentes e do CEO: 210 dias após a aceitação; - Aprovação da SAFiel em Assembleia Geral (AG) dos associados: 300 dias após a aceitação; - Chamada de capital para integralização dos recursos: 300 dias após a aceitação; - Instalação da governança e início das operações: 360 dias após a aceitação. O prazo de vigência da carta de intenções é de 60 dias a partir da assinatura pelas partes, podendo ser prorrogado por acordo mútuo ou permanecer válido até a assinatura dos documentos definitivos. Apresentação do projeto, encontros importantes e nova versão Nos últimos meses, a SAFiel tem ampliado o diálogo com diferentes setores da política corinthiana. O grupo já se reuniu com figuras importantes do clube, como o presidente licenciado do Conselho Deliberativo, Romeu Tuma Júnior, e o atual presidente da diretoria, Osmar Stabile. Em outubro de 2025, foi apresentada a primeira versão da carta de intenções não vinculante. Além disso, no início deste ano, representantes da iniciativa participaram da audiência pública sobre a reforma do Estatuto, quando o tema SAF esteve em debate, e também apresentaram o projeto na quadra da Gaviões da Fiel. Em maio, a SAFiel se reuniu com integrantes do Conselho de Orientação para detalhar a versão 2.0 do projeto. Como trouxe o Meu Timão, após uma reunião do Cori no Parque São Jorge, representantes do grupo tiveram cerca de 30 minutos para uma conversa informal com alguns membros do órgão fiscalizador. O encontro ocorreu em clima cordial e receptivo entre as partes. A nova versão da proposta, chamada de Book SAFiel, é apresentada como um complemento ao projeto original. O documento ressalta que as alterações não devem ser analisadas isoladamente, já que atualizam, substituem ou aprofundam pontos da primeira carta de intenções, que segue sujeita a ajustes. Segundo a SAFiel, a versão 2.0 incorporou sugestões recebidas de sócios, torcedores e profissionais ao longo dos últimos cinco meses. O texto também destaca que as projeções financeiras apresentadas possuem caráter exclusivamente estimativo, sem garantia de resultados, e não configuram oferta pública de investimento. Na sequência, o projeto explica que a estrutura da empresa é definida como uma nova hierarquia jurídica, econômica e de governança para o futebol do Corinthians, voltada à captação de recursos, profissionalização da gestão, descentralização do poder e preservação dos vínculos com o clube associativo, sem transferência de controle para investidores externos. O projeto afirma estar fundamentado em cinco pilares: reequilíbrio financeiro, modernização, popularização, redemocratização e proteção do clube social. A proposta reforça ainda que a implementação da SAF não representaria a venda do Corinthians, mas sim uma separação administrativa entre futebol e clube social, mantendo a associação e os torcedores acionistas como proprietários dos ativos relacionados ao departamento de futebol. Tentativa de quitação de dívidas no início do ano No início de 2026, inclusive, a SAFiel enviou uma proposta formal ao clube do Parque São Jorge com o objetivo de equacionar duas das principais pendências financeiras do Corinthians naquele momento: o transfer ban imposto pela Fifa pela dívida com o Santos Laguna, do México, referente à contratação do zagueiro Félix Torres, e o financiamento da Neo Química Arena junto à Caixa Econômica Federal. A proposta previa um aporte financeiro capaz de quitar tanto os cerca de R$ 40 milhões devidos ao clube mexicano — valor pago pelo Corinthians dias depois — quanto o saldo da dívida da Neo Química Arena, que, segundo o último dado consolidado, de dezembro de 2025, é de R$ 642 milhões. O montante seria antecipado e funcionaria como um adiantamento. Caso a SAF fosse aprovada futuramente, o valor seria convertido em ações da empresa, mas se o projeto não avançasse, o clube teria de devolver o dinheiro aos investidores. O que é a SAFiel? A SAFiel é apresentada por seus idealizadores como um projeto de caráter aberto e coletivo, construído ao longo de meses de diálogo com torcedores, profissionais da imprensa e influenciadores. A iniciativa se apoia em um material técnico que aprofunda os fundamentos econômicos, jurídicos e políticos da proposta, além de um documento de princípios (missão, visão e valores) elaborado de forma colaborativa com a própria Fiel. Segundo o grupo, a ideia é promover mudanças estruturais no Corinthians sem romper com sua identidade popular. O plano prevê a profissionalização do futebol, a reorganização das finanças, a equalização das dívidas, a solução do passivo da Neo Química Arena e a implantação de um modelo de governança moderno e sustentável, garantindo participação efetiva dos torcedores nas decisões. Para isso, o projeto propõe uma nova arquitetura corporativa, preservando a autonomia do clube social, mas transferindo os departamentos de futebol masculino, feminino e de base para uma empresa administrada segundo práticas de mercado, com mecanismos de controle, fiscalização e auditorias independentes.