Theatro Municipal de SP não terá ópera identitária ou política, afirma novo gestor

admin
9 Jun, 2026
Novo gestor do Theatro Municipal de São Paulo, Edilson Ventureli, diretor-executivo do Instituto Baccarelli, diz que as óperas montadas sob o seu comando não terão conteúdo político nem identitário. "Uma coisa é clara: nenhum espetáculo vai ter ideologia política, nem para um lado, nem para o outro", afirma o maestro. A partir deste mês, o Baccarelli assume um dos equipamentos culturais mais importantes do país, o que inclui seus corpos estáveis —a Orquestra Sinfônica Municipal (OSM), o Balé da Cidade de São Paulo e os coros. Jorge Takla assume a direção artística, Luiz Fernando Bongiovanni lidera o balé e Roberto Minczuk continua como regente titular, mas com uma diferença —o diretor musical agora é Fabio Meccheti. De 2021 até maio deste ano, o Municipal foi administrado pela Sustenidos, entidade que esteve no centro de uma série de controvérsias. Uma delas diz respeito ao modo como óperas canônicas foram alteradas para dialogar com pautas progressistas. Foi o que aconteceu no ano passado, quando a instituição montou "Don Giovanni", de Mozart, dirigida por Hugo Possolo. No espetáculo, os recitativos foram eliminados e, no lugar deles, foram inseridos diálogos em português, com críticas políticas e frases como "respeita as mina" e "sem anistia", além de comentários contra o agronegócio. Os diálogos não estavam previstos no libreto. Há dois anos, "O Guarani", de Carlos Gomes, ganhou uma montagem que destoava, em diversos pontos, das intenções do autor e foi vista como militante por grupos mais à direita. As mudanças tornaram-se alvo de críticas. Parlamentares conservadores afirmavam que o Municipal promovia doutrinação ideológica e parte dos amantes da ópera considerou que as alterações nas obras não se justificavam. "Nós não temos a intenção de ter nada político ou identitário nas nossas produções", diz Ventureli. "Nós queremos cumprir o que o compositor escreveu. O que não significa ser conservador, tradicionalista ou retrógrado." Ele diz que irá procurar outros formas de dialogar com segmentos marginalizados, como gays, negros e indígenas. "Penso que o melhor que a gente pode fazer por essa turma toda não é colocá-la no palco", afirma o maestro. "Você pode abrir espaço para eles dentro da própria plateia." Nos últimos anos, o equipamento cultural esteve sob crise não só por aquilo que acontecia na ribalta, mas também pelo que se desenrolava nos bastidores. Em setembro do ano passado, um funcionário da Sustenidos, Pedro Guida, comemorou o assassinato do influenciador trumpista Charles Kirk. Nas redes sociais, o diretor de elenco do Municipal republicou um vídeo de um americano que afirmava que Kirk era nazista. Após a postagem, o prefeito Ricardo Nunes pediu que o funcionário fosse demitido. A Sustenidos, no entanto, decidiu apenas afastá-lo temporariamente. Logo depois, Nunes mandou a Procuradoria-Geral do Município iniciar o cancelamento do contrato com a organização social. Ventureli tergiversa quando é questionado sobre o que faria diante de interferências políticas como essa. "A gente tem uma excelente relação com o governo municipal, assim como temos com o estadual e o federal", diz ele, que evita se dizer de direita ou de esquerda. Segundo Ventureli, o instituto é apartidário. Agentes culturais, no entanto, temem que o Municipal dê uma guinada em direção ao bolsonarismo. A organização social tem como superintendente Hélio Ferraz, ex-secretário especial da Cultura do governo de Jair Bolsonaro. Ventureli diz que os vínculos de Ferrraz com o ex-presidente não contradizem o apartidarismo da organização social. "Ele não foi contratado em virtude da sua ideologia política", diz o maestro. Há ainda questionamentos sobre o modo como a entidade fará a gestão financeira do Municipal. Ao todo, o Baccarelli terá à disposição R$ 663 milhões ao longo dos 60 meses de duração do contrato. Ventureli diz que a experiência da OS atesta a sua lisura. No ano passado, ela abriu o Teatro Baccarelli, a primeira sala de concerto dentro de uma favela no Brasil. Também é responsável por 12 Centros Educacionais Unificados, os CEUs, e dez escolas municipais de ensino fundamental, em gestão compartilhada com a secretaria de Educação da cidade. Em termos orçamentários, a preocupação acontece em razão das dificuldades financeiras pelas quais o Municipal passou nos últimos anos. Em 2023, por exemplo, a Sustenidos identificou um déficit de ao menos R$ 13,3 milhões no orçamento previsto para aquele ano. Para evitar que esse quadro se repita, Ventureli diz que vai promover uma redução de gastos que não afetem a qualidade da programação. Embora não detalhe os cortes, ele diz que não haverá demissões nos corpos artísticos. O diretor-executivo diz ainda que o Municipal vai programar espetáculos de música popular e que vai rever pontos da programação deixada pela antiga gestora. No ano passado, a Sustenidos apresentou uma temporada com grandes títulos do repertório operístico, sobretudo "Tristão e Isolda", obra-prima do alemão Richard Wagner, com raríssimas encenações no Brasil e que a casa tenta montar há pelo menos uma década. Ventureli afirma que a principal estreia do ano será mantida e ocorrerá em julho. No entanto, a ópera não será mais dirigida por Daniela Thomas —o Baccarelli não explicou por que retirou a diretora do projeto. A montagem deve vir do exterior. Há também um temor de que o Balé da Cidade de São Paulo, dedicado ao repertório contemporâneo, seja descaracterizado. "Nós queremos manter o contemporâneo, mas queremos também ampliar o repertório para atender públicos diversos", diz Ventureli. "Não queremos que o Municipal tenha vocação para uma coisa só."