Em tempos de Copa, dá para torcer e militar? Série da Netflix diz que sim
10 Jun, 2026
Em tempos de Copa, dá para torcer e militar? Série da Netflix diz que sim Resumo Cresci com uma história recorrente contada em casa: a primeira Copa do Mundo que minha mãe viu ao vivo em uma TV. De tanto escutar as magias provocadas por tal escrete, eu sabia a escalação de cor. Tinha o Carlos Alberto, o Tostão, o Jairzinho e, claro, o Pelé. As histórias da Copa de 1970 na minha infância vinham com a magia de levantar a Copa do Mundo. Mas também tinham a dramaticidade de minha mãe, aos 18 anos, ter se envolvido tanto com os gramados e o verde amarelo que sentia culpa de não ter percebido o quanto essa campanha vitoriosa ajudou a ditadura. Sempre ouvi esses dois lados, o da alegria extrema com o time invicto e o quanto tudo isso acobertou crimes terríveis e violentos que já ocorriam desde o Golpe de 1964. Foi já com essas informações em mente que comecei a ver "Brasil 70 - a Saga do Tri", na Netflix. João Saldanha, o jornalista que virou técnico, montou o time de feras e depois voltou a ser jornalista, foi o tema de meu primeiro trabalho de faculdade, há muitas Copas do Mundo. Um comunista que amava o futebol, como tantos outros, mas que não abaixou a cabeça para a ditadura, como poucos boleiros, e que teve as consequências em uma demissão. E então continuou orbitando em torno da Seleção que amava e torcendo para que o Brasil fosse campeão. Enquanto isso, narra a série, o mesmo Brasil, personificado em militares, invade e vasculha a casa onde ele vivia com sua mulher. Dá para torcer por esse Brasil? O país que força sua demissão, que usa a Seleção para fazer sutis propagandas a favor de um governo déspota, que maltrata a população, que despreza a democracia? O Saldanha de Rodrigo Santoro diz que dá. Que quer que a Canarinho vença. Torce pelo Brasil. Qual Brasil? Ambos. Mas de quatro em quatro anos, vamos resolver o do campo primeiro. Corta para 2026. Em ano de eleição, o Brasil vê a democracia em pé, mas de muletas. A lesão tem apoio de meio país. Dentro de campo (exagerei, é no banco), tem até jogador que faz live com presidente que tenta dar golpe de estado. Como a democracia ainda existe, o político militar está preso e impossibilitado de usar redes sociais. Tal como a democracia, o jogador também anda mal das pernas. Pois é, complicado. O que Saldanha diria? A gente tem direito de censurar a alegria de torcer só porque o mundo lá fora periga injustiçar tudo em breve? Saldanha morreu nos anos 1990, comunista como sempre. Em entrevista ao Roda Vida, em 1987, disse que considerava o ex-presidente Médici o maior assassino da história do Brasil. Mal viu a democracia se reestabelecer. Não viu o Tetra, nem o Penta. Esses eu vi. Se fosse vivo hoje, talvez torcesse loucamente pelo Hexa sem deixar um minuto de criticar as barbaridades da extrema direita tentando (ainda) voltar ao poder. Falaria de Trump e de seus absurdos. Ficaria muito bravo. O apoio do escrete canarinho seria a cereja verde e amarela do bolo. Ele acenderia mais um cigarro, indignado. E usaria seu microfone sem temer — o apelido dado por Nelson Rodrigues, aliás, era "João-sem-medo". Curioso: é de Saldanha a máxima "Vida Que Segue", lema que o jogador contundido até tatuou no pescoço. Saldanha também dizia coisas como "Convocar jogador por nome é um erro, tem que convocar por momento" e "Futebol não se explica, se joga." Somos 213 milhões, nem todos em ação. Olhando daqui, sob a ótica da consciência de classe, tem estrelas em campo usando diamantes com os quais não me identifico, e parece complicado compactuar com futebol hoje em dia. Mas aí as ruas se emolduram de bandeirinhas. Se pintam de cores de Copa. As manicures de bairro oferecem novas artes nas cores de nossa bandeira. As crianças pulando abraçadas ao álbuns caríssimos que compramos para sentir menos culpa de todo o resto onde falhamos. Parece que dá, sim, para torcer para que meus Brasis vençam. Vida que segue. Você pode discordar de mim no Instagram. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.