André Kfouri: As convicções de Ancelotti e o time ...

admin
21 Jun, 2026
Não se discutem a importância da vitória sobre o Haiti e a noção de que a Seleção Brasileira deveria ter feito mais gols. É uma coisa e a outra, não ou a outra, pois ambas coexistem. E na hipótese de tudo andar bem daqui em diante, também é possível que um dos mais importantes produtos do jogo tenha sido o formato de equipe com o qual Ancelotti trabalhou. O desenho com Casemiro mais recuado - e protegido - e Matheus Cunha partindo da zona entre os meias e os atacantes se mostrou viável com e sem a bola, embora alguns defeitos permaneçam claros. É um sistema que permite o único processo que pode conduzir o Brasil a alguma coisa desejável no Mundial: crescer durante o torneio. Se contra Marrocos houve pane, pânico e, após a aparição de um gol, algum nível de equilíbrio, diante do Haiti o que se viu foi uma ideia que se provou vitoriosa, mesmo que o segundo tempo tenha deixado preocupações. A saída de bola, no trecho do jogo em que o Brasil decidiu convidar o rival a pressionar, é um exemplo. Quantas seleções fortes desta Copa perdoariam tanto quanto o Haiti? Há um outro aspecto que depende, digamos, de interpretação. Está claro, como avisou Danilo em sua entrevista recente, que a Seleção praticará um jogo que precisará de espaço para ser efetivo. Isso significa atrair o adversário propositalmente e/ou permitir que ele se adiante. O efeito é o mesmo: a presença frequente do adversário em território brasileiro e, consequentemente, um nível maior de risco. Jogar dessa forma exige máxima capacidade defensiva num esporte em que é praticamente impossível controlar as ações do oponente por todo o tempo. E por óbvio, os jogos contra seleções de camisa pesada são muito mais perigosos. Houve certo alarme pelo fato de o Brasil ter sido atacado e passado alguns apuros no jogo da última sexta-feira (19), mas se pode dizer que é algo que faz parte da estratégia. Pode-se dizer também que é uma estratégia arriscada. Melhorar no aspecto defensivo é uma das tarefas obrigatórias de Ancelotti e dos jogadores, sob pena de não estar à altura do que a Copa do Mundo exige de quem tem ambições sérias. A boa atuação do meio de campo, de maneira geral, certamente serviu para recuperar alguma dose de confiança e vislumbrar a margem de evolução de todo o time. Vinicius Jr. e Matheus Cunha merecem as notas mais altas, em especial o jogador do Real Madrid, envolvido em todas as ocasiões decisivas dos dois primeiros jogos. A lesão de Raphinha é mais um golpe no lado direito (como foram Militão, Estêvão e Wesley), que agora será ocupado por Luiz Henrique ou Rayan, conforme o encaixe entre as circunstâncias do jogo e as virtudes de cada um. O Haiti ofereceu campo para Rayan correr; a Escócia, ao contrário, pedirá o talento de Luiz Henrique nos enfrentamentos individuais. Das decisões de Ancelotti até esta altura, só não fez muito sentido a utilização de Igor Thiago na estreia, justamente pela incompatibilidade entre as características dele, um perfil de centroavante ‘puro’, e o tipo de defesa que Marrocos apresentaria. Parece decidida a formação do ataque com a presença de Matheus Cunha, seguida das variações dentro dos jogos que o treinador italiano julgar interessantes. A Escócia mostrará em que medida a Seleção conseguirá avançar na direção do time que pode ser. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião da ESPN