Empresa brasileira lança primeiro foguete movido 100% a propulsão líquida

admin
5 Jul, 2026
O programa espacial brasileiro atingiu um marco tecnológico inédito com o primeiro lançamento de um foguete impulsionado exclusivamente por um sistema de propulsão líquida desde o momento da decolagem. O voo experimental do veículo FTL-Perseu, projetado e construído integralmente pela empresa privada brasileira BIZU Space, foi realizado no dia 29 de maio no município de Virgínia, em Minas Gerais. O balanço final com a conclusão bem-sucedida da missão foi divulgado oficialmente pela companhia neste sábado (4). A operação teve como foco central a validação em ambiente real de voo do motor-foguete ARION, componente considerado estratégico para a autonomia do país em futuras missões de exploração e colocação de cargas úteis no espaço. Batizada de “Missão Trem Baum”, em alusão à cultura mineira da região do lançamento, a atividade insere o Brasil no bloco restrito de nações que dominam o ciclo completo desse modelo de engenharia aeroespacial. A propulsão líquida representa um salto técnico em relação aos tradicionais motores de combustível sólido, amplamente utilizados em foguetes de treinamento e sondagem de pequeno porte no Brasil. Os sistemas líquidos oferecem aos engenheiros a capacidade de controlar o nível de empuxo durante o voo, além de permitir o desligamento e o reinício do motor, recurso essencial para guiar lançadores de satélites e executar manobras de alta precisão em órbita. O FTL-Perseu possui dimensões de 4,5 metros de comprimento e registra uma massa de aproximadamente 70 quilos quando abastecido. Na configuração química do propulsor, a BIZU Space adotou querosene de aviação (Jet-A) como combustível combinado com peróxido de hidrogênio concentrado (HTP) na função de oxidante. Essa formulação específica dispensa o uso de propelentes criogênicos — substâncias que demandam resfriamento extremo para armazenamento —, simplificando a logística de solo e reduzindo o impacto ecológico, uma vez que a decomposição do oxidante gera resíduos compostos majoritariamente por água e oxigênio. Embora a estrutura nominal do projeto preveja a capacidade de atingir até dez mil metros de altitude, este voo inaugural operou com carga reduzida de combustível. A metodologia é um padrão internacional em campanhas de desenvolvimento aeroespacial para mitigar riscos estruturais e validar os sensores de telemetria nas primeiras frações de segundo de ignição. Após atingir o apogeu, o veículo foi recuperado por meio de um sistema integrado de paraquedas e rastreamento via satélite. O foguete foi transportado para os laboratórios da BIZU Space em São José dos Campos (SP), onde passará por inspeções de engenharia reversa para avaliar o desgaste dos materiais e preparar a estrutura para uma eventual reutilização em testes futuros. O sucesso da missão coincide com o centenário do voo do Nell, executado em 1926 pelo físico norte-americano Robert H. Goddard e considerado o primeiro foguete movido a propelentes líquidos da história. No Brasil, as pesquisas na área começaram na década de 1990 pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE). Em 2014, a Operação Raposa testou um motor líquido, mas na condição de carga útil secundária de um foguete sólido. O projeto do FTL-Perseu começou a ser desenhado em 2025 e contou com parcerias técnicas envolvendo a iniciativa privada e instituições acadêmicas e científicas, como a CENIC, a UNIVAP, o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e a Olimpíada Brasileira de Astronomia (OBA).