Como ascensão e queda de Neymar espelham a indústria musical do país
8 Jul, 2026
Ganhou destaque recentemente o momento em que alguns artistas da música comemoraram ao ouvir o nome de Neymar durante o patético espetáculo promovido pela Confederação Brasileira de Futebol antes da Copa do Mundo —chamado de "convocação" por uns, de mau presságio por outros. Estavam ali a pop star Ludmilla, os rappers Cabelinho, Felipe Ret e Veigh, o forrozeiro Nattan e o alguma-coisa Dilsinho, que fez uma apresentação à altura do convescote. A presença e a reação da turma não foram por acaso. Ludmilla e Veigh integraram o time de artistas de "Bate no Peito", música escolhida pela CBF para tocar a cada gol da seleção na Copa. Enquanto a França comemora ao som da explosiva "One More Time", do Daft Punk, e a Argentina exala fernet com coca ao embalo da cumbia "El Matador", o país de sambas como "Vou Festejar" passou a celebrar seus gols ao som de uma ação de marketing frouxa. Talvez a CBF tivesse sido mais bem-sucedida em sua empreitada musical se tivesse aprendido com Neymar —o atleta de outros tempos, e não a vaga lembrança que se apresentou nesta Copa. Sua trajetória é indissociável da música popular brasileira e ajuda a explicar transformações decisivas da indústria nos últimos 15 anos, da consolidação do streaming ao advento da inteligência artificial. Desde que pintou no futebol profissional com dribles desconcertantes, no início dos anos 2010, Neymar nunca escondeu suas predileções musicais. Um jovem como tantos outros, o jogador era fã de funk, sertanejo e pagode. Seu sucesso em campo era tamanho que artistas e suas equipes de produtores passaram a ver no jogador uma espécie de parceiro musical —o "‘feat’ perfeito". Muito do sucesso de "Balada" de Gusttavo Lima, por exemplo, se deve à participação de Neymar no clipe oficial da música. Lançada há 15 anos, a canção projetou o artista nacionalmente com um clipe ao vivo em que Neymar não precisa fazer muito além de ser Neymar. Passa a música inteira ao lado de João Lucas no palco, sorri ao refrão de "tche-rê-tchê-tchê" e arrisca uma coreografia desajeitada. Nada mal para um primeiro ano no Santos como campeão do Paulistão e da Copa do Brasil. Entre compositores, aliás, é costumeiro dizer que ter uma música gravada por Gusttavo Lima equivale a ganhar na loteria —o sucesso do "Embaixador" garante uma receita generosa em direitos autorais. Neymar também desempenhava o papel de embaixador dessa música popular que se emancipava dos grandes conglomerados ao passo que consolidava novos polos de produção —Goiânia para o sertanejo, as margens do eixo Rio-São Paulo para o funk e uma cena cada vez mais capilarizada pelo país no caso do pagode. Investir em campanhas publicitárias incertas, bancar jabás nas rádios ou disputar espaço nos programas de auditório —nada disso se comparava ao selo de aprovação de Neymar. Se o jogador gostasse de uma música que despontava no YouTube, era certo que a faixa ganharia o Brasil. Foi o que aconteceu quando, ao marcar seu centésimo gol como profissional, comemorou dançando a coreografia de "Eu Quero Tchu, Eu Quero Tcha", e as buscas pela canção no Google dispararam 5.000%. Já na Europa, Neymar se manteve como uma espécie de adido cultural do Brasil. Além dos passinhos em campo e das participações em shows —o clipe ao vivo de "Ousadia & Alegria", de Thiaguinho, traz até "(part. Neymar)" no título—, se tornaram célebres as aparições do jogador acompanhado de sua caixa de som portátil. Ele já era conhecido por isso no Santos, fez graça ao som do funk "Passinho do Volante", em 2012, mas no Barcelona era mais contido e ouvia música em seu fone de ouvido. Só no Paris Saint-Germain é que voltou a fazer de sua escuta algo público, demarcando seu território com som. Novamente, ele era protagonista do vestiário. O jogo virou nos anos seguintes. No pós-pandemia, amargurado pelas frustrações na seleção e incapaz de levar o time francês ao título da Champions League, Neymar se afastava de seu melhor futebol na mesma medida em que se distanciava da música brasileira. Sua capacidade de arrastar "plays" para uma canção seguia intacta, mas seu capital simbólico se esvaía. Um jogador que vive de polêmicas é como um artista que vive de polêmicas —são só famosos. Hoje, o rádio segue como principal meio de escuta de música no Brasil, mas o país já figura entre os maiores mercados de streaming do mundo —um setor ainda longe da saturação. A internet, antes organizada em fóruns e comunidades de nicho, passou a ser dominada pelo "feed". O mercado de "sync" —licenciamento de músicas para séries, filmes e publicidade— ocupa cada vez mais espaço, assim como as faixas que embalam memes e vídeos curtos. Nesse cenário, ganha quem consegue botar o melhor time no campo do algoritmo. Menos clipes e mais "cortes" para as redes, menos territorialização e mais globalização. De lambuja, a inteligência artificial toma a indústria de forma desavergonhada. Música e futebol brasileiros feitos de forma generativa. De "Jogadinha do Paquetá" aos louvores que embalam os vídeos de Endrick nas redes sociais, o Neymar "tastemaker" ficou para trás junto com o jogador que encantava em campo. Seu fã-clube, como o de cantoras pop, vai dizer o contrário —"ele é o maior artilheiro da seleção brasileira com 80 gols". Da mesma forma, "Brasil com S", trilha sonora da fracassada campanha da CBF, soma bons números, com mais de 3 milhões de visualizações no YouTube. Uma música feita por inteligência artificial, contudo, nunca terá o peso de "Vou Festejar" na voz de Beth Carvalho. E uma porção de gols nunca terá o peso de um troféu de Copa do Mundo.