Químico ganhador do Nobel troca EUA por China para liderar instituto de IA

admin
11 Jul, 2026
Omar Yaghi, um dos ganhadores do Prêmio Nobel de Química do ano passado, deixou seu cargo de professor na Universidade da Califórnia, em Berkeley (EUA), para assumir uma posição na China. No país asiático, ele vai liderar um instituto que usa inteligência artificial para acelerar a descoberta de materiais. A mudança de Yaghi ocorre em meio às contínuas interrupções do governo Trump no financiamento da ciência nos EUA e aos esforços dos chineses para atrair cientistas, oferecendo-lhes um cenário com orçamentos generosos. Recentemente, a Universidade Tsinghua, em Pequim, recebeu Yaghi em uma cerimônia de nomeação, chamando-o de um dos maiores químicos do mundo. A universidade disse que ele enxergou o novo cargo como uma oportunidade "não para desacelerar, não para repetir o que já foi feito, mas para fazer ciência com mais energia, mais intensidade e mais ambição do que nunca". "A China está aumentando seu investimento em ciência de modo geral, incluindo química", disse Alessandra Zimmermann, analista de orçamento da Associação Americana para o Avanço da Ciência, um grupo científico sediado em Washington, D.C. As melhores métricas de realização científica, acrescentou ela, mostram que a China "tem superado os EUA em artigos de química de alto impacto". No ano passado, 3 dos 6 laureados nas categorias científicas do Nobel que atuavam nos EUA nasceram fora do país. Neste século, a proporção de imigrantes entre aqueles que fazem pesquisas no país e levaram o Nobel de Física, Química e Medicina é de 40%. Ram Seshadri, professor de química e ciência dos materiais na Universidade da Califórnia, Santa Barbara, disse que a mudança de Yaghi para a China lança luz sobre uma dinâmica que está emergindo rapidamente entre as duas nações. "Eles nos ultrapassaram em muitas áreas da ciência dos materiais e da química", afirmou o docente, referindo-se à China. "Eles estão dispostos a investir somas muito grandes de dinheiro para atrair novos talentos." Um subcampo da química, a ciência dos materiais é a força motriz por trás de muitas das inovações que definem a vida moderna, desde os chips de silício nos smartphones até as fibras de carbono nas bicicletas de corrida e os biomateriais dos implantes médicos. Por natureza, é um campo interdisciplinar que investiga a relação entre a estrutura dos materiais em escala atômica ou molecular e suas propriedades macroscópicas. Yaghi nasceu em Amã, na Jordânia, filho de refugiados palestinos. A casa da família, com um único cômodo, não tinha eletricidade nem água encanada. Desde cedo, ficou fascinado pela representação dos blocos de construção atômicos em um livro escolar. Quando tinha 15 anos, seu pai, açougueiro, enviou-o para os Estados Unidos. No ano passado, antes de voar para Estocolmo para receber seu Prêmio Nobel, Yaghi expressou preocupação em uma entrevista ao jornal The New York Times sobre as políticas de imigração do presidente Donald Trump, afirmando que elas põem em risco o sistema de universidades, empresas e governos que promovem a excelência científica. "Acho lamentável", disse ele sobre o nacionalismo do republicano. "Precisamos entender que pessoas vindas de diferentes origens elevam o nível para todos os envolvidos", acrescentou. "É uma história incrível. Grandes pensadores podem melhorar não apenas os EUA, mas o mundo." Yaghi ingressou na Universidade da Califórnia, em Berkeley, em 2012. Durante sua passagem por lá recebeu diversos prêmios por seus avanços científicos. Ele recebeu o Nobel por ajudar a descobrir um mundo da química no qual blocos de construção moleculares são montados em estruturas que possuem vastas áreas de superfície interna —as maiores de qualquer substância conhecida. Suas estruturas porosas podem agir como esponjas que absorvem, armazenam e liberam gases e vapores com facilidade. O cientista as batizou de estruturas metal-orgânicas. Os átomos de metal formam uma estrutura ajustável que pode reter substâncias químicas associadas à vida —átomos de carbono em particular. Embora profundamente teóricas, as estruturas são tão radicais, inovadoras e flexíveis por natureza que especialistas em materiais e empresas preveem muitos usos comerciais para elas. As estruturas podem, por exemplo, captar água do ar do deserto. Em 2018, os alunos de Yaghi em Berkeley testaram a ideia no deserto de Mojave, na Califórnia, descobrindo que um pequeno captador passivo poderia produzir diariamente quase três copos de água pura e potável. O dispositivo está agora próximo da comercialização. Na entrevista ao jornal americano, Yaghi atribuiu a invenção aos seus esforços de infância para garantir água para sua família. Os canos municipais funcionavam algumas horas a cada uma ou duas semanas. Essa dificuldade, acrescentou ele, mostra como as experiências diversas dos imigrantes podem levar a descobertas inesperadas. O químico mantém laços de longa data com a Universidade Tsinghua. Em 2022, a instituição de Pequim o nomeou professor honorário e, nessa função, ele acompanhou de perto os trabalhos em química, ciência dos materiais e disciplinas relacionadas. Agora, ao ingressar em tempo integral na Tsinghua, Yaghi está sendo nomeado diretor de um novo instituto de IA para pesquisa científica que terá foco no design e síntese de novos materiais. O objetivo central, segundo a universidade, é "superar os gargalos de eficiência das abordagens tradicionais de tentativa e erro" e encurtar os ciclos habituais de descoberta.