Álvaro Machado Dias
12 Jul, 2026
Recompor a renda que a IA vai corroer exige responder a três perguntas: de onde sai o dinheiro, como ele rende no caminho e de que forma chega ao bolso das pessoas. O debate costuma escolher uma e tratá-la como o todo. A renda básica universal foca a entrega mas se cala sobre a receita. E ao contrário do Bolsa Família, que mira a pobreza e não o desemprego tecnológico, paga do bilionário ao indigente, enquanto durar a vontade de quem governa. A requalificação, mais barata, aposta que não haverá renda a repartir, apenas pessoas a treinar para empregos que ainda não existem. Já a participação social nas empresas de IA, na linha do que propõe Bernie Sanders, articula as três coisas. A origem são as ações da própria IA. O meio é um fundo que as rentabiliza e a ponta, um cheque anual aos residentes, como faz o Alasca com o petróleo. A dicotomia entre cheque e ação é menos técnica do que parece. O benefício vive dos caprichos do governo; o capital, dos humores do mercado. Cada desenho protege de um senhor e entrega a outro. E há o risco do caminho. Basta o Estado investir no vencedor de hoje e ele se revelar o Eike Batista de amanhã. O Brasil pode escapar dessa armadilha. O caminho passa por atrair os gigantes da IA para data centers abastecidos por hidrelétricas, cuja flexibilidade a aposta eólico-solar não entrega, e converter parte da receita em proteção social. A Axia Energia, antiga Eletrobras, poderia ancorar tal oferta. Uma política de atração já tramita. O Redata acerta ao tratar data centers como ativos estratégicos, mas limita-se pelo retorno prometido, emprego e formação, que o setor não gera. Na Virgínia, dezenas de bilhões produziram menos de dois mil postos. A soma de R$ 5,2 bilhões de renúncia só em 2026 é filantropia com CNPJ alheio. Melhor faria pela via da participação financeira vinculada à energia contratada, alimentando um fundo de transição tecnológica. Nem é preciso inventar. Maricá financia renda com royalties do petróleo e acumula parte num fundo soberano. Basta trocar poço por turbina. Resolvida a questão da origem e mitigado o risco de desembocar em empresas-abacaxi, resta a seletividade da entrega, a etapa mais difícil. O Brasil sabe identificar pobreza, mas não deslocamento tecnológico, que afeta sobremaneira a classe média, cujo endereçamento direto, num país com tantos pobres, seria frágil e vago. A saída é deixar faixas de renda e focar a fragilização de quem contribuía e se viu sem cobertura nos programas de pobreza. O Bolsa Família ficaria onde está e o novo seguro correria ao lado. O gatilho combinaria perda de poder de compra com evidências de automação no setor ou na ocupação, critério que exige blindagem para não virar o novo Simples. Um segredo é a reposição parcial, por tempo limitado, com teto, evitando a criação de acionistas vitalícios da própria demissão. Atendidos os danos, os rendimentos passariam a repor a arrecadação que some da folha, já que a IA não só produz vítimas, também corta as contribuições que deveriam ampará-las. Na urgência, o fundo repõe renda; na bonança, recompõe proteção social. Os modelos em disputa foram desenhados para quem possui a IA. O Brasil precisa do desenho de quem tem o que ela consome, e de uma regra mais rara, uma fonte permanente que não produza beneficiários permanentes.