Perto do adeus, Deschamps pode deixar França como maior técnico das Copas

admin
12 Jul, 2026
Resumo O maior vencedor da história da seleção francesa se aproxima de sua despedida dos Bleus. Didier Deschamps, campeão da Copa do Mundo como jogador e técnico, bateu recordes expressivos nesta edição do torneio e agora tem a chance de estabelecer mais uma marca histórica: ser o único técnico a chegar a três finais do Mundial. Além disso, em caso de novo título, ele seria o primeiro treinador a ser bicampeão do mundo desde 1938, quando Vittorio Pozzo ganhou sua segunda taça pela Itália. Junto do seu vice-campeonato em 2022, Deschamps passa a reunir resultados que o colocam como candidato a ser um dos maiores, se não o maior, técnico da histórias das Copas. A trajetória do ex-volante como treinador começou em 2012, com uma uma seleção que ainda se recuperava da crise na fracassada Copa de 2010. Dali em diante, repaginou a equipe, comandou a transição entre gerações talentosas e atingiu feitos que fizeram da França a seleção mais poderosa da atualidade. Todas essas façanhas —as conquistadas e as que estão no horizonte— ganham um contorno de ainda maior expectativa, uma vez que o treinador já anunciou, no ano passado, que a Copa de 2026 será sua última no comando dos Bleus. Transição gradual entre gerações Deschamps teve um enorme desafio logo em seu quarto trabalho como técnico: assumir a França em um cenário crítico após maus resultados. A seleção havia fracassado na Copa anterior, em 2010: com crise extracampo entre o elenco e o técnico Raymond Domenech, a equipe ficou em último lugar no Grupo A e voltou mais cedo para casa. Na Eurocopa, liderou uma modesta campanha que parou nas quartas, contra a Espanha. Para a Copa de 2014, sua primeira competição oficial pelos Bleus, Deschamps manteve boa parte do elenco da Euro anterior e fez uma campanha razoável, eliminado nas quartas diante da Alemanha, que se sagraria campeã. A mesma base foi à Euro de 2016, em que a França foi o país-sede. Apesar do bom desempenho geral, a derrota na final contra Portugal deixou um gosto amargo para a equipe. Com a manutenção de Deschamps no cargo, se iniciou ali a primeira grande transição de elenco em seu trabalho. No Mundial da Rússia, nenhum jogador de linha de 2010 estava entre os convocados, que passavam a contar com os jovens Kylian Mbappé e Ousmane Dembélé. Com inspirados Griezmann e Mbappé, a renovada França foi a sensação da Copa de 2018, despachando a Argentina de Messi, o Uruguai de Suárez, a melhor equipe da chamada geração de ouro da Bélgica e, na final, obteve uma vitória maiúscula por 4 a 2 contra a Croácia para garantir o bicampeonato. Um registro da Copa, quando os Bleus haviam vencido a Austrália na estreia, serve como uma janela para compreender o nível de cobrança e exigência de Deschamps com seus elencos. Em uma reunião após o jogo, embora tenha estreado com três pontos, o treinador se mostrou indignado com as falhas que observou em campo e deu um sermão nos jogadores. "Vocês estão em silêncio? São apenas imagens. Mas talvez seja muita coisa. Isso tudo é o que não fizemos. Nós não temos o direito de jogar assim! Me incluo nisso. Vou proteger vocês, um por um. Mas façam, façam!", exclamou Deschamps que, ao criticar a distância percorrida pelos franceses, não poupou nem Mbappé: "Na nossa equipe aquele que menos fez foi Mbappé, sendo que é sua qualidade." Após o título, fez questão de ressaltar o tamanho do feito. Tiro o chapéu para todos, vocês estão no topo do mundo pelos próximos quatro anos. Vocês serão ligados por toda a vida a esse troféu. Os jogadores e toda a comissão, a partir dessa noite, não serão os mesmos. Sabem por quê? Vocês são campeões mundiais Deschamps no vestiário, logo após a conquista da Copa. A França ainda conquistaria a Liga das Nações de 2021, após bater a Espanha por 2 a 1 na decisão. O Mundial do Qatar foi mais uma amostra do ótimo trabalho do treinador, apesar do vice-campeonato: com seis titulares de 2018 entre os 11 de Deschamps, o time teve uma campanha sólida, sobretudo no mata-mata, e protagonizou uma das maiores finais de todos os tempos contra a Argentina. Na decisão, ao se deparar com a superioridade e a vitória parcial dos adversários por 2 a 0 já no primeiro tempo, o comandante francês mostrou poder de reação, promoveu mudanças antes do intervalo e recolocou a França no jogo. O resultado? Na etapa final, os Bleus cresceram e buscaram o empate com um inspirado Mbappé, e o fariam novamente na prorrogação, encerrada em 3 a 3. A derrota veio nos pênaltis, por 4 a 2. Em 2026, novamente a seleção francesa se mostra dominante - com 100% de aproveitamento - e outra vez repaginada: somente quatro atletas campeões em 2018 ainda estão entre os 26 convocados nesta edição. Se no início da Copa de 2018 o tom de Deschamps era de cobrança com os atletas, agora, com um título mundial e um vice-campeonato em duas edições seguidas, a exigência permanece. "O que aconteceu em 1998 e 2018 ficará para sempre comigo, mas nada pode mudar o passado. O que importa agora é o que faremos a seguir", afirmou à Fifa o treinador, ao reconhecer o valor das conquistas pelos Bleus: "Tive a sorte de conquistar títulos por clubes, como a Liga dos Campeões [da Uefa], etc., mas nada se compara a ser campeão mundial. Seu nome continua o mesmo, mas duas palavras são acrescentadas para sempre: campeão mundial." A longevidade no cargo é uma característica, aliás, apontada pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol) como objetivo para se alcançar na seleção brasileira. Esse é o discurso de Rodrigo Caetano, diretor da entidade, e companhia após a eliminação diante da Noruega para defender que Carlo Ancelotti e toda a diretoria siga à frente da seleção, apesar da queda. Os feitos de Deschamps Em 14 anos com a França, Deschamps conquistou a Copa do Mundo de 2018 e a Liga das Nações de 2021, além dos vice-campeonatos no Mundial de 2022 e na Eurocopa de 2016. Durante a Copa de 2026, se tornou o treinador com mais vitórias na história da competição: com aproveitamento de 84%, venceu 20 partidas, empatou três e perdeu somente duas, com 56 gols marcados e 19 sofridos. Além disso, após o confronto contra o Marrocos, igualou a marca do alemão Helmut Schön como o técnico com mais partidas de Copa do Mundo, com 25. Deschamps ainda ostenta, ao lado de Zagallo e Beckenbauer, a marca de ter conquistado o Mundial como jogador (1998) e técnico (2018). Na França, inclusive, há quem trate o futebol da seleção como antes e depois da entrada dele. Se no Brasil a Era Dunga existiu para criticar o capitão do tetra depois do fracasso em 1990, por lá, a Era Deschamps serve apenas como elogios. Agora, com dois jogos restando nos Estados Unidos, o francês tem a oportunidade de bater mais duas marcas históricas no futebol mundial e se colocar entre os mais vencedores treinadores de seleções da história. Em 2026, ele ainda pode se tornar o primeiro técnico em três finais, se vencer a Espanha na terça-feira (14), e o segundo da história a ser bicampeão, se ficar com o título. Variações táticas no ataque Para além das transições entre três gerações francesas ao longo de 14 anos, o trabalho de Didier Deschamps também apresentou mudanças significativas no esquema táticas entre uma e outra Copa do Mundo. No ano do título, a formação escolhida pelo treinador havia sido o 4-3-3, com Kanté, Pogba e Matuidi pelo meio, e Mbappé, Griezmann e Giroud no ataque. Para o Mundial seguinte, em 2022, o técnico apostou em um esquema com quatro jogadores no setor ofensivo: Griezmann, mais recuado, Mbappé, Dembélé e Giroud. Tchouaméni e Rabiot faziam o papel da marcação no meio-campo. Nesta Copa, Deschamps manteve os quatro jogadores à frente, mas, agora, sem um centroavante fixo como foi Giroud e um quarteto com muito mais mobilidade para ocupar os espaços do ataque: Mbappé, Dembelé, Olise e Doué flutuam com mais liberdade para a criação das jogadas dos Bleus, com Barcola frequentando o quarteto. Pelo meio, Rabiot ganhou a companhia de Koné. Grandes treinadores de seleções e suas conquistas Vittorio Pozzo (Itália) - bicampeão mundial (1934 e 1938) e campeão dos Jogos Olímpicos de 1936 Helmut Schön (Alemanha) - campeão mundial (1974), da Eurocopa (1972) e detentor do recorde de jogos em Copas do Mundo Mário Zagallo (Brasil) - campeão mundial (1994), da Copa América e da Copa das Confederações em 1997; vice-campeão mundial (1998) Vicente Del Bosque (Espanha) - campeão mundial (2010) e da Eurocopa de 2012 Didier Deschamps (França) - campeão mundial (2018), da Liga das Nações de 2021 e recordista de vitórias em Copas do Mundo Lionel Scaloni (Argentina) - campeão mundial (2022), bicampeão da Copa América (2021 e 2024) e campeão da Finalíssima (2022) Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.