Mensageiro Sideral

admin
20 Jul, 2026
Um novo estudo internacional liderado por pesquisadores brasileiros e baseado em dados do Telescópio Espacial James Webb descobriu que algumas galáxias distantes têm uma presença de hélio muito maior do que a esperada. O trabalho, publicado no periódico Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, traz mais uma peça do quebra-cabeças que é a história de 13,8 bilhões de anos de evolução química desde o Big Bang. O hélio é o segundo elemento mais comum do Universo e o primeiro em ordem de sem-gracice. O mais simples dos chamados gases nobres, leva esse nome pomposo porque é um recluso químico: ele se recusa a se combinar com outros elementos (ou mesmo consigo mesmo) para formar moléculas. Contudo, por trás dessa aparente irrelevância, ele pode trazer informações preciosas sobre as origens e a evolução do Cosmos. Um aspecto interessante é que a imensa maioria de todo o hélio que existe foi forjado a partir do próprio Big Bang, nos primeiros instantes da expansão cósmica. Depois disso, suas quantidades iniciais seriam enriquecidas pela formação de estrelas, que fundem hidrogênio em seu núcleo para produzi-lo. Isso significa dizer que a abundância de hélio em uma dada galáxia tem correlação não só com a quantidade herdada do Big Bang (que é mais ou menos homogênea, seja onde for), mas com o processo de formação estelar (que pode produzir mais). É nessa investigação que entra o trabalho liderado por Oli Luiz Dors Junior, da Univap (Universidade do Vale do Paraíba), com participação de pesquisadores da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), além de colaboradores estrangeiros. Eles combinaram dados colhidos pelo Webb na pesquisa Jades (acrônimo para Pesquisa Avançada Ultraprofunda Extragaláctica do JWST) com outros já presentes na literatura científica para estabelecer as abundâncias de hélio e oxigênio em 84 chamados AGNs (núcleos galácticos ativos), nome dado a galáxias cujo buraco negro central está sendo brutalmente alimentado com matéria e, por isso mesmo, emite grandes quantidades de radiação. O mais interessante é que eles agruparam esses objetos de acordo com a distância, o que permitiu constatar que, quanto mais distantes (e portanto mais antigos, porque a luz deles teve de viajar mais tempo para chegar até nós), maior parece ser a abundância de hélio. Inversamente, as quantidades de oxigênio tendem a ser menores no passado remoto e maiores no presente. O destaque do trabalho ficou por conta de um objeto específico, a galáxia ativa GOODS-S MediumHST-58850, que representa a infância cósmica —a luz dele que estamos vendo agora foi gerada quando o Universo tinha "apenas" 900 milhões de anos. Hoje ele tem respeitáveis 13,8 bilhões, um senhor. A abundância de hélio nessa galáxia, segundo os cálculos do grupo, é cerca de quatro vezes e meia maior do que a encontrada no Sol, tido como um bom representante das nossas redondezas cósmicas. A identificação de uma galáxia ativa com tanto hélio já nos primórdios do Universo vai na mesma direção que outras pesquisas recentes feitas com o Webb, indicando que o amadurecimento do Cosmos se deu rapidamente, mais depressa do que se esperava. Ao esquadrinharem o passado cósmico, os astrônomos se veem forçados a voltar à teoria, adaptando seus modelos de formação estelar para explicar as mais recentes observações. Ficamos com a empolgante confirmação de que ainda há muito para descobrir e compreender lá fora. Siga o Mensageiro Sideral no Facebook, Twitter, Instagram e YouTube