Trump invadiu o futebol e você nunca mais vai ver a Copa do mesmo jeito
20 Jul, 2026
Resumo A Copa do Mundo como o torcedor aprendeu a conhecer talvez nunca mais exista. A edição de 2026 não será lembrada apenas pelo campeão, mas por consolidar mudanças que alteraram a essência do principal torneio do futebol. Política, interesses comerciais e entretenimento passaram a ocupar um espaço que antes pertencia quase exclusivamente à bola. E nenhum personagem simboliza melhor essa transformação do que Donald Trump. O presidente dos Estados Unidos deixou sua marca em um Mundial que pode ter mudado a Copa para sempre. Ainda muito antes da bola rolar para a final da Copa do Mundo, Donald Trump subiu ao palco ao lado de Gianni Infantino e recebeu um prêmio da paz criado pela Fifa. Já depois de a competição ter começado, elogiou publicamente o presidente da entidade pela decisão de reverter a suspensão de Folarin Balogun, expulso na 2a fase e liberado para disputar as oitavas após recurso aceito pela comissão disciplinar. Pela primeira vez, a política, os interesses comerciais e o espetáculo caminharam de forma explícita no centro da Copa. A aproximação entre Trump e Infantino se transformou em um dos símbolos do torneio disputado nos Estados Unidos. A imagem de um chefe de Estado elogiando uma decisão disciplinar da entidade máxima do futebol dias antes da final escancarou uma mistura que durante décadas sempre foi tratada com muito mais cautela. Mas as mudanças vão muito além da política. A Copa do Mundo de 2026 consolidou um modelo de competição que dificilmente terá volta. O torneio abraçou de vez uma lógica inspirada nas grandes ligas esportivas americanas, em que entretenimento e oportunidades comerciais passaram a influenciar diretamente a organização das partidas. O exemplo mais evidente foi a adoção definitiva do sistema de quatro quartos. As chamadas paradas para hidratação ganharam uma função comercial clara, criando novos espaços para publicidade e ativações de patrocinadores. Dentro de campo, elas também interferiram no jogo. Levantamento do UOL mostrou que cerca de 40% das partidas tiveram gols ou mudanças decisivas logo após essas interrupções. Outra tradição que ficou pelo caminho foi o intervalo. O tempo entre o primeiro e o segundo tempo foi ampliado para permitir um show mais robusto na decisão, em um formato assumidamente inspirado no intervalo do Super Bowl, principal evento esportivo dos Estados Unidos. O futebol deu mais um passo em direção ao espetáculo televisivo. Também foi a Copa da expansão. Pela primeira vez, 48 seleções disputaram o Mundial, encerrando oficialmente a era das 32 equipes que marcou o torneio por quase três décadas. E a discussão já avançou para uma nova ampliação. A Fifa estuda a possibilidade de realizar uma Copa com 64 seleções, ampliando ainda mais um modelo que parecia intocável até poucos anos atrás. A geografia do torneio também mudou. Estados Unidos, México e Canadá dividiram a organização pela primeira vez em três países. E o próximo Mundial já promete ir além. A edição de 2030 terá jogos em seis países, espalhados por três continentes, com Uruguai, Paraguai e Argentina recebendo partidas de abertura antes de a competição seguir para Marrocos, Espanha e Portugal. Dentro de campo, outra transformação ficou evidente. As antigas potências seguem perdendo espaço. A Itália sequer conseguiu se classificar novamente. Brasil e Alemanha, donos de nove títulos somados, mantiveram a sequência recente de eliminações precoces e confirmaram que a hierarquia construída ao longo do século 20 já não garante protagonismo. Ao mesmo tempo, o Mundial encerrou um dos capítulos mais importantes da história do futebol. Lionel Messi e Cristiano Ronaldo disputaram, muito provavelmente, suas últimas Copas do Mundo. Neymar também se despediu do torneio de maneira melancólica, sem conseguir repetir o protagonismo esperado. Enquanto uma geração histórica deixava o palco, outra assumia o comando. Lamine Yamal surgiu como o grande rosto do futuro, enquanto Kylian Mbappé consolidou seu lugar como maior artilheiro da história das Copas. Por tudo isso, a Copa de 2026 talvez seja lembrada menos pelo campeão e mais pelas mudanças que oficializou. O torneio que durante décadas preservou rituais, formatos e símbolos passou a incorporar novas prioridades, aproximando política, negócios e entretenimento de forma inédita. A Copa do Mundo continua existindo, mas a sensação é que aquela competição que o torcedor aprendeu a conhecer ao longo do século passado ficou definitivamente para trás. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.