Parte de foguete Falcon 9, da SpaceX, vai se espatifar na Lua nesta quarta

admin
4 Aug, 2026
A humanidade está mais uma vez espalhando lixo no nosso vizinho celeste mais próximo. Nesta quarta-feira (5), parte de um foguete Falcon 9, da SpaceX, cairá na Lua. O choque deve ocorrer às 3h35 (de Brasília), em um ponto perto da linha divisória entre os lados próximo e oculto. O clarão será fraco demais para ser observado a olho nu, mas talvez seja visível com o uso de telescópio. "O objeto atingirá um ponto onde temos alguma esperança de que podemos observá-lo", disse Bill Gray, desenvolvedor do Projeto Pluto, um conjunto de softwares astronômicos usados para calcular as órbitas de asteroides e cometas, e o primeiro a perceber que poderia haver a colisão. O estágio de foguete de quatro toneladas atingirá a Lua a 8.600 quilômetros por hora, mais que o dobro da velocidade de uma bala disparada por um rifle, gerando calor suficiente para produzir um clarão. Em seguida, a pluma de detritos e poeira iluminada pelo Sol subirá e cairá durante vários minutos. Segundo Gray, é bastante incerto que tudo isso será visível. O clarão talvez não seja muito intenso, e a pluma pode não subir o suficiente, ficando ofuscada pelo brilho da superfície lunar. Nos próximos anos, o veículo Starship, também da empresa de Elon Musk, deverá transportar regularmente astronautas e cargas da Nasa para a superfície lunar. Mas, até agora, nada construído pela SpaceX chegou à Lua ou sequer entrou em sua órbita. Há décadas, partes de espaçonaves vêm deixando a superfície lunar marcada por crateras. Na década de 1970, a Nasa lançou deliberadamente contra a Lua o terceiro estágio dos foguetes Saturn V que levaram os astronautas das missões Apollo ao espaço. O primeiro impacto proposital ocorreu durante a Apollo 13, a fatídica missão que teve de ser interrompida devido à explosão de um tanque de oxigênio. Quando o controle da missão informou aos astronautas que as vibrações do impacto haviam sido registradas por um sismógrafo deixado na superfície pelos astronautas da Apollo 12, o comandante da Apollo 13, Jim Lovell, comentou com ironia: "Bem, pelo menos alguma coisa funcionou neste voo". Mais recentemente, o bombardeio se intensificou. As tentativas de empresas privadas de pousar espaçonaves na Lua têm, na maioria das vezes, produzido novas crateras. Em 2022, parte de um foguete chinês atingiu o lado oculto lunar. O Falcon 9 cujo estágio deve cair na Lua deixou a Terra em 15 de janeiro do ano passado, transportando dois módulos lunares: o Blue Ghost, da americana Firefly Aerospace; e o Resilience, da japonesa Ispace. Mais tarde, o Blue Ghost pousou no lado próximo da Lua, enquanto o Resilience se chocou contra a superfície. Depois que o segundo estágio do Falcon 9 colocou as duas espaçonaves em suas trajetórias rumo à Lua, ele continuou orbitando a Terra. Astrônomos amadores o localizaram rapidamente, e Gray continuou a monitorá-lo. "Estava claro que a órbita do objeto cruzaria a da Lua", disse Gray. "Portanto, era provável que, em algum momento, ele passasse muito perto dela ou colidisse com sua superfície." Gray disse que, no ano passado, os cálculos indicavam ser bastante provável uma colisão com a Lua. Mas ele não divulgou nada até abril, quando se sentiu seguro de que poderia determinar onde ocorreria o impacto: perto da cratera Einstein, de 177 quilômetros de diâmetro, no hemisfério norte da Lua. Isso despertou o interesse de pesquisadores como David Goldstein, professor de engenharia da Universidade do Texas em Austin, e seu aluno de pós-graduação, William Jo. Este último fez a pesquisa de sua tese de doutorado sobre uma colisão lunar anterior, na missão Lcross, da Nasa. Em relação ao Falcon 9, Jo produziu simulações do material que seria lançado caso o estágio caísse verticalmente. "Estamos tratando esse cenário como o melhor caso possível, aquele que produzirá a maior quantidade de detritos visíveis", disse Goldstein. A simulação indicou que, embora uma coluna de detritos subisse e descesse em linha reta, uma quantidade muito maior seria lançada em um ângulo baixo, percorrendo talvez até 160 quilômetros antes de voltar à superfície alguns minutos depois. "É uma pluma bastante grande", afirmou Jo. Compreender a física desses impactos pode ser crucial para as pessoas que eventualmente se mudem para a Lua um dia. Se um impacto ocorresse nas proximidades, os detritos, viajando a centenas de quilômetros por hora, poderiam atingir máquinas, habitats e astronautas como um jato de areia. As partículas em alta velocidade poderiam perfurar o traje espacial de um astronauta, fazendo com que todo o ar em seu interior escapasse e não restasse nada para respirar. "Você estará tentando respirar no vácuo", afirmou Goldstein. Simulações computacionais conduziadas por outra equipe, liderada por Benjamin Fernando, pesquisador de pós-doutorado do Laboratório Nacional de Los Alamos, no Novo México, chegaram a conclusões semelhantes. Segundo as previsões da equipe, o impacto do Falcon 9 criará uma nova cratera de 20 a 30 metros de largura. Como a força da gravidade da Lua corresponde a um sexto da terrestre, algumas das partículas menores provavelmente serão lançadas no espaço. "Eu ficaria muito surpreso se parte desse material não acabasse em órbita", disse ele. Fernando disse estar esperançoso de que os astrônomos consigam observar alguma coisa. Mas, ainda que isso não aconteça, o impacto lhes proporcionará novos conhecimentos, porque não há cilindros metálicos ocos naturais circulando em alta velocidade pelo sistema solar. "De qualquer forma, aprenderemos algo sobre a dinâmica desse processo." Mesmo que os astrônomos não detectem o impacto na manhã desta quarta-feira, as espaçonaves em órbita da Lua quase certamente o farão. A espaçonave sul-coreana Danuri deve sobrevoar o local do impacto em torno deoito horas após a colisão. A Lunar Reconnaissance Orbiter, da Nasa, que fotografou com sucesso a maioria dos locais de colisões anteriores, passará sobre o local seis dias após o impacto.