A carta, o poeta e meus heterônimos
6 Aug, 2026
“Em Paris todos querem ser atores, ninguém está contente em ser espectador.” Jean Cocteau A decisão de fazer análise em Paris, há muitos anos, com o filho intelectual de Lacan, Éric Laurent, decorreu, em parte, do fascínio que a cidade exerce sobre mim. Sempre me realizei andando ao lado do Sena ou simplesmente sentado em um café, com um copo de vinho e um livro. O maior deleite era observar as pessoas passando nos boulevares. A tradição parisiense de colocar as cadeiras voltadas para as ruas, e não de frente uma para a outra, faz de nós observadores da cena da cidade. A pressa fica para NY; a angústia, para o tempo fechado e escuro de Londres. Paris sempre me acolheu. Lembro-me de, numa sessão de psicanálise, ter contado ao psicanalista sobre uma conversa que havia tido com o Gérard Depardieu, à época o grande ator francês. Imortalizado por Cyrano de Bergerac, clássico francês que ele levou ao cinema. No filme, o personagem principal se apaixona pela bela Roxane e usa um amigo, culto e poeta, para recitar poesias na varanda e encantar a amada, como se fosse ele o poeta. Depardieu me convidou para almoçar na casa dele em Paris, na Rue de Cherche-Midi, e, em meio aos inúmeros vinhos, contei-lhe uma história passada na minha Patos de Minas, há muitos anos. Como não tinha dinheiro para viajar nas férias, recebia primos e amigos na casa dos meus pais. Um deles se apaixonou por uma menina linda que morava em Patos. Durante os 30 dias de férias, ele dedicou-se, todos os dias, a essa paixão. Sem sucesso. Nem um único beijo. Na hora de voltar para SP, fez-me um estranho pedido: “Você adora escrever e eu não. Nem leio. Você pode escrever uma carta para eu mandar para ela quando chegar a São Paulo?”. Achei bizarro e excitante e, claro, escrevi a carta. Ele copiou e enviou pelos Correios. Bons tempos. Passada uma semana, fui surpreendido com a menina na minha casa com a carta nas mãos. E me disse: “Amei, se ele tivesse dito para mim o que escreveu na carta, eu teria me apaixonado e ficado com ele.”. E aí veio o pedido inusitado e que superou, em muito, o clássico francês: “Você responde para mim?”. Durante um ano, eu me correspondi comigo mesmo. Fui apimentando a relação amorosa epistolar e, nas férias seguintes, o encontro entre eles foi explosivo e apaixonado. Pena que, com três dias de sexo e sonhos, ela tenha me dito: “Vou terminar; ele, ao vivo, não é o homem das cartas”. Depardieu enlouqueceu com a história. Disse para eu arrumar um roteirista que ele queria interpretar o personagem principal. Trazer um filho para estudar em Londres tem vários significados para mim. Primeiro, observar um jovem de 20 anos que estuda Direito em Brasília se oferecer para o mundo ao decidir cursar Cinema, ainda que por 6 meses. Sempre tive vontade de morar fora do Brasil, mas nunca consegui. Quando estudante e depois recém-formado, tinha a luta pela sobrevivência mesmo. Sem condições financeiras sequer para morar no Brasil, o sonho de ir para o exterior era mais um pesadelo. E depois, numa contradição em termos, ainda novo, comecei a ver o escritório deslanchar, e aí os inúmeros compromissos para sustentar a parentada me prendiam ao trabalho. Sempre fui profissional liberal. Nunca tive carteira assinada. E, pelo meu estilo na advocacia, dependia exclusivamente de mim. E isso significou passar a vida toda à frente do escritório. Optei por viajar sempre que podia e me acostumei a passar pequenas temporadas pelo mundo afora. Quando comprei um apartamento em Paris, na Place Saint-Germain-des-Prés, descobri minha vila no mundo. Fiz do Café de Flore o meu escritório. Mas sempre antenado na minha vida profissional no Brasil. Por isso, sempre que meus 3 filhos optavam por cursos nos EUA, na França ou na Inglaterra, eu me realizava por meio deles. Agora, perto de fazer 70 anos, talvez eu arrisque um período sabático e crie coragem de dividir a mesa, mundo afora, com alguns dos meus heterônimos ocultos. Apaixonado que sou por Fernando Pessoa, vou sentar nos cafés com Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Bernardo Soares e Álvaro de Campos, os mais conhecidos, que devem cruzar, no imaginário fantástico, com um poeta, um escritor, um roteirista, um ator que eu ainda não consegui ser. Mas eu sinto que existe. Lembrando-nos do velho Fernando Pessoa, na sua Autopsicografia: “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente. Que chega a fingir que é dor. A dor que deveras sente.” Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay