A IA ambiente
6 Aug, 2026
A IA ambiente Imagem gerada por IA Eu não sou fã de malhação. Não gosto de puxar ferro. Faço pela minha saúde, pelo menos três vezes por semana, bem cedinho, antes de levar minha filha para a escola, na academia do meu prédio. Aos 42 anos, ainda não tive o prazer de perceber a tal da endorfina liberada com exercícios anaeróbicos. Tenho certa raiva, misturada com inveja, das pessoas que afirmam ser viciadas nisso. Aquelas que não conseguem dormir bem quando pulam o dia de perna. Aquelas que saem por aí postando seus longões. Você também conhece o tipo, né? Mas existe outro fato que me aborrece na academia, além de ter que fazer exercício. Lá tem uma televisão e as pessoas colocam clipes de música no Youtube para tocar em looping. A verdade, óbvia e extremamente irritante, é que, nos últimos meses, os vídeos escolhidos e as músicas que tocam neles são 100% feitos com IA . É isso mesmo: imagens de drone de praias que não existem, festas lotadas de avatares de pixel e músicas eletrônicas no BPM e na duração certa para motivar seres humanos durante aquela atividade supervalorizada por cardiologistas. Quando você procura esses canais, num primeiro momento imagina que sejam feitos por adolescentes em seus quartos. Depois, quando investiga um pouco mais, descobre que existe alguma corporação maligna por trás, administrando milhares de canais e monetizando uma quantidade obscena de plays. São músicas e vídeos feitos com prompts , embalando humanos distraídos pela endorfina. O mundo do eternamente citado Ela, de Spike Jonze, já existe em espaços que você nem imagina. Isso implica que a música ambiente , que em algum momento também era organizada por direitos autorais e representava uma oportunidade de trabalho para músicos, agora está totalmente desconectada dessas duas coisas. Ela vale apenas a fração de milésimo de centavo gerada por cada play no YouTube ou no Spotify. O que me irrita não é o fato da música ser feita com IA. O que me incomoda demais, enquanto estou levantando um peso ridículo no supino, é que a música eletrônica que toca nesses vídeos é de baixíssima qualidade. Para quem não liga pra música, até passa. Para quem, em algum momento da vida, parou para estudar como a música de verdade funciona, aquilo é torturante. E música eletrônica é música de verdade sim. Sorry, haters. Assim como em todos os estilos, tem música eletrônica boa - que é aquela com profundidade e inspiração - e música ruim - aquela extremamente pasteurizada. Corta para a tarde desta segunda-feira. Fui cortar o cabelo porque, nesta semana, tenho duas palestras importantes. Uma no Rio Innovation Week, onde falarei sobre “Educação em Tempos de Algoritmos”. Depois, na CON26, abrirei o palco principal com a palestra “Apaixone-se pela Mudança”. A música ambiente durante o corte era uma versão funk absolutamente maravilhosa de “I Love It Loud”, do Kiss, seguida por outro cover igualmente incrível de “Crazy Train”, do Ozzy Osbourne. Quando perguntei ao barbeiro qual era aquela banda, ele respondeu na lata: “É tudo IA.” O projeto Fake Music BR tem página no Instagram e perfis no Spotify e no YouTube. Pelo que entendi das informações publicadas por eles, o conteúdo é criado por um ou mais de um produtor musical - ou seja, gente que estudou música - que abraçaram a IA como ferramenta criativa. E devem estar tirando um troco com isso. Em vez de ficar P*** da vida eu fiquei feliz com a investigação. Essa informação prova o ponto “EU + IA” que ensino e coloco em todas as minhas palestras. A IA sozinha, na mão de gente sem repertório, gera conteúdo ruim e medíocre. Na mão de seres humanos criativos, com critério e habilidades específicas, ela é capaz de potencializar criações maravilhosas. Fake Music BR é bem bom. Quais são as questões éticas e legais envolvidas em tudo isso? Sei lá. Só sei que hoje as coisas estão assim.