Estatizar o Uber? Legalizar o aborto? As piores propostas dos candidatos à Presidência
23 Aug, 2026
A cada quatro anos, o Brasil passa por um fenômeno curioso: durante algumas semanas, o país se transforma em um grande balcão de promessas. Os candidatos à presidência da República chegam com soluções para praticamente tudo — e, se depender do discurso eleitoral, não haverá problema nacional que resista ao primeiro ano de mandato. Basta eleger o sujeito certo. O problema é que, entre uma promessa plausível e outra, aparece sempre aquela ideia que parece ter sido concebida não em uma equipe de governo, mas em uma mesa de bar. Nesta eleição, os programas dos candidatos trazem de propostas ambiciosas a medidas que levantam uma pergunta bastante simples: alguém realmente parou para calcular quanto isso custa, verificar se o presidente pode fazer isso ou, em alguns casos, descobrir se a proposta é sequer possível? Não é uma característica exclusiva de 2026. A história das eleições presidenciais brasileiras é pródiga em promessas que desafiam o orçamento, a Constituição, a matemática e, ocasionalmente, o bom senso. A volta da picanha, a inauguração do trem bala brasileiro ou do “aerotrem” e as estatizações em massa são algumas das promessas que parecem ter sido escritas sob a lógica de que, se eu quero algo, basta colocar no papel para que aconteça. Mas não é preciso voltar ao passado para encontrar propostas capazes de provocar alguma incredulidade. Com 13 candidatos registrados para a Presidência, a eleição de 2026 já colocou sobre a mesa um cardápio suficientemente variado de ideias, metas e promessas inviáveis, impossíveis ou simplesmente vazias. São promessas oficiais, registradas na forma de documentos protocolados no sistema da Justiça Eleitoral. A Gazeta do Povo preparou uma lista das nove piores propostas eleitorais dos candidatos à Presidência em 2026. 1 – Aumento de 100% no salário mínimo dos brasileiros Quem prometeu: Samara (UP) [https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/BR/BR/20322002026/280002538811/2026/BR] e Hertz Dias (PSTU) [https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/BR/BR/20322002026/280002541457/2026/BR] Contexto: É a primeira promessa do programa de governo da candidata Samara Martins da Silva Feitosa (UP). Na seção sobre emprego e renda, não faltam citações de Karl Marx e dados do IBGE para tentar justificar as propostas. As mudanças na economia, explica a candidata, seriam realizadas por meio do “controle popular e planejamento socialista”. Por que é ruim: À primeira vista dobrar o valor do salário-mínimo é uma proposta tentadora. Mas a ideia não sobreviveria ao mundo real. Dobrar o salário mínimo pressionaria os preços para cima, provocando uma disparada na inflação. Além disso, o aumento súbito no valor do salário mínimo prejudicaria sobretudo as empresas menores, que precisariam reduzir o número de empregados para sobreviver. 2 – Nacionalizar empresas estrangeiras, como o Uber Quem prometeu: Samara (UP) [https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/BR/BR/20322002026/280002538811/2026/BR] Contexto: A candidata propõe um programa de garantia de emprego público e trabalho obrigatório para todos os adultos capazes de trabalhar nas áreas de reindustrialização, infraestrutura, habitação, saneamento, reprodução social e doméstica, ferrovias, transição energética, agricultura familiar, ciência e tecnologia. Além disso, ainda critica o empreendedorismo, que para Samara traz uma falsa equiparação entre burgueses e trabalhadores. Por que é ruim: O governo precisaria gastar muito dinheiro para comprar a empresa. Esse valor faria falta em áreas essenciais como saúde, educação e segurança pública. Empresas do governo seguem regras duras de compras e contratações. Isso impede reações rápidas, o que poderia tornar as plataformas obsoletas e inviáveis em pouco tempo. 3 – Transformar burocratas em guardas municipais Quem prometeu: Escritor Augusto Cury (Avante) [https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/BR/BR/20322002026/280002551547/2026/BR] Contexto: Em seu programa de governo – o mais longo de todos os candidatos nas eleições de 2026, com 200 páginas – Cury propõe recriar o Ministério da Segurança Pública e fazer uma integração plena entre Polícia Federal, Polícias Civis, Polícias Militares e Guardas Municipais. O resultado é a Polícia FOCO – Força de Combate Preventivo. Por que é ruim: A promessa estabelece que 5% dos servidores municipais seriam realocados nessa nova função. A medida foi pensada dessa forma para não aumentar os quadros de pessoal das prefeituras. Só que a promessa não fala como seria essa realocação nas cidades onde não há Guarda Municipal formada. Na prática, qualquer servidor, de um auxiliar administrativo a uma merendeira escolar, poderia ser escalado para fazer parte de uma nova força policial, potencialmente amadora e perigosa para os próprios integrantes e a sociedade como um todo. 4 – Monopólio estatal das telecomunicações, da telefonia e da internet Quem prometeu: Edmilson Costa (PCB) [https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/BR/BR/20322002026/280002551975/2026/BR] Contexto: Como não poderia deixar de ser, o programa do candidato comunista é recheado de ideias contrárias ao capitalismo, em suas diversas formas. Uma delas é a visão de que os meios de comunicação no Brasil hoje são “verdadeiros partidos políticos reacionários”. Para resolver essa questão, o candidato propõe uma revisão nas concessões para assegurar que cooperativas de trabalhadores operem os serviços de telecomunicações, telefonia e internet, tudo devidamente estatizado. Por que é ruim: Antes da privatização das teles, em 1998, as linhas de telefone fixo eram bens escassos controlados pelo Estado e consideradas um patrimônio pessoal, com a expressa necessidade de declaração no Imposto de Renda. Não raro, quem não se sujeitava à fila de até cinco anos por uma nova linha acabava entrando no mercado paralelo de aluguel de telefones. Hoje, graças à privatização, o Brasil tem mais smartphones do que pessoas, o que praticamente universalizou o serviço. 5 – Fim da Polícia Militar Quem prometeu: Hertz Dias (PSTU) [https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/BR/BR/20322002026/280002541457/2026/BR] e Rui Costa Pimenta (PCO) [https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/BR/BR/20322002026/280002552487/2026/BR] Contexto: Outro programa repleto de propostas inviáveis, o texto de Dias aponta que “as atuais instituições policiais estão organizadas para exercer o controle social sobre a população pobre e trabalhadora, e não para garantir sua segurança”. Por isso, o caminho apontado pelo candidato seria o fim da Polícia Militar e a instauração de um estado de autodefesa comunitária cidadã. Por que é ruim: Não é difícil imaginar uma situação em que as forças comunitárias cidadãs de autodefesa evoluam para milícias, com leis próprias e sem nenhuma prestação de contas ou responsabilização junto à sociedade. Cidadãos sem recursos para comprarem suas próprias armas ou formar redes locais estariam sujeitos à lei do mais forte. Há a possibilidade de ocorrer uma corrida armamentista entre vizinhos e bairros, e sem uma autoridade neutra para mediar a situação pequenos conflitos cotidianos poderiam virar chacinas letais. 6 – Redução imediata do preço dos combustíveis em 50% Quem prometeu: Rui Costa Pimenta (PCO) [https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/BR/BR/20322002026/280002552487/2026/BR] Contexto: O programa do PCO, um dos mais radicais da extrema esquerda do Brasil, começa afirmando que o partido “não participa das eleições para fazer promessas”. Na sequência, as sete páginas do documento se contradizem ao trazer várias propostas que não passam de palavras vazias em um arquivo digital. Entre elas, a ideia de transformar a Petrobras em uma empresa 100% nacional, controlada pelos trabalhadores, e estatizar as reservas minerais, o que para o PCO permitiria a redução do preço dos combustíveis pela metade nos postos. Por que é ruim: O Brasil é autossuficiente em petróleo bruto, mas não em derivados refinados, como o diesel e a gasolina. Com o preço de venda abaixo do custo de importação, a Petrobras e as empresas privadas teriam prejuízo ao trazer os combustíveis de fora, o que reduziria a oferta. A redução brusca levaria a um descontrole na demanda, o que poderia esgotar os estoques locais de combustíveis. Racionamentos se tornariam constantes, e modais de transporte sofreriam interrupções. A paralisação teria, como consequência, uma disparada nos preços de produtos básicos, que não chegariam aos mercados por falta de transporte. Em resumo: o caos. 7 – Desencarceramento em massa Quem prometeu: Edmilson Costa (PCB) [https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/BR/BR/20322002026/280002551975/2026/BR], Samara (UP) [https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/BR/BR/20322002026/280002538811/2026/BR] e Hertz Dias (PSTU) [https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/BR/BR/20322002026/280002541457/2026/BR] Contexto: As propostas são apresentadas como reformas necessárias tanto na estrutura da Segurança Pública quanto na questão de como o Estado deve tratar a população negra brasileira. Nos documentos do PCB e do UP, os candidatos associam diretamente as políticas de enfrentamento ao tráfico de drogas ao que ambos chamam de “genocídio da população negra”. Para o PSTU, uma reparação completa dos impactos da escravidão no Brasil passa necessariamente pela revogação da Lei Antidrogas e pelo desencarceramento em massa. Por que é ruim: Legalizar as drogas seria um passo no sentido de uma capitulação do Estado perante o crime organizado. Facilitar o acesso aos entorpecentes acarretaria uma série de outros problemas de saúde pública. Além disso, propostas de desencarceramento em massa e redução da rigidez penal contra delitos associados ao tráfico enfraquecem a autoridade policial, deixando a sociedade indefesa e transmitindo uma mensagem de impunidade e incentivo ao desrespeito às leis. 8 – Legalização do aborto Quem prometeu: Edmilson Costa (PCB) [https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/BR/BR/20322002026/280002551975/2026/BR], Hertz Dias (PSTU) [https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/BR/BR/20322002026/280002541457/2026/BR] e Samara (UP) [https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/BR/BR/20322002026/280002538811/2026/BR] Contexto: Os três defendem explicitamente a morte de fetos. Eles propõem a legalização do procedimento e prometem a realização gratuita dos abortos na rede pública de Saúde. Os outros candidatos ou não citam o tema, sob nenhuma forma, em seus programas de governo, ou trazem propostas genéricas de “garantias de direitos reprodutivos femininos”, como Ronaldo Caiado (PSD) [https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/BR/BR/20322002026/280002551932/2026/BR], Escritor Augusto Cury (Avante) [https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/BR/BR/20322002026/280002551547/2026/BR] e Lula (PT) [https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/BR/BR/20322002026/280002542548/2026/BR]. O único a se posicionar frontalmente contra o aborto em seu programa de governo é Flávio Bolsonaro, que defende um compromisso inegociável de respeitar e defender “a vida desde a concepção”. Por que é ruim: A legalização do aborto representa uma violação do direito à vida do feto, que deveria ser visto como um ser humano inocente e distinto desde a concepção, cuja proteção legal e moral é dever do Estado. 9 – Extinção do Senado Quem prometeu: Edmilson Costa (PCB) [https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/BR/BR/20322002026/280002551975/2026/BR] Contexto: Para o candidato comunista, o parlamento bicameral tradicional atua como instrumento das classes dominantes para “punir os pobres e proteger os ricos”, além de abrigar diversos privilégios corporativos. O Senado, então, seria extinto e substituído por um Parlamento Unicameral, parte essencial do programa do partido para a reconstrução radical do sistema político brasileiro em direção ao socialismo. Por que é ruim: Um congresso formado de duas casas, Câmara e Senado, é um dos pilares indispensáveis para a democracia, principalmente no que diz respeito aos chamados freios e contrapesos. Cabe ao Senado, muitas vezes, moderar os impulsos imediatistas da Câmara, o que é uma garantia de estabilidade e prudência no trabalho legislativo. Outro efeito seria o rompimento do pacto federativo, base do arranjo republicano brasileiro. Enquanto a Câmara representa a população, de forma proporcional, o Senado representa os estados. Na prática, o fim do Senado traria um desbalanceamento de forças no parlamento, com efeitos nocivos tanto para estados menores e menos populosos (que perderiam força de representação) quanto para estados cujas bancadas são subdimensionadas na Câmara, como é o caso de São Paulo. Por fim, a proposta prevê a eleição de metade dos membros dessa nova casa legislativa única por meio de assembleias de classe. O modelo tem potencial para facilitar uma postura despótica por parte dos parlamentares e, em última instância, o controle ideológico do Estado.