O sertão que ainda se descobre

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2 Sep, 2026
Em maio de 1952, João Guimarães Rosa (1908-1967) — médico, diplomata e autor de Sagarana (1946), então já incensado pela crítica — tangeu uma boiada por 220 quilômetros, dos gerais até os pastos da fazenda de um primo, em Araçaí (MG), perto de Cordisburgo (MG), sua terra natal. “Ele voltava de uma estada de três anos em Paris e estava morrendo de saudades do sertão”, conta Érico Melo, pós-doutor em literatura comparada pela Universidade de São Paulo (USP) e rosiano (especialista no autor mineiro) há mais de 20 anos. Guimarães Rosa fez o percurso a cavalo, dormindo ao relento com vaqueiros, enquanto anotava observações em cadernetas — ou cahiers d’écrivain, como ele preferia —, que trazia atadas com barbante no segundo botão da “camisa-blusa”. Essa travessia foi o “evento deflagrador” da escrita de Corpo de baile , volume que reuniria sete novelas, afirma Melo. Nos anos seguintes, uma narrativa concebida como a oitava, até então intitulada O diabo na rua, no meio do redemunho , ganhou vida própria e a saga de Riobaldo e Diadorim se materializou em Grande sertão: veredas . Os dois livros foram publicados, respectivamente, em fevereiro e julho de 1956. As anotações dessa viagem estão reunidas em 157 páginas datilografadas, distribuídas em dois maços, que Rosa intitulou A boiada 1 e A boiada 2 . “Ali há frases inteiras que ele reproduz nos dois livros”, diz Melo. Esses registros — que incluem algumas das cadernetas de viagem — estão entre os cerca de 20 mil documentos do Fundo João Guimarães Rosa, do Instituto de Estudos Brasileiros, da Universidade de São Paulo (IEB-USP), adquiridos da família do autor em 1973, dos quais 10 mil estão catalogados. A boiada 1 e 2 foram publicados em 2011 em edição fac-similar pela editora Nova Fronteira. “Mas nem tudo do acervo de Guimarães Rosa está no IEB-USP. Os documentos que ainda estão com a família da esposa, Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, são uma mina de ouro para estudiosos”, conta Melo. Foi ali que o pesquisador descobriu 12 folhas retocadas à mão do livro inacabado que levaria o título Boiada . Se concluído, seria um relato em primeira pessoa da expedição boiadeira de Rosa, em 1952. O fac-símile de uma das páginas de Boiada está reproduzido no artigo assinado por Melo e incluído na edição especial de 70 anos da obra, lançada pela Companhia das Letras em 16 de julho — na mesma data da publicação da edição original, em 1956. As anotações da viagem, em 157 páginas datilografadas, integram o fundo João Guimarães Rosa do IEB-USP, acervo de cerca de 20 mil documentos, dos quais 10 mil estão catalogados “Guimarães Rosa? Dá 2.500 anos para ele” A edição comemorativa da Companhia das Letras é a 23a de Grande sertão: veredas . A primeira, lançada há sete décadas pela Livraria José Olympio Editora, com 594 páginas, recebeu os prêmios Carmen Dolores Barbosa e Paula Brito, ambos em 1957. Em 1961, Rosa ganharia o Machado de Assis pelo conjunto da obra. Manuel Cavalcanti Proença (1905-1966), romancista e crítico literário, em Trilhas no grande sertão (1958), enxergou no romance uma superposição de planos: subjetivo, coletivo, telúrico e mítico. No mesmo ano, o tradutor, crítico e professor húngaro naturalizado brasileiro Paulo Rónai (1907-1992) escreveu em Encontros com o Brasil que o sertão emerge da obra de Rosa como símbolo do inconsciente, e a vereda, como símbolo da consciência. Antonio Candido (1918-2017), sociólogo, crítico literário e professor universitário, no ensaio O homem dos avessos (1962), definiu o livro como “o primeiro grande romance metafísico da literatura brasileira”. O sucesso da obra de Rosa transbordou para o século 21. Em 2009, a crítica literária Walnice Nogueira Galvão, professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP), especialista em Euclides da Cunha, indagada pela Pesquisa FAPESP se haveria leitores para Cunha e Guimarães Rosa no futuro, respondeu: “Homero ainda dialoga conosco. Ao lermos Homero, estamos lendo o que chamamos de ‘grande literatura’. Guimarães Rosa? Dá 2.500 anos para ele também, que sempre haverá gente para ler e gostar.” As sucessivas edições, o olhar perscrutante da crítica e o interesse de pesquisadores pelo romance de Rosa parecem atestar o vaticínio de Walnice Galvão. “ Grande sertão: veredas é a obra literária brasileira mais importante do século 20 porque é um retrato perfeito do Brasil a partir da região central, do sertão”, diz Willi Bolle, crítico literário e professor de literatura alemã na FFLCH- -USP, autor de grandesertão.br: o romance de formação do Brasil , publicado pela Duas Cidades/Editora 34, em primeira edição, em 2004 e, em segunda edição, em 2023. O livro, segundo Bolle, conversa com os principais retratos do país, a começar pela obra “matricial” de Euclides da Cunha, Os sertões (1902); passando por Gilberto Freyre, em Casa-grande & senzala (1933); Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil (1936); e Caio Prado Jr., em Formação do Brasil contemporâneo (1942). Bolle acrescenta a essa lista três outros “retratos”, posteriores à obra de Rosa: o de Raimundo Faoro, Os donos do poder (1958); o de Celso Furtado, Formação econômica do Brasil (1959), e o de Darcy Ribeiro, em O povo brasileiro: A formação e o sentido do Brasil (1995). A obra “labiríntica” de Rosa, como Bolle diz, também dialoga com o grande público por tratar da questão do amor. “Como disse um professor de literatura de Berlim [Bolle é alemão], não existe grande obra literária sem a temática do amor. E de fato o amor de Riobaldo e Diadorim, no plano mais amplo, é o amor pelo povo do sertão e do Brasil, que se mostra na atenção que Rosa dá às falas do povo, criticando a falta de diálogo entre as classes dos letrados e as pessoas do povo.” “Rosa continua lido e vivo”, afirma Luiz Roncari, professor titular da área de literatura brasileira da USP, e autor, entre outros, de O Brasil de Rosa (2004), cuja publicação contou com apoio da FAPESP , e Lutas e auroras (2018). No primeiro, Roncari investiga a genealogia dos três primeiros livros do autor e no segundo, as agruras, lutas e perdas de Riobaldo, a “parte negra” de Grande sertão: veredas . “Como todo bom escritor, Rosa tinha também os olhos na ‘eternidade’, por isso não barateou a sua obra. Trabalhou para se firmar na Literatura Brasileira, que conhecia tão bem quanto a universal, pois era um homem culto, que tinha consciência da grandeza e complexidade do universo no qual queria entrar. Aí não havia lugar para a ingenuidade e o engano”, afirma Roncari. Para Márcia Valéria Martinez de Aguiar, da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Grande sertão: veredas é um “poema de 600 páginas”. “É uma escrita complexa, ancorada no sertão, mas que transcende o sertão, uma mistura de real, de metafísica e de poesia, construída no texto pelo feiticeiro da palavra que era Guimarães Rosa, uma construção que encanta cada vez mais.” Acervo IEB-USP Sertão sem fronteiras A obra de Guimarães Rosa ultrapassou as fronteiras do sertão e também as do Brasil, sendo traduzida em várias línguas. A tese de doutorado de Aguiar, defendida em 2011 na FFLCH-USP, examinou as duas versões francesas de Grande sertão: veredas , ambas publicadas pela Éditions Albin Michel — a primeira, assinada por Jean-Jacques Villard, de 1965, e a segunda, por Maryvonne Lapouge-Pettorelli, de 1991. Mais recentemente, em pesquisa apoiada pela FAPESP , Aguiar estudou as cartas trocadas entre Rosa e Villard. A investigação que orienta os estudos de Aguiar trata de como diferentes tradutores recriam, em outras línguas, as sobreposições entre oralidade sertaneja, erudição e invenção poética. “Verter Guimarães Rosa para outra língua continua sendo um desafio para os tradutores, em razão justamente da mistura entre o real e o fantástico, que constitui sua poética. Seus primeiros tradutores, ao longo dos anos 1960, enfrentaram valentemente a tarefa, buscando tanto entender os elementos concretos de suas obras — interrogando, além dos escassos dicionários da época e consultores brasileiros, o próprio Guimarães Rosa, com o qual trocavam correspondências —, quanto desvendar sua poética e metafísica.” Ela lembra um critério sugerido por Rónai para saber se uma tradução funcionou: o leitor conseguir chegar ao final do livro. “E a primeira versão alemã e a primeira versão francesa de Grande sertão: veredas , por ele analisadas, passaram no teste”, ela afirma. Aguiar reconhece que original e tradução são, inevitavelmente, dois livros distintos. “Mas os livros e suas traduções conversam. É como um caleidoscópio, que vai iluminando partes diferentes do original”, compara. As duas edições francesas analisadas por Aguiar têm como título Diadorim . A primeira tradução para o inglês, assinada por Harriet de Onís e James L. Taylor, de 1963, foi intitulada The devil to pay in the backlands . Uma nova tradução para o inglês, de Alison Entrekin, Vastlands: the crossin g, tem lançamento previsto para o início de 2027. Na tradução alemã de Curt Meyer-Clason, lançada em 1964 pela editora Kiepenheuer & Witsch, o livro recebeu o título de Grande sertão . Na nova versão, de Berthold Zilly, com lançamento também previsto para o começo do próximo ano, pela editora S. Fischer Verlag, o título será Großer sertão: querungen . “A palavra ‘sertão’ foi incorporada à língua alemã”, sublinha Willi Bolle. Eugênio Silva Guimarães Rosa durante a viagem da boiada por Minas Gerais, em maio de 1952 Eugênio Silva Cartografias do sertão Apesar de já ter disponível à época a tradução alemã, Bolle leu Grande sertão: veredas pela primeira vez em português, em 1966, quando, ainda estudante, fez um curso de introdução ao livro com Antonio Augusto Soares Amora na Freie Universität Berlin. “Eu tinha 22 anos, estava no quinto semestre, mas o livro me fascinou tanto que pedi ao professor Amora um estágio no Brasil para estudar Guimarães Rosa. E ele aceitou”, conta Bolle. Embarcou num navio e, depois de uma travessia de 21 dias, aportou no Rio de Janeiro — o destino final era Santos. “Liguei para o professor Amora, que sugeriu que eu desembarcasse e procurasse Guimarães Rosa no Itamaraty [que, então, ficava no Rio de Janeiro]. Saí do navio e conheci Guimarães Rosa!” Instalado em São Paulo, utilizou um método pouco usual para estudar a obra: comprou dois exemplares de Grande sertão: veredas , cortou as páginas e forrou as paredes do local em que vivia. “Eu queria ter um insight, uma visão que iluminasse minha compreensão”, explica. Décadas depois, durante um estágio de pós-doutorado na Universidade de Stanford, em 1999, repetiu a experiência, cobrindo as paredes de seu gabinete com as páginas da obra. “E escrevi a primeira versão de grandesertão.br .” O fascínio provocado pela leitura de Guimarães Rosa também levou o goiano Érico Melo a mergulhar no universo rosiano. “Sou engenheiro químico formado pela Universidade Estadual de Campinas [Unicamp]. Trabalhei cinco anos numa empresa multinacional até descobrir Guimarães Rosa.” Deixou o emprego, entrou na graduação em letras na USP — que não finalizou —, escreveu um projeto de mestrado, obteve apoio da FAPESP e acabou aceito para um doutorado direto na FFLCH-USP sob a orientação de José Miguel Soares Wisnik. Hoje, editor e “pesquisador independente”, Melo segue naquele que foi o tema de seu doutorado, investindo numa modalidade de crítica literária que utiliza dados toponímicos, corográficos e geodésicos — ou seja, nomes de lugares, descrições de regiões e medições de coordenadas e altitudes — para mapear o romance. “Em Corpo de baile e Grande sertão: veredas , Rosa se baseou tão intensivamente na paisagem mineira que parece ter tido acesso a imagens aéreas.” E ele suspeita que, de fato, tenha tido. “Ele era chefe de gabinete no Itamaraty e negociou diretamente com os americanos o Acordo Militar de 1953, que resultou na produção dos primeiros mapas do Brasil desenhados pelo IBGE, com base em imagens fornecidas pela força aérea estadunidense.” Essas negociações aconteceram entre 1951 e 1953, período em que Rosa foi chefe de gabinete de João Neves de Fontoura, ministro das Relações Exteriores. “Ele já estava escrevendo Corpo de baile e Grande sertão: veredas . Descobri essa informação nos jornais da época e na correspondência entre Rosa e Fontoura, que está no IEB-USP. Encontrei os mapas, primeiro na mapoteca da biblioteca da FFLCH-USP e depois no site do IBGE, digitalizados. Um desses mapas, com anotações, está no Fundo João Guimarães Rosa do IEB, o que indica que ele efetivamente os consultou.” Ele lembra, ainda, que Rosa era membro titular da Sociedade Brasileira de Geografia. “Esse órgão era muito ligado a esse momento capital da cartografia brasileira. Sua reputação de especialista em geografia lhe rendeu a indicação para representar o Itamaraty no Diretório Central do Conselho Nacional de Geografia/IBGE, uma semana antes da publicação de Grande sertão: veredas .”