Julgamento da mulher que matou os três filhos revela o poder perverso da ideologia
4 Sep, 2026
Em 24 de janeiro de 2023, Lindsay Clancy estrangulou em sua casa, com faixas de ginástica, seus três filhos: Dawson (5 anos), Cora (3 anos) e Cal (8 meses). O julgamento – cuja fase de depoimentos ocorreu durante julho e agosto – dividiu a opinião pública americana e, como no caso de Jason Arday, confirmou o perigo de transformar pessoas em símbolos ideológicos. Enquanto estas linhas são escritas, o júri não conseguiu chegar a um acordo para emitir um veredito sobre a responsabilidade penal de Lindsay Clancy. Ninguém duvida que ela assassinou seus filhos – ou, melhor dizendo, ninguém duvidava antes do julgamento –, mas a defesa alegou que ela o fez em um estado de psicose pós-parto que anularia sua culpabilidade. Antes de acabar com a vida dos pequenos, Clancy havia pedido ajuda para recuperar sua saúde mental, havia recorrido a um grande número de especialistas – que lhe haviam receitado um grande número de medicamentos – e tinha chegado a se internar voluntariamente em um hospital psiquiátrico. A promotoria, no entanto, insistiu que os problemas de saúde de Lindsay Clancy não a impediram de saber o que fazia e que foi um homicídio planejado (entre outras coisas, porque ela se assegurou de que seu marido se ausentasse de casa pelo tempo suficiente para deixá-la sozinha com as crianças). À margem destas duas versões, o impasse do júri é melhor compreendido se for analisada a batalha que este caso provocou na opinião pública. Por um lado, estão as mulheres que, por terem sofrido elas mesmas de depressão ou psicose pós-parto, acreditam que os filhos de Clancy poderiam ter sido salvos se os sinais de alarme tivessem sido atendidos a tempo. Por outro, estão aqueles que, sem negar a doença de Clancy, sublinham a necessidade de fazer justiça. E há um terceiro grupo que, em um país onde os true crime fazem sucesso, transformou o julgamento em um espetáculo e em uma fonte de teorias conspiratórias que são transmitidas através do TikTok. Da compaixão à vitimização É muito interessante – embora também bastante desolador – ver como, à medida que o julgamento (que foi transmitido ao vivo) avançava, essas três posturas foram evoluindo. Muitos dos que apontavam o déficit de atenção sanitária às mães e a falta de conscientização sobre a depressão pós-parto (muito mais frequente que a psicose pós-parto) passaram da compaixão pela doença de Clancy a considerá-la uma vítima — do sistema sanitário, da sociedade e, para as vozes mais combatentes, do patriarcado. Centenas de mulheres vestidas de rosa se manifestaram em frente ao tribunal com camisetas escrito Peace for Lindsay, enquanto outras enviaram vídeos para suas redes sociais nos quais, com a hashtag Me too Lindsay ou Same Lindsay, mostram-se chorando, ansiosas e sobrecarregadas cuidando de seus filhos, ou inclusive, em uma escuríssima empatia tóxica, incomodando-os com copos de água ou simulando torturas com IA. Por outro lado, uma arrecadação no GoFundMe para os pais de Clancy ultrapassou um milhão de dólares em poucos dias. À causa da vitimização de Clancy e de buscar culpados fora, uniram-se muitos dos que analisam o julgamento nas redes sociais, convencidos de encontrar pistas e indícios que nem a polícia, nem nenhum investigador analisou antes. Esta febre conspiratória, unida ao clima de exculpação de Clancy, transformou Patrick Clancy (ex-marido de Lindsay e pai das crianças) no culpado: seja por não ter socorrido sua mulher, seja por supostas incongruências em seu depoimento. E isso apesar de o próprio Patrick ser um dos maiores defensores de sua ex-mulher, a quem considera doente e a quem perdoou. Por suposto, para os conspiranóicos, este apoio é mais uma demonstração de sua absoluta culpabilidade (embora não estivesse no local do crime). No meio deste ambiente tão tóxico e polarizado, muitos insistiram que a empatia com a doença de Lindsay Clancy não obriga a transformá-la em uma vítima. Mas, como também ocorre em qualquer processo polarizador, as manifestações a favor de Clancy fizeram com que alguns dos que pedem justiça tivessem radicalizado também suas posturas, solicitando a pena máxima (prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional) ou criticando as diferenças com que são julgados os homens que acabam com a vida de seus filhos. Lindsay Clancy, um símbolo para o feminismo? As quatro semanas de julgamento transformaram Lindsay Clancy, assim como Jason Arday, em um símbolo. E também como Arday, em um símbolo que serve para leituras opostas dentro de um mesmo debate, que aqui não é sobre racismo, mas sobre feminismo. Para uma parte do feminismo, Clancy é a prova de que a saúde mental materna continua subdiagnosticada e subfinanciada, e querem aproveitar este acontecimento para conscientizar a sociedade sobre este problema. Outra parte desse mesmo feminismo adverte o contrário: reduzir um triplo homicídio a um desajuste hormonal, e apresentar quem o cometeu como vítima antes do que como responsável por seus atos, corre o risco de ressuscitar o velho argumento — que o feminismo combateu durante décadas — de que a biologia feminina é um fardo que torna as mulheres mais frágeis e menos confiáveis que um homem nas mesmas circunstâncias. Segundo estas vozes, a exoneração de Clancy de toda responsabilidade poderia criar uma jurisprudência que complique a vida de muitas mulheres por não serem consideradas aptas para cuidar de seus filhos ou porque se suspeite de sua estabilidade psíquica se forem mães. As crianças, fora de foco Por fim, a escassa atenção que se prestou aos filhos de Clancy em todo o julgamento revela para muitos outros sintomas do momento cultural que estamos vivendo, infinitamente mais preocupado com a saúde e o bem-estar das mulheres do que com o das crianças, e absolutamente permissivo no tema do aborto, até o ponto de considerá-lo um direito humano. O julgamento é realizado em Massachusetts, o mesmo estado que este mês de agosto eliminou qualquer limite de tempo de gestação para o aborto. E nesta mesma semana voltaram a viralizar as declarações da atriz Anne Hathaway, nas quais afirmava que “o aborto pode ser outra palavra para a misericórdia”. Aparentemente, estes dois fatos não têm nada a ver com o julgamento de Clancy, mas em uma batalha ideológica tudo soma ou subtrai. E, se a um feminismo de confrontação e a um feminismo de superproteção e infantilização da mulher você soma uma mentalidade pró-aborto, obtém o coquetel perfeito para que seja muito difícil para o júri não ver Lindsay Clancy como vítima e aceitar sua responsabilidade penal. Uma responsabilidade que não implica descartar a doença. A lógica ideológica não admite nuances. A realidade e a verdade, sim. Pode-se ter compaixão e emitir uma sentença. Mostrar compaixão sem transformar uma mãe que acabou com a vida de seus filhos em um ícone. Quem explica bem isso é Pamela Paresky, psicóloga e pesquisadora associada em Harvard, em um artigo na Psychology Today UK. Depois de enumerar os possíveis vereditos (que vão desde a prisão perpétua ao internamento em um centro psiquiátrico), ela aponta: “nenhum desses vereditos exige negar a compaixão. O sofrimento e a capacidade de decisão não são mutuamente excludentes. E a capacidade de decisão não tem por que excluir a compaixão. Tampouco a compaixão exige ver Clancy como a vítima nesta história. As vítimas foram Cora (5 anos), Dawson (3) e Callan (8 meses)”. ©2026 Aceprensa. Publicado com permissão. Original em espanhol: El poder perverso de la ideología (II): El caso de Lindsay Clancy [https://www.aceprensa.com/sociedad/mujer/el-poder-perverso-de-la-ideologia-ii-el-caso-de-lindsay-clancy/]