Casa histórica da Vila Itororó passa por restauro e deve reabrir em novembro no centro de SP

admin
20 Sep, 2026
Quando Adoniran Barbosa caminhou pelas ruas do Bixiga de braços dados com a cantora Elis Regina, em 1978, ele a levou para visitar a Vila Itororó, já com sinais de decadência. Logo na entrada, os dois passaram diante da casa 8, onde ainda funcionava o Clube Éden Liberdade. Se, no samba "Saudosa Maloca", o dono manda demolir a antiga moradia "em nome do progresso", a história desse imóvel histórico teve outro desfecho: está sendo restaurado. A Vila Itororó é um conjunto arquitetônico do início do século passado localizado no bairro da Bela Vista, região central de São Paulo, às margens da avenida 23 de Maio. Foi construída por Francisco de Castro, descendente de imigrantes portugueses, e reunia casas de aluguel, jardins, um palacete e decorações reaproveitadas da demolição de outros prédios. Dentro deste complexo, está a casa 8, construída num terreno de várzea desvalorizado (à época) para receber a sede do Éden Liberdade Futebol Clube, um dos primeiros times de várzea de São Paulo. A equipe ocupava o amplo pavimento térreo, com quadra poliesportiva e vestiários, e destinado à convivência, além de atividades sociais e esportivas. Ali funcionava também a primeira piscina coletiva privada da cidade. Apenas sócios tinham acesso. O amplo pavimento térreo foi pensado para esse tipo de uso, de socialização. "Essa característica faz todo sentido como um clube de lazer. Não à toa, a piscina é parte dessa casa extraordinária", afirmou Norton Ficarelli, diretor de projetos do Instituto Pedra, especializado em trabalhos na área de patrimônio cultural. O térreo já foi restaurado na primeira etapa. O foco agora são os andares superiores. Esses dois pavimentos têm características residenciais e dois apartamentos, um em cada andar. Os apartamentos eram compostos por uma sala, dois quartos, uma cozinha e um banheiro. "O acesso aos apartamentos é feito por uma escadaria independente, que também faz parte dessa etapa do restauro. Ela dá acesso a esses pavimentos", disse Ana Luiza Teixeira, arquiteta coordenadora do Instituto Pedra. Segundo Ficarelli, os dois andares superiores foram usados como moradia, embora não se saiba ao certo quem viveu ali e se tinham alguma relação de trabalho com o Clube Éden Liberdade. A intervenção nos pavimentos superiores, que começou em abril, inclui a renovação das instalações elétricas e hidráulicas, além da recuperação de pisos, forros, paredes e esquadrias. O estado de conservação do imóvel varia entre os ambientes. A casa 8 é uma das que mais preserva aspectos originais na vila, de acordo com Érica Machado, arquiteta e gerente de obras da Concrejato, empresa de engenharia responsável pelas obras. No pavimento mais próximo da cobertura, pisos e forros estavam muito deteriorados e não puderam ser reaproveitados. Em outras áreas, foi possível preservar elementos de madeira da própria casa, disse Érica. O encarregado da obra, Weneilson Santos, 46, afirmou que um dos principais desafios foi identificar os danos nas portas e esquadrias, que pareciam conservadas, mas haviam sido deterioradas por cupins internamente. "Eles comeram as madeiras de dentro para fora." A restauração não prevê a substituição de todos os elementos. Nos componentes de madeira, a equipe preserva o que pode ser reaproveitado. "A gente faz um enxerto de madeira e substitui apenas aquilo que estava danificado", contou Érica. As peças que puderam ser reaproveitadas foram retiradas, identificadas e recolocadas nos ambientes, segundo ela. As esquadrias que estavam faltando serão reproduzidas com base em fotografias e registros das peças originais. Durante a obra, também foram encontradas pinturas decorativas sob camadas de tinta. As prospecções revelaram desenhos florais feitos com molde e sobreposições de pinturas de diferentes períodos. Em duas salas que funcionavam como cozinhas, a equipe encontrou paredes com duas cores e um friso entre elas. Uma das tonalidades mais antigas identificadas é esverdeada. "A gente vai entregar as mesmas características, só que agora de uma forma conservada", disse Érica. Segundo ela, a configuração da casa não foi alterada. Além do interior, a fase atual do restauro inclui três fachadas. Os serviços preveem limpeza e recuperação das alvenarias, incluindo o restauro dos tijolos aparentes e dos revestimentos. A obra está prevista para terminar até 30 de novembro, segundo a Concrejato. Fim de uma era Além das atividades esportivas, a casa 8 também recebeu festas, bailes e casamentos. O clube permaneceu no imóvel até meados de 1992. Com o abandono progressivo da Vila Itororó pelos proprietários, o térreo foi alugado para uma lavanderia terceirizada que fazia tingimento de roupas. A atividade utilizava a água que brotava no próprio complexo, proveniente do antigo riacho Itororó, onde hoje está a avenida 23 de Maio. Quando as obras de restauração da Vila Itororó começaram, no fim de 2014, ainda havia no local grandes tonéis, estruturas arredondadas de madeira, e um reservatório de água, da época da lavanderia. O restauro atual é financiado por um projeto de R$ 2 milhões do ProAC (programa estadual de fomento), com recursos da lei Aldir Blanc (federal). O valor inclui obras, ações de divulgação e duas oficinas gratuitas de educação patrimonial. Uma das oficinas já foi realizada. A segunda está prevista para novembro e será aberta ao público. A primeira etapa desse restauro nos pavimentos superiores recebeu R$ 492 mil do ProMac (programa municipal de fomento), em 2023, para a recuperação da cobertura e a impermeabilização da laje. Infiltrações foram contidas, assim como o avanço da degradação. O térreo continua recebendo eventos. Segundo a Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa, a casa 8 terá programações culturais gratuitas e semanais depois da conclusão do restauro. Atualmente, o espaço recebe entre 15 mil e 20 mil visitantes por mês. A secretaria ainda definirá o uso dos dois pavimentos restaurados. Uma das possibilidades é que um dos apartamentos funcione como camarim para os espetáculos realizados no térreo. Também poderão ser realizadas oficinas e outras atividades abertas ao público. A casa 8 não é o endereço de "Saudosa Maloca", mas poderia abrigar os personagens e a vida dos cortiços imaginados na canção. Décadas depois de Adoniran Barbosa passar pela vila, o imóvel foi escolhido como cenário de "Dá Licença de Contar" (2015), filme ambientado nos anos 1920, período em que a construção foi erguida. Na produção, o espaço se transforma na moradia retratada na música, com Paulo Miklos no papel do compositor. O elenco conta ainda com Ney Matogrosso e Gero Camilo.