"A IA nunca substituirá a troca humana e o conhecimento"
28 Sep, 2026
Karina Lisboa é educadora e gestora cultural, graduada em Administração pela PUC, com especialização em Gestão Empresarial pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e mestrado em Tecnologias Emergentes em Educação pela Miami University. Com mais de 26 anos de experiência no ensino superior, construiu uma trajetória na gestão institucional, docência e produção artística. Preside o Instituto Superior de Ensino Celso Lisboa, fundado pelo pai, com mais de 40 mil alunos, e coordena a Escola de Artes da instituição, no Engenho Novo, na Zona Norte do Rio. SIDNEY: De que forma a inteligência artificial está transformando o ensino superior? KARINA LISBOA : Ainda estamos entendendo quais são as melhores aplicações em cada setor. Na Celso, que sempre teve a inovação e a tecnologia como parte do seu DNA, começamos pesquisas e testes para identificar onde a IA poderia efetivamente agregar valor à nossa operação e, principalmente, à experiência do aluno. A partir da nossa "Fábrica de Conteúdo", encontramos uma aplicação interessante, saudável e eficiente para acelerar a produção de conteúdos em vídeo para os cursos à distância e semipresenciais, automatizando algumas etapas que antes dependiam de gravação em estúdio e edição. Isso torna o processo mais ágil e reduz o tempo para que novos conteúdos cheguem aos alunos, sem abrir mão da qualidade e da validação acadêmica. É uma primeira experiência, mas acreditamos que mostra um caminho de usar a IA não apenas porque é uma nova tecnologia, mas para potencializar o processo e trazer um ganho concreto para a instituição, os professores e os alunos. A IA substitui o professor ou potencializa o trabalho docente? Temos uma premissa muito clara na universidade de que a inteligência artificial não substitui pessoas, mas potencializa o trabalho delas. No nosso projeto, por exemplo, o professor continua responsável pela elaboração do conteúdo e pela validação de tudo o que é disponibilizado aos alunos. A tecnologia entra para tornar algumas etapas mais ágeis e eficientes, mas o conhecimento, a experiência, o olhar pedagógico e a relação humana continuam sendo elementos que não podem ser substituídos. A ferramenta pode ajudar o professor, liberar tempo de atividades operacionais e permitir que se concentre ainda mais em aspectos que exigem conhecimento, análise e interação com os estudantes. Qual é o maior impacto da IA no aprendizado dos universitários? Ainda é muito cedo para medir esse impacto. Estamos no início da implementação desse projeto e seria precipitado afirmar agora qual será o efeito direto, mas existe a certeza, enquanto instituição de ensino, de entender e incorporar a tecnologia de forma responsável. A inteligência artificial é uma ferramenta muito poderosa e pode auxiliar em diferentes etapas da jornada acadêmica, mas não substitui o conhecimento, o pensamento crítico ou a troca humana. O grande desafio será justamente como potencializar o aprendizado sem transformar a educação em um processo automático. A tecnologia pode apoiar, agilizar e ampliar possibilidades, mas o professor, o aluno e a relação entre eles continuam no centro da experiência educacional. Quais são os principais limites éticos ou pedagógicos no uso da IA na educação? O principal limite é justamente não perdermos a responsabilidade sobre o processo educacional. Não podemos simplesmente transferir para uma ferramenta decisões que envolvem conhecimento, aprendizagem, avaliação ou desenvolvimento de um aluno. A IA precisa ser utilizada com critério, transparência e acompanhamento humano. É importante que o estudante saiba como aquela tecnologia está sendo utilizada e que os professores e as instituições continuam responsáveis pela qualidade e pela validade acadêmica de todo o processo. A tecnologia deve vir para potencializar a experiência, e não para distanciar ainda mais alunos e professores. Como a IA vem transformando as formas de avaliação? A inteligência artificial abre muitas possibilidades, mas ainda estamos avaliando com cuidado quais aplicações fazem sentido. Uma das frentes que estudamos é justamente o apoio à aplicação e à correção de exercícios e avaliações, sempre com acompanhamento e supervisão do professor. Acredito que a tecnologia pode ajudar, por exemplo, a tornar alguns processos de acompanhamento mais ágeis e a dar mais suporte para o professor identificar dúvidas ou dificuldades dos alunos. Isso pode permitir uma experiência mais personalizada ao longo da jornada acadêmica. Mas é importante reforçar que não vemos a IA como uma ferramenta que simplesmente vai corrigir tudo ou substituir o olhar do docente. A avaliação envolve interpretação, contexto e acompanhamento. Qual será o perfil do ensino no futuro diante do avanço da IA? Acredito que o ensino superior será cada vez mais tecnológico, mas espero que também seja cada vez mais humano. Pode parecer contraditório, mas acho que justamente esse é o desafio e a oportunidade que temos pela frente. A inteligência artificial vai mudar processos, formas de produzir conteúdo, acompanhar alunos e até algumas dinâmicas de avaliação. Isso é inevitável. Mas quanto mais tecnologia tivermos disponível, mais importante será entender onde a presença humana faz diferença. O futuro do ensino superior, na nossa visão, não está em substituir professores por tecnologia. Está em usar a tecnologia para tornar a educação mais ágil, personalizada e acessível, permitindo que professores tenham mais tempo para aquilo que nenhuma ferramenta consegue reproduzir completamente: orientar, provocar reflexões, compartilhar experiências e acompanhar o desenvolvimento de cada aluno. Colaboração de Claudia Villas Boas