Carro feito no Brasil, peças vindas da China: importações sobem 56%
28 Sep, 2026
A presença chinesa na indústria automobilística brasileira já vai muito além dos carros que chegam às concessionárias. Em agosto, a China respondeu por 26,9% de todas as autopeças importadas pelo Brasil, consolidando sua posição como principal fornecedora estrangeira de componentes para as montadoras instaladas no País. O dado faz parte do mais recente balanço comercial divulgado pelo Sindipeças, entidade que representa o setor. Somente no mês, as importações de peças chinesas movimentaram US$ 585,3 milhões (aproximadamente R$ 3 bilhões), crescimento de expressivos 55,6% sobre os US$ 376 milhões registrados em agosto de 2025. No acumulado dos oito primeiros meses de 2026, as compras chegaram a US$ 3,78 bilhões, avanço de 31,1% na comparação anual. A China já concentra praticamente um quarto de tudo o que o Brasil importa em autopeças. Os números ajudam a dimensionar uma transformação em curso na cadeia automotiva nacional. A chegada de novas fabricantes chinesas, a instalação de linhas de montagem e o crescimento das vendas de veículos eletrificados estão ampliando a demanda por componentes vindos do país asiático. E essa dependência não se limita a BYD, GWM ou Geely: envolve também fabricantes tradicionais, como a General Motors, que passou a montar modelos da sua parceira chinesa no Ceará. Chevrolet Captiva EV: início da montagem nacional Foto de: Motor1 Brasil Fornecedores tradicionais perdem espaço O avanço chinês contrasta com o desempenho dos demais parceiros comerciais do Brasil. Em agosto, a Alemanha, segunda maior fornecedora de autopeças, respondeu por 8,8% das importações, seguida por Estados Unidos (8,4%), México (7,8%) e Japão (7,3%). Sozinha, a China vendeu ao Brasil mais componentes do que Alemanha, Estados Unidos e México somados. A diferença fica ainda mais evidente quando se observa o acumulado de janeiro a agosto. Enquanto as importações chinesas cresceram 31,1%, as compras de componentes dos Estados Unidos recuaram 13,6%, as do Japão caíram 7,4% e as da França diminuíram 19,7%. A Suécia registrou retração ainda maior, de 25,6%. Segundo o Sindipeças, os resultados indicam um possível movimento de substituição de fornecedores tradicionais por alternativas chinesas, além de mudanças nas estratégias globais de abastecimento das montadoras. Top 5: importações brasileiras em agosto de 2026 Os cinco países que mais enviaram autopeças ao Brasil em agosto de 2026 Foto de: Divulgação Fonte: Sindipeças/Abipeças, com dados da Secex/MDIC. De BYD e GWM à Chevrolet: a China avança no Brasil A expansão das importações acontece justamente quando a indústria brasileira recebe uma nova leva de investimentos em produção local. A BYD iniciou a montagem de veículos em Camaçari (BA), enquanto a GWM opera sua fábrica de Iracemápolis (SP). Em Goiás, o Grupo CAOA ampliou a operação de Anápolis com a chegada da Changan, que passou a dividir o complexo industrial com a CAOA Chery. Entre os lançamentos recentes está o CAOA Changan CS55, SUV médio produzido em Anápolis com motor 1.5 turbo flex de 180 cv e câmbio automatizado de dupla embreagem de sete marchas. O modelo parte de R$ 144.990 e integra a estratégia de nacionalização da marca, que também desenvolveu uma versão híbrida plug-in flex com 286 cv. Mas talvez o exemplo mais interessante dessa transformação esteja na GM. A dona da Chevrolet passou a montar na Planta Automotiva do Ceará (PACE), em Horizonte, nas antigas instalações da Troller, veículos desenvolvidos pela SAIC-GM-Wuling (SGMW), sociedade formada pela GM e suas parceiras chinesas. O Chevrolet Spark EUV e o Captiva EV já saem da unidade cearense a partir de conjuntos importados da China. Em novembro, será a vez do Captiva PHEV, primeiro híbrido plug-in da Chevrolet produzido em território brasileiro. O SUV terá potência combinada de 204 cv e autonomia total próxima de 1.000 km. A montagem segue a estratégia de aproveitar projetos desenvolvidos na China, com adaptações para o mercado brasileiro, reduzindo o tempo necessário para introduzir novos veículos eletrificados. Geely EX5 EM-i entra em produção no Brasil Foto de: Divulgação Geely e Leapmotor ampliam a produção nacional Outra frente importante é a Renault Geely do Brasil (RGdB), sociedade que já iniciou a produção do Geely EX5 EM-i no Complexo Industrial Ayrton Senna, em São José dos Pinhais (PR). O SUV híbrido plug-in combina motor 1.5 a gasolina com propulsão elétrica, entregando 262 cv e 38,7 kgfm de torque. Dependendo da versão, utiliza baterias de 18,4 kWh ou 29,8 kWh e oferece autonomia combinada de até 1.300 km, segundo o Inmetro. A operação representa o primeiro passo de um investimento conjunto de R$ 5,8 bilhões até 2027. Em dezembro, a fábrica paranaense também começará a produzir o Geely EX2, hatch 100% elétrico que se tornou um dos principais sucessos comerciais da marca no Brasil. O modelo utiliza motor traseiro de 116 cv e bateria de aproximadamente 40 kWh, com autonomia homologada de 289 km. A Stellantis também prepara a produção nacional de modelos da Leapmotor em Goiana (PE), ampliando a presença da tecnologia chinesa em uma fábrica que já produz veículos das marcas Fiat, Jeep e Ram. A estratégia envolve a utilização de sistemas elétricos com extensor de autonomia (REEV), tecnologia que permite ao motor a combustão funcionar como gerador de energia para alimentar o conjunto elétrico. O cenário tende a ficar ainda mais movimentado com a expansão de Omoda Jaecoo, GAC e Jetour, além da chegada de outras fabricantes chinesas, como DFM (Dongfeng) e BAIC. Mesmo quando os veículos chegam inicialmente importados, a ampliação dessas operações movimenta toda a cadeia de abastecimento, distribuição e serviços automotivos. Fábrica da BYD em Camaçari (BA) Foto de: BYD Produção brasileira, componentes importados A mudança também suscita uma discussão sobre o grau de nacionalização dos veículos produzidos no País. Parte das novas operações industriais começa pelos regimes SKD (Semi Knocked-Down) e CKD (Completely Knocked-Down), nos quais os automóveis chegam parcialmente ou totalmente desmontados para montagem local. Isso permite iniciar a produção com investimentos menores, mas mantém a necessidade de importar uma parcela relevante dos componentes. O desafio é especialmente maior para os veículos eletrificados. Baterias de alta tensão, motores elétricos, semicondutores, módulos eletrônicos e sistemas de gerenciamento de energia integram uma cadeia de fornecedores na qual a China ocupa posição central. Essa realidade também afeta montadoras tradicionais que utilizam componentes chineses em veículos desenvolvidos e fabricados no Brasil. O relatório do Sindipeças não discrimina quais fabricantes foram responsáveis pelo crescimento das importações chinesas. Tampouco permite identificar quanto desse avanço corresponde especificamente a baterias, semicondutores ou conjuntos destinados à montagem de veículos elétricos e híbridos. Ainda assim, a entidade relaciona a expansão das compras externas à demanda por componentes importados, especialmente tecnologias de eletrificação. Inauguração fábrica GWM em Iracemápolis (SP) Foto de: GWM Déficit de autopeças já supera US$ 10 bilhões em 2026 O crescimento das importações chinesas pressiona a balança comercial brasileira de autopeças. Entre janeiro e agosto, o País importou US$ 15,9 bilhões em componentes, alta de 2,5% sobre o mesmo período de 2025. Já as exportações recuaram 4,1%, totalizando US$ 5,21 bilhões. Com isso, o déficit comercial do setor alcançou US$ 10,69 bilhões nos oito primeiros meses do ano, aumento de 6,1%. Somente em agosto, o saldo negativo foi de US$ 1,47 bilhão, resultado de US$ 2,18 bilhões em importações e US$ 707,9 milhões em exportações. Entre os componentes mais importados pelo Brasil estão caixas de câmbio, partes de carroceria, controladores eletrônicos, chicotes elétricos, motores e sistemas de transmissão. No acumulado de 2026, as importações de controladores eletrônicos cresceram 17,4%, chegando a US$ 575,6 milhões. Já as compras de motores a combustão com cilindrada superior a 1.000 cm³ avançaram 52,3%, para US$ 371,9 milhões. Esses valores abrangem todas as origens, não apenas a China. Para o Sindipeças, o desequilíbrio reflete uma combinação de demanda doméstica aquecida, maior dependência de tecnologia estrangeira e dificuldades de competitividade da indústria nacional, pressionada pelos juros elevados e pelas restrições de crédito para investimentos. O resultado é um retrato da nova configuração da indústria automobilística brasileira: a fabricação de veículos ganha novos participantes, fábricas e tecnologias, mas o fornecimento de componentes acompanha uma dinâmica cada vez mais internacionalizada. E, nesse processo, a China já se tornou uma peça fundamental não apenas dos carros chineses, mas de toda a produção automotiva instalada no Brasil. Veja também BYD Dolphin Mini: nova geração copiará Geely EX2 com tração traseira e porta-malas frontal Podcast Motor1 #333: a guerra dos SUVs de R$ 150 mil esquenta com CS55 e Atto 2 BYD já vende quase metade de seus carros fora da China Depois de Tukan e Mako, Fiat Toro terá uma enxurrada de rivais híbridas