Procrastinação duvidosa
1 Oct, 2026
Um artigo publicado em 2002 no periódico Psychological Science, que avaliou como diferenças de prazo para concluir um trabalho podem afetar a procrastinação, acaba de ser retratado após a descoberta de evidências de manipulação de dados. Assinado por Dan Ariely, professor da Universidade Duke, e Klaus Wertenbroch, da escola de negócios francesa Insead, o estudo concluiu que prazos de entrega igualmente espaçados poderiam reduzir a tendência a atrasar o trabalho e aumentar a probabilidade de as tarefas serem concluídas dentro do prazo. O artigo descrevia dois experimentos. Em um deles, 60 estudantes receberam três tarefas de revisão de texto e podiam entregá-las em lotes com intervalos de uma semana, todas ao final de 21 dias ou em datas escolhidas por eles próprios. O trabalho concluiu que os prazos espaçados produziam melhores resultados do que deixar a definição das datas a cargo dos participantes. No segundo experimento, os estudantes também foram divididos em grupos com diferentes prazos de entrega e receberam notas de acordo com seu desempenho. Os alunos que tinham prazos de entrega igualmente espaçados receberam notas significativamente maiores do que aqueles que definiam suas próprias datas de conclusão do trabalho. O periódico decidiu “despublicar” o artigo depois que uma tentativa independente de replicar os experimentos não corroborou seus resultados e quando uma análise posterior apontou anomalias nos dados originais. A nota de retratação, assinada por Simine Vazire, editora-chefe da revista, informa que ambos os autores concordaram com a decisão. A história começou duas décadas antes. Em 2006, os economistas Kyle Hyndman e Alberto Bisin tiveram acesso aos dados brutos da pesquisa ao estudar o mesmo tema. Anos depois, decidiram repetir um dos experimentos. Em artigo publicado em julho deste ano na própria Psychological Science, os autores relataram não conseguir reproduzir as conclusões do estudo original. Os dados também foram analisados por Uri Simonsohn, Leif Nelson e Joe Simmons, pesquisadores responsáveis pelo blog Data Colada, especializado em investigar problemas em estudos científicos. Em textos publicados em 31 de agosto e 2 de setembro, eles apontaram uma série de inconsistências no conjunto de dados usado no artigo de 2002. Entre os sinais de alerta estava um resultado muito mais claro do que seria esperado para uma amostra pequena, valores duplicados nas respostas dos participantes e ausência de correlação entre variáveis que deveriam estar fortemente relacionadas. Ao analisar o outro experimento do artigo, os pesquisadores também encontraram indícios de manipulação nas notas atribuídas aos participantes que definiam os próprios prazos. Wertenbroch solicitou a retratação do artigo após tomar conhecimento da análise do Data Colada. Em nota enviada aos pesquisadores, afirmou nunca ter tido acesso aos dados originais dos experimentos conduzidos por Ariely e que sua participação havia se concentrado na formulação da ideia, escrita e revisão do texto original. “Retratações são uma das piores coisas que podem acontecer a um cientista (…). Infelizmente, os problemas de dados apresentados invalidam as descobertas de nosso artigo de 2002. Ainda assim, um artigo meu anterior (Wertenbroch, 1998) (…) e a replicação de Hyndman e Bisin (2026) mostram os custos específicos de prazos de entrega. Estou triste, mas também feliz que a equipe do Data Colada está pondo essa história em pratos limpos”, declarou. Ariely publicou em 7 de agosto uma nota em seu site dizendo ter sido informado de que “os dados de sua pesquisa [de 2002] contêm sérias anomalias”. “A partir de agora, minha responsabilidade será atestar a acurácia do trabalho, atualizando o registro desses experimentos e, em conjunto com meu coautor, cooperando com o [editorial] do periódico que publicou nossa versão original do manuscrito.” Procurado por Pesquisa FAPESP, ele se recusou a dar entrevistas e pediu que se fizesse referência ao comunicado. Não é a primeira vez que Ariely tem um paper retratado. O pesquisador de 59 anos, autor de livros sobre comportamento humano, teve um estudo de 2012 sobre desonestidade, publicado no periódico PNAS em coautoria com Francesca Gino, da Universidade Harvard, retratado após questionamentos sobre a fabricação de dados. Outros dois artigos do professor receberam expressions of concern, ou seja, alertas editoriais sobre possíveis problemas. Um deles, publicado em 2008 no Journal of Marketing Research, foi questionado por problemas de replicação. Outro, de 2004, também na Psychological Science, recebeu o alerta por incertezas relacionadas aos testes estatísticos e à análise. Ariely não quis comentar esses casos. Republicar