Peça de Brecht sobre Galileu interroga o exercício do poder e os limites da ciência

admin
1 Oct, 2026
Concluí recentemente a leitura de "A Vida de Galileu", do poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956). Escrita originalmente no final da década de 1930, durante o exílio de Brecht na Dinamarca, a peça narra a trajetória do físico italiano Galileu Galilei (1564-1642). Galileu foi julgado pela Inquisição em Roma por defender, com base nas suas observações astronômicas, o modelo heliocêntrico de Nicolau Copérnico (1473-1543) e levado a abjurar as suas posições. A peça de Brecht parte de elementos da biografia de Galileu não apenas para reconstruir certos eventos com alguma fidelidade, mas também para fazer o público refletir sobre questões urgentes do seu próprio tempo, como o papel social da ciência e a problemática relação entre indivíduo e autoridade. Não por acaso, a primeira versão do drama, concebida em meio à perseguição nazista, passou por mais duas revisões. A primeira, entre 1944 e 1947, período em que o autor vivia nos Estados Unidos, foi marcada pelo impacto das bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki e pela crescente preocupação com as consequências da instrumentalização do conhecimento científico. Já a segunda, realizada em Berlim Oriental nos seus últimos anos de vida, deu origem à versão final da obra, que serve de base para a minha leitura. Hoje, as questões levantadas por Brecht, embora pertençam a outro contexto histórico, permanecem relevantes. Basta pensarmos, por exemplo, no atual debate sobre a necessidade de uma regulamentação mais rígida da inteligência artificial ou na maneira como a desinformação foi explorada politicamente no Brasil durante a pandemia de Covid-19, dificultando a resposta a uma crise sanitária que resultou em mais de 700 mil mortes. A esse respeito, vale a pena recuperar algumas das falas do Galileu de Brecht. Por exemplo, na cena em que o físico se irrita com a visita de um ex-aluno que contesta as teorias de Copérnico e o coloca para fora da sua casa: "Quem não sabe a verdade é estúpido, e só. Mas quem sabe e diz que é mentira é criminoso!". Outra fala importante ocorre quando o Pequeno Monge teme que novas descobertas científicas abalem as crenças que aparentam dar sentido à vida dos camponeses. Ele pergunta a Galileu se a verdade não seria capaz de se afirmar por conta própria, sem o auxílio de terceiros, ao que o cientista retruca: "Não, não, não. Só se afirma a verdade que nós afirmamos; a vitória da razão só pode ser a vitória dos homens racionais [...]. Como pode alguém pensar que o interesse [dos camponeses] possa ser contrariado pelo teorema da soma dos ângulos de um triângulo! Porém, se eles não se põem em movimento e não aprendem a pensar, mesmo o mais engenhoso sistema de irrigação não lhes adiantará de nada." O Galileu de Brecht, no entanto, é um personagem complexo e contraditório, no qual a ardente defesa da verdade convive com o apego aos sentidos e aos prazeres da vida. Por medo do sofrimento físico, o personagem renega publicamente as próprias ideias, mas continua trabalhando na surdina. Na peça, Galileu tem consciência de que a sua postura diante da Inquisição contribuiu para dificultar a difusão do saber científico na região ("Eu traí a minha profissão. Um homem que faz o que eu fiz não pode ser admitido nas fileiras da ciência"). Tanto é assim que, na última cena, o seu discípulo de uma vida inteira, Andrea Sarti, parte para a Holanda e leva escondida debaixo do casaco uma cópia do novo manuscrito de Galileu. Antes da despedida, o mestre se queixa: "Se eu houvesse resistido! [...]. Durante alguns anos, a minha força era igual à da autoridade. Entretanto, entreguei o meu saber aos poderosos, para que eles usassem, abusassem, não usassem, conforme lhes conviesse." Em carta enviada a Brecht em 1939, Einstein elogiou o texto e destacou a riqueza com que o dramaturgo havia apreendido a personalidade de Galileu e a importância da sua figura para a história do pensamento. A peça, portanto, não é uma hagiografia do físico italiano —"Infeliz é a terra que precisa de heróis"— nem uma defesa ingênua da ciência. É, sobretudo, uma celebração do espírito crítico diante do poder e da autoridade, do exercício da razão e da reflexão sobre nossos próprios limites. Recomendo a leitura.