Por que nomes conhecidos da direita ficaram sem mandato apesar da onda conservadora

admin
8 Oct, 2026
O PL saiu da eleição de domingo com 121 deputados federais, 22 a mais que em 2022 e a maior bancada eleita por um partido na Câmara desde a redemocratização. No Senado, elegeu 19 das 54 cadeiras em disputa e começará 2027 com 28 senadores, a maior bancada de um partido no início de uma legislatura desde 1988. Mas, no mesmo domingo, nomes que o eleitor de direita conhece há anos ficaram sem mandato. Entre eles estão Janaina Paschoal, coautora do pedido de impeachment de Dilma Rousseff, e o delegado Éder Mauro, um dos primeiros aliados de Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados. O voto conservador cresceu, mas se concentrou numa legenda e em poucos puxadores. Quem ficou fora dessa concentração perdeu, tivesse ou não fidelidade ao bolsonarismo para mostrar. O que o eleitor premiou "Fizemos a maior bancada jovem conservadora da história do Congresso", disse Nikolas depois da apuração. Janaina, ouvida pela Gazeta do Povo, chegou a uma leitura parecida do lado de quem perdeu. "À direita, as pessoas queriam votar no PL", afirma. Ela diz ter sentido nas ruas um desejo de novidade, que explicaria o número de jovens eleitos com votações altas. "A análise de realizações, de currículo, de propostas ficou absolutamente prejudicada." Para o cientista político Leandro Consentino, professor do Insper, o eleitor recompensou a lealdade. "Parte dos parlamentares que a gente considerava centrão dentro do PL se tornou mais leal ao bolsonarismo nos últimos tempos”, analisa. “O eleitor reconheceu e premiou esses, e se afastou dos que eram menos leais." Consentino também observa que o bolsonarismo já não se resume a Jair Bolsonaro e inclui outros membros da família e agregados como o próprio Nikolas e, possivelmente, o governador Tarcísio de Freitas, reeleito em São Paulo. A federação que encolheu Candidata a deputada federal pelo PP, Janaina teve 46.773 votos e ficou na suplência. Em 2018, pelo PSL, havia recebido 2.060.786 votos para a Assembleia Legislativa de São Paulo, recorde que a Casa ainda conserva. O Sargento Nantes, seu colega de bancada na Câmara Municipal, disputou pelo mesmo partido e se elegeu com 333.401 votos neste ano. PP e União Brasil, hoje federados, somavam 106 deputados eleitos em 2022 e elegeram 87 neste ano. Acontece que, desde fevereiro, Janaina vinha questionando nas redes a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. Escreveu que o senador não tinha condições de enfrentar Lula em debates e que a direita não havia escolhido uma monarquia. O posicionamento independente pode ter custado alguns milhares de votos. As madrinhas foram para o Senado Zoe Martínez tinha a filiação e os padrinhos que a leitura de Consentino valoriza. Cubana naturalizada, foi assessora da deputada Bia Kicis e comentarista da Jovem Pan, de onde saiu em 2023. Em 2024, chegou à Câmara paulistana pelo PL, a convite de Michelle Bolsonaro, com 60.272 votos. No domingo, Bia Kicis e Michelle foram eleitas senadoras pelo Distrito Federal. Zoe, disputando o eleitorado do estado inteiro de São Paulo, teve 25.356 votos para deputada federal. Durante a crise das bebidas adulteradas com metanol, no fim de 2025, a vereadora protocolou um pedido de CPI para investigar a venda de produtos contaminados em bares e casas noturnas da capital. Semanas depois, circulou nas redes um vídeo em que ela pede à Guarda Civil Metropolitana o fechamento de barracas de ambulantes, sob o argumento de que vendiam bebidas de origem desconhecida e bloqueavam a rua. A gravação foi criticada inclusive por perfis de direita, que viram na cena uma vereadora conservadora mobilizando o poder municipal contra trabalhadores informais. A jornalista Madeleine Lacsko disputou sua primeira eleição, para deputada estadual pelo Podemos e teve 14.071 votos. Um mês antes do pleito, ela escreveu aos leitores de sua newsletter que o TSE havia determinado às plataformas a retirada dos perfis de candidatos dos sistemas de recomendação orgânica. A regra pesa mais sobre quem construiu a base de eleitores nas redes sociais e depende delas para alcançar quem ainda não a segue. Erika Hilton e os 185 votos que podem mudar a esquerda A maré de concentração que reorganizou a direita não ocorreu em um vácuo; ela acelerou ajustes também no campo oposto. Na esquerda, o desenho do novo Congresso revelou um contraste marcante entre o pragmatismo partidário do PT e a dependência do PSOL de votações recordes. Janaina diz ter conversado no plenário da Câmara Municipal com a bancada do PT e saiu com uma impressão clara. "Eles têm estratégia. Conseguiram eleger vários deputados com menos votos que o PSOL, todos com votações de pouco mais de 100 mil votos. O PSOL é mais estridente, mas o PT é profissional." Em São Paulo, Edinho Silva, presidente nacional do PT, se elegeu com 115.341 votos, e João Paulo Cunha, com 109.548. O PSOL produziu a segunda maior votação do estado. Erika Hilton recebeu 1.596.472 votos A federação PSOL-Rede somou 4,9% dos votos válidos para deputado federal no país, quase o dobro do mínimo exigido pela cláusula de barreira. Mesmo assim, ficou abaixo da regra por 185 votos, porque atingiu o percentual mínimo em oito estados, e não nos nove exigidos. A partir de 2027, a federação perde o acesso ao fundo partidário e ao tempo de propaganda gratuita. "Com a perda do fundo, muitos quadros do PSOL devem migrar para o PT", prevê Janaina. PSD, MDB e União diante do PL Considerando a concentração no PL e a numerosa votação em candidatos da esquerda, Janaina acredita que o país caminha para o bipartidarismo. Consentino vê a formação de dois blocos, um à direita e outro à esquerda, mas considera que a fragmentação do centrão ainda impede esse desenho. "Parte expressiva do PSD, do MDB e do União Brasil ainda pode se fundir para não ficar simplesmente como um sub-PL", diz. O PSD foi o partido que mais perdeu cadeiras no Senado e cairá de 13 para 5 senadores. No Pará, foram MDB e União Brasil que ficaram com as duas vagas que o PL disputava. Janaina prefere esperar antes de concluir. Quer ver os novos parlamentares, "em todos os sentidos", começarem a trabalhar e observar a reação do Supremo Tribunal Federal, que, segundo ela, "virá".