Como os programas verticais feitos para as redes sociais concorrem com talk shows

admin
11 Oct, 2026
O ator Andrew Garfield diz acreditar que, para que alguém seja um DJ de verdade, é preciso tocar músicas em discos de vinil. A declaração é feita num assento do metrô de Nova York e recebe um "concordo 100%" de Kareem Rahma, apresentador do Subway Takes. O programa, produzido para as redes sociais, tem de um a três minutos de duração por episódio. Semanas antes, numa rua da maior cidade americana, Garfield adivinhou em dois minutos músicas de Jeff Buckley, Fela Kuti e da banda Parcels e relembrou, para o apresentador Jack Coyne, do Track Star, momentos vividos ao som das faixas. O artista também participou do programa Recess Therapy, num parque nova-iorquino, onde Julian Shapiro-Barnum e três crianças o questionaram sobre o seu sotaque britânico em 40 segundos. O ator lança os filmes "A Revolta" e "Artificial" neste semestre do ano, mas não menciona nada disso nos vídeos. Já se foram os dias em que era obrigatório para um artista, perto do lançamento de um disco, filme ou série, ocupar o sofá de um talk show noturno para divulgar um trabalho. Hoje, celebridades aparecem em metrôs, parques e calçadas, ou comendo frango frito apimentado em programas criados para exibição online. Participam de jogos, respondem a perguntas inusitadas e discutem assuntos distantes da obra que estão promovendo. Programas como Recess Therapy, Track Star e Subway Takes consolidaram essa leva. Em fevereiro, a revista Vanity Fair publicou que "o talk show está vivo, bem e morando na internet". Outros exemplos na internet são Blow My Mind, em que Sarah Adelman entrevista divulgadores de ciência e história; Street Hearts, que promove encontros às cegas; e Are You Okay, que explora segredos dos entrevistados, todos pelas ruas de Manhattan. A concentração em Nova York não é casual. Criadores desses shows usam a cidade como estúdio a céu aberto, pela circulação de pessoas, pela variedade de cenários e pelas restrições menores a gravações do que em Los Angeles. Além disso, Rahma, do Subway Takes, disse à Vanity Fair que a multiplicação dos formatos não cria necessariamente uma disputa entre eles. Ao contrário da TV, programas feitos para o TikTok e para o Instagram podem ser vistos a qualquer hora e em vários recortes. "Não estamos todos competindo pelo mesmo maldito horário", afirma. Os programas de poucos minutos estão substituindo as entrevistas descontraídas dos talk shows noturnos, como o Late Show, encerrado em maio, nos Estados Unidos, ou o antigo Programa do Jô, no Brasil. O modelo online ganhou tamanha projeção que o Subway Takes de Kareem Rahma foi indicado ao Emmy deste ano na categoria de série de comédia, drama ou variedades em versão mais curta. "A grande ideia é que não existe formato longo. O programa são os cortes", afirma Rahma. Hoje, o Subway Takes tem versões estendidas com celebridades, de até 20 minutos, no YouTube e no Spotify. No entanto, Rahma busca participantes que ainda não são famosos. De acordo com ele, 5% dos convidados são estrelas, como Andrew Garfield, Rosalía e Matt Damon; os demais são talentos atrás de visibilidade na indústria. Segundo a pesquisadora Issaaf Karhawi, a tendência está relacionada à padronização da produção audiovisual para as plataformas digitais. São, na opinião dela, narrativas pensadas para cortes, engajamento e consumo nas redes. Karhawi chama esse comportamento de "consumo sob medida". Ou seja, se na TV existia uma programação com horários determinados, nas redes sociais cada usuário consome vídeos quando quer. É um hábito mais sedutor se comparado ao streaming, que ainda oferece produções longas e sem garantia de fisgar os espectadores em poucos segundos. Na visão do professor Vicente Gosciola, da Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, o excesso de informação na internet mudou a relação do espectador com o conteúdo. "O público passa a ter uma procura objetiva e mais pontual", afirma. O "micro talk show", como ele o apelidou, concentra em segundos uma opinião que poderia exigir uma entrevista inteira. Um exemplo é a participação de Cate Blanchett no Subway Takes. A atriz explica com grande paixão, em 50 segundos, por que detesta sopradores de folhas. Os próximos trabalhos de Blanchett não são mencionados, e a opinião banal da artista é suficiente para engajar o público, que debate nos comentários, com afinco, suas concordâncias e discordâncias em relação à afirmação da atriz. Segundo Gosciola, essa proposta aproxima figuras de Hollywood de situações reconhecíveis pelo público. Uma estrela que normalmente aparece em tapetes vermelhos e estúdios passa alguns minutos sentada no metrô ou andando pela rua para defender uma preferência cotidiana. "Você tira ele desse grande espaço de entrevistado e dá para ele esse espaço de argumentador", diz. Karhawi diz que a linguagem das plataformas valoriza a aparência de espontaneidade. Situações que parecem casuais produzem uma sensação de proximidade e descontração, por mais que exista uma equipe envolvida por trás das produções. No Brasil, o movimento é menos próximo desse modelo americano, mas entrevistas para as redes já se consolidaram em cortes de podcasts, como o "Podpah" e "Flow". A televisão e o streaming também passaram a incorporar essas estratégias. O The Tonight Show, apresentado por Jimmy Fallon, lançou uma série inspirada nos microdramas, com episódios de poucos minutos. Já a Netflix fechou acordos com grupos de mídia, como a Condé Nast, para hospedar programas verticais curtos em sua plataforma. A mudança ocorre num momento de tensão para os talk shows americanos. Neste ano, o presidente Donald Trump voltou a atacar apresentadores, como Jimmy Kimmel, Fallon e Seth Meyers, e ampliou as exigências para emissoras da TV aberta. Enquanto o The Tonight Show e outros programas dependem desses canais, os shows de Instagram e TikTok não seguem a mesma estrutura de licenciamento. De certa forma, a migração das entrevistas para a tela vertical preserva o modelo de pergunta e resposta que por tanto tempo dominou a televisão. O público ainda quer ouvir o que as estrelas têm a dizer, mesmo que seja sobre sopradores de folhas.