Camila Brait reflete nova rotina com os filhos e decisão de deixar as quadras: ‘Dever cumprido’

admin
12 Oct, 2026
Gerando resumo Entre momentos com os filhos, aulas de inglês e a descoberta de um novo hobby no beach tennis, Camila Brait vive uma nova rotina após encerrar sua carreira nas quadras. A líbero medalhista olímpica anunciou sua aposentadoria em abril, aos 37 anos, e fez sua última partida com a camisa do Osasco - clube que defendeu desde 2008 - na derrota para o Gerdau Minas por 3 a 2 na semifinal da Superliga. “Eu já estava me preparando, tanto psicologicamente, financeiramente, junto com a minha família. Acho que depois que você tem filhos, sua cabeça muda, seus objetivos mudam. Chegou o dia de dever cumprido, sensação de que eu consegui fazer e realizar tudo que eu podia dentro do vôlei, então foi um dia muito feliz”, disse a ex-líbero em entrevista ao Estadão. Mineira de Sacramento, ela construiu na cidade da região metropolitana de São Paulo não só sua carreira, mas também sua família ao conhecer o marido e tornar-se mãe de Alice, de oito anos, e de Romeu, de três. Camila soube fazer pausas para conciliar a maternidade com a vida esportiva e, em ambas as gestações, retornou ao vôlei. “Eu consegui realizar um dos sonhos que eu queria (ser mãe), então eu acho que me deu um gás a mais. Quando eu voltei da gestação, voltei super bem. E depois do Romeo, eu estava bem mais velha, só que eu falei: ‘Eu ainda quero jogar mais um pouco’. E também consegui voltar bem”, afirma. Leia mais: ‘Não sou bandida’, diz Tifanny sobre banimento de mulheres trans pela CBV Carolana, medalhista olímpica de vôlei, revela diagnóstico de câncer: ‘Momentos super desafiadores’ A sensação de pertencimento em Osasco também teve um pilar importante desde o início. Luizomar de Moura, técnico da equipe, é visto por Brait como um pai, que confiou em uma jovem jogadora de 19 anos para estar ao lado de campeãs e atletas consagradas na modalidade. “Ele já me conhecia porque eu jogava na seleção brasileira de base, então a gente foi tendo uma relação mais do que técnico, foi pai e filha mesmo. Só tenho a agradecer por tudo que o Luizomar fez por mim. Não é fácil você colocar uma líbero de 19 anos para jogar junto com campeãs olímpicas na época. Acho que ele acreditava mais em mim do que eu mesma.” Além dos mais de 800 jogos pelo clube, Brait também está na prateleira das campeãs do Osasco com três títulos de Superliga, um Mundial de Clubes, quatro Sul-Americanos, cinco Copas do Brasil, uma Supercopa, e a hegemonia em São Paulo com onze títulos estaduais. “Eu nunca imaginei que eu iria fazer uma carreira tão grande num clube que eu sempre admirei muito. Quando eu jogava em São Caetano, eu ia até Osasco para assistir o jogo das meninas e em um futuro tão rápido assim eu consegui jogar ao lado delas.” Além da trajetória no clube, Camila Brait vestiu a camisa da seleção brasileira, das categorias de base até o adulto. Após dois cortes da equipe que faria parte das Olímpiadas em 2012 e 2016 chegou a afirmar que não jogaria mais pela equipe nacional. ‘Não queria mais voltar para a seleção’: afirma Camila Brait sobre o corte da Olimpíada do Rio Em entrevista ao Estadão, ex-líbero fala que ligação do técnico Zé Roberto Guimarães incentivou a volta para equipe. Crédito: Lara Musa/Leo Souza “Em 2012 eu já sabia que eu não ia, porque era a Fabizinha, minha inspiração master. Então, ali para mim não foi nada de baque, eu já sabia e torci muito pelo Brasil. Agora, em 2016, você vai criando uma expectativa, você participa todo aquele ciclo e chega na hora, você acaba não conseguindo. Eu não consegui fazer uma boa VNL antes do corte, e ele é o técnico, tinha que fazer a escolha dele. Só que eu fiquei muito abalada na época. Eu decidi que eu não queria mais voltar para a seleção”, revela. Com apoio do lugar que já era um lar para ela seguiu treinando. “Continuei aqui em Osasco. Luizomar me ajudou muito nesse processo, porque eu precisei de muita ajuda naquela época.” Durante o ciclo para os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2021, uma ligação fez Camila repensar aquela decisão de quatro anos antes. “Um dia eu recebi uma ligação do Zé. Ele me perguntou se eu queria voltar e eu falei que achava que não estava preparada para aquilo. Ele disse uma coisa que eu acho que foi o ponto para eu voltar. Ele perguntou porque eu não queria voltar. Respondi: ‘Acho que eu tenho um trauma de você’. E ele falou: ‘Mas você vai deixar o seu sonho de jogar uma Olimpíada ser estragado por causa de uma pessoa’. E eu pensei, eu sempre estive na seleção, eu sempre tentei ir para uma Olimpíada, era o meu sonho”, revela. O técnico Zé Roberto Guimarães deu um tempo para a líbero pensar e tomar uma decisão. Os maiores sonhos de Camila Brait eram ser mãe e jogar uma Olimpíada. Naquela época, Alice, sua primeira filha já era nascida e, dias antes do prazo para a resposta, a jogadora confirmou que seu outro desejo seria realizado. “Eu falei para ele que ia voltar e ele ficou superfeliz, a nossa relação foi ótima, resgatamos muitas coisas que estavam meio ruins no passado. E ainda conseguimos ganhar uma medalha, não poderia ter sido melhor. Agradeço a Deus todos os dias por eu ter voltado e pelo Zé ter me ligado.” Brait chegou decisão dos Jogos Olímpicos com o Brasil de maneira invicta e, para alguém que sonhava apenas com uma participação, já possuía uma medalha garantida. Na final, a seleção brasileira não conseguiu fazer frente com a equipe dos Estados Unidos e foi derrotada por 3 a 0 - o que seria uma inédita conquista estadunidense na modalidade e a primeira prata do vôlei feminino brasileiro em uma Olimpíada. “O brasileiro acabou ficando mal acostumado e medalha de prata eles acabam não agradando tanto, mas aquela para mim tem um sabor de ouro incrível. Não só pelo fato da gente ter conseguido, mas pelas coisas que abdiquei na minha vida, que eu deixei de fazer, ficar longe da família e da minha filha para poder jogar a Olimpíada. A gente foi como quarta, quinta força e saiu de lá com uma medalha de prata”, afirma a medalhista. Além de entrar no hall dos medalhistas olímpicos brasileiros, Brait também conquistou um vice-campeonato da Copa do Mundo em 2014 e seis vezes o Grand Prix. Longe das quadras mas perto dos torcedores Os amantes de vôlei aproveitaram dois dias da Semana Move, organizada pelo Sesc, para estar perto da ex-jogadora. Nas unidades da Vila Mariana e de Santo Amaro, ao todo 250 torcedores puderam participar de uma conversa e jogar ao lado da medalhista. A Gerente de Esportes do Sesc SP, Carol Seixas, acredita que levar jogadoras que foram mães e tiveram carreiras longevas no esporte contribui em diversos debates de saúde e gênero. “Histórias como a da Brait ajudam a mostrar que o esporte e a atividade física podem coexistir com diferentes projetos de vida, contribuindo para uma existência mais ativa, saudável, significativa e plural.”