O que explica a preferência dos nordestinos por Lula nas eleições presidenciais?
12 Oct, 2026
Mais uma vez, o PT liderou a preferência dos eleitores nordestinos no primeiro turno da eleição para presidente. Os resultados do último dia 4 de outubro mostraram novamente uma prevalência de votos no partido de Lula, algo que se repete desde as eleições de 2002. A votação do petista na região até diminuiu em comparação com 2022, é verdade, mas foi o que garantiu a continuação da disputa presidencial no segundo turno. O que explica essa disparidade tão acentuada em relação ao restante do país? Em uma eleição em que a direita fez maioria no legislativo e entre os governos estaduais em todo o Brasil, por que ainda é tão difícil arrebanhar mais apoiadores nos estados nordestinos? Uma possível explicação seria a condição socioeconômica dos eleitores daquela região. Um cruzamento de dados oficiais do IBGE sobre o IDH, índice que mede o desenvolvimento de uma população, e os resultados das urnas contabilizado pelo TSE mostra o que parece ser uma correlação forte entre mais votos em Lula em cidades com menor desenvolvimento. Foi assim em Serrano do Maranhão, município com cerca de 10,5 mil habitantes na região Norte do Maranhão. O IDH do município é de 0,519, considerado baixo. No resultado das urnas, Lula obteve 87% dos votos no primeiro turno contra 11% de Flávio Bolsonaro (PL). Melgaço, que fica na região da Ilha do Marajó, no Pará, tem IDH ainda menor, 0,418 em uma escala onde o índice de perfeição seria 1. Por lá, o candidato do PT teve quase dois votos para cada eleitor do PL: 63% para Lula e 33% para Flávio Bolsonaro. Na outra ponta da tabela do IDH, os resultados são opostos. Na gaúcha Nova Pádua, que tem um IDH de 0,761 – considerado alto – as urnas deram a vitória para Flávio Bolsonaro no primeiro turno, 87% contra apenas 7% de Lula. Em Balneário Camboriú, no litoral catarinense, o IDH é ainda maior, 0,845. Os resultados da eleição seguiram o mesmo padrão, com vitória de Flávio Bolsonaro (71%) sobre Lula (21%). Votantes pobres X lugares pobres Na Bahia, onde 66% dos votos foram para Lula, foi possível observar a presença de algumas ilhas do bolsonarismo. É o caso de Luís Eduardo Magalhães, onde Flávio recebeu 62% dos votos contra 32% de Lula. O IDH do município é um dos mais altos do estado, 0,716. Em Santa Catarina, a proporção geral de votos no PL e no PT se inverteu, com 66% dos votos em Flávio e 25% em Lula. Ali também há ilhas, só que do petismo. O município de Calmon tem um IDH entre os menores do estado, 0,622, e registrou uma vitória de Lula por 56% contra 38% de Flávio Bolsonaro. Esse fenômeno foi identificado pelo cientista político Cesar Zucco ainda em 2010, em seu estudo “Eleitores Pobres vs Lugares Pobres: padrões persistentes e mudanças recentes nos padrões eleitorais brasileiros”. O trabalho, publicado pela Universidade de Cambridge, examina a mudança na base eleitoral de Lula a partir das eleições de 2006 e diferencia duas coisas que frequentemente são tratadas como equivalentes: o voto dos pobres e o voto nos municípios pobres. A distinção é relevante. Antes do Bolsa Família, aponta Zucco, candidatos do governo tinham mais facilidade em conquistar votos em lugares pobres do que entre pobres votantes em lugares ricos. Após a concessão do benefício, houve uma mudança significativa: Lula conseguiu conquistar apoio tanto em lugares pobres quanto entre pobres votantes em lugares ricos, especialmente nas cidades grandes. O Bolsa Família, então, teria sido fundamental para atingir pobres urbanos em cidades desenvolvidas, rompendo uma barreira geográfica tradicional. O argumento de Zucco é que os eleitores de baixa renda que vivem em municípios mais ricos não podem ser interpretados apenas pela condição econômica da cidade em que mora. Voto para Lula no Nordeste “transcendeu” o Bolsa Família Só que esse motivo, sozinho, não é mais suficiente para explicar a prevalência de Lula na região Nordeste. Pelo menos essa é a avaliação de Márcio Coimbra, CEO da Casa Política, ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal. À Gazeta do Povo, ele explicou que a preferência eleitoral da região pela esquerda – em especial pelo PT – “transcendeu” a gratidão pelo Bolsa Família e se tornou parte de uma identidade regional. “Embora a racionalidade econômica das votações anteriores tenha sido o motor de partida, o fenômeno do lulismo moldou um alinhamento afetivo e cultural profundo. Essa preferência transcendeu a simples gratidão conjuntural para se consolidar como uma verdadeira clivagem de pertencimento político”, avaliou. Para o cientista político, esse fator econômico de influência nos votos foi “ressignificado”. Segundo Coimbra, votar na esquerda se tornou um símbolo de cidadania e dignidade para os nordestinos, em uma espécie de reação histórica que não deve se desfazer facilmente. Direita precisa readequar discurso hostil contra nordestinos O discurso hostil de que o voto dos eleitores nordestinos representa “o atraso ou a dependência econômica”, costumeiramente associado à direita, funciona como um “repelente” eleitoral, alertou Coimbra. Segundo ele, este tipo de posicionamento é visto como um ataque que gera como resposta um comportamento de defesa coletiva contra a direita. Para o especialista, as forças políticas de oposição a Lula precisam readequar o discurso para conseguir cativar esse eleitor. Falar de privatizações e enxugamento da máquina pública em municípios onde o Estado é o principal indutor do desenvolvimento soa muito distante para essa população. Por fim, Coimbra avalia que o dinamismo econômico nas áreas do “Matopiba” e a expansão das igrejas evangélicas nas periferias urbanas do Nordeste são as principais “pontas de lança” para uma maior presença da direita na região. Ainda assim, é um trabalho que deve levar tempo para mostrar resultados mais efetivos. “Em municípios com forte tração agropecuária e IDH mais elevado, o ecossistema econômico reduz a dependência do Estado e aproxima a população de valores associados ao empreendedorismo e ao conservadorismo moral. Contudo, a ampla maioria dos municípios nordestinos ainda possui indicadores sociais que mantêm o papel redistributivo do Estado no centro das atenções, impedindo que essa transformação localizada altere, no curto prazo, o alinhamento majoritário da região com a esquerda”, concluiu.