Stellantis estuda volta da lendária marca Willys para enfrentar chinesas

admin
13 Oct, 2026
A Jeep pode recorrer a um dos maiores símbolos de sua história para enfrentar a concorrência das marcas chinesas. No Salão do Automóvel de Paris, a divisão norte-americana do grupo Stellantis revelou parte de seus planos para os próximos anos e admitiu que estuda o retorno do lendário nome Willys. A possibilidade foi levantada por Xavier Peugeot durante a apresentação da estratégia Road to 2030 (sim, um membro da família Peugeot é o atual responsável pelas operações da Jeep na Europa). O executivo afirmou que a volta da marca Willys é uma das principais ideias em discussão, mas deixou claro que ainda não existe um plano de produção confirmado. A Jeep pretende ampliar sua linha europeia para até seis modelos em 2030, aumentar sua presença no mercado de SUVs e recuperar terreno diante das concorrentes chinesas. Para isso, quer aproveitar uma característica que nenhuma das rivais recém-chegadas consegue oferecer: uma história de mais de oito décadas, que deu origem ao segmento fora de estrada. Segundo Peugeot, os valores originais da Jeep serão fundamentais nessa disputa. O executivo considera o nome Willys uma das principais cartas que a fabricante tem para jogar, embora sua eventual volta só deva ocorrer depois de 2030. Foto de: Divulgação Linhas retas A Jeep chegou a apresentar uma imagem que sugere como seria um futuro Willys. A ilustração mostra a silhueta de um novo modelo de linhas retas e formas retangulares, ao lado de um Jeep 1941 e de uma caixa de transporte com a inscrição Not fragile ("Não frágil"). A referência à robustez dos antigos Jeep Willys é evidente. O desenho também sugere um utilitário com características próximas às de veículos como os atuais Ford Bronco e Toyota Land Cruiser Prado (J250), que recuperam elementos visuais de seus antecessores. O Jeep Willys original nasceu de uma encomenda das forças armadas dos Estados Unidos, que precisavam de um veículo leve, resistente e capaz de enfrentar terrenos difíceis durante a Segunda Guerra Mundial. Concebido originalmente pela American Bantam, mas produzido pela Willys-Overland (com o nome MB) e pela Ford (GPW), o pequeno 4x4 militar deu origem aos primeiros jipes civis, lançados a partir de 1945. Mais de 80 anos depois, a fabricante considera recuperar esse nome para um modelo moderno. Xavier Peugeot não revelou detalhes sobre dimensões, plataforma ou motorização. Questionado sobre possíveis novidades no segmento B, no qual a Jeep já oferece o Avenger, o executivo mencionou o Willys. Isso abre a possibilidade de um utilitário relativamente simples, embora ainda não exista confirmação sobre seu porte ou características técnicas. Tampouco se diz se o projeto terá motorização elétrica, híbrida ou convencional. A única indicação de prazo veio do próprio Xavier Peugeot, ao afirmar que, até 2030, uma nova geração do Renegade estará nas ruas e as ideias em torno dos novos Willys deverão estar decididas. Fato é que há espaço para um Jeep puro e baratinho como nos velhos tempos — o Wrangler, descendente direto do Willys MB, cresceu e ficou caro demais ao longo das últimas gerações. Hoje, os modelos mais próximos dos Willys originais estão na Índia: são os Mahindra Thar, 4x4 valentes, compactos e de preços acessíveis. Quem sabe a Jeep não resgata sua ideia original? Novo Renegade está nos planos para 2028 Enquanto o Willys está no campo das possibilidades, a Jeep já trabalha na nova geração do Renegade. Apresentado em 2014, o SUV acumula 610 mil unidades comercializadas na Europa — fora as mais de 700 mil unidades produzidas no Brasil desde 2015. Xavier Peugeot afirmou que, diante desse resultado, seria uma loucura não considerar sua continuidade. O próximo Renegade deverá utilizar a plataforma STLA One, nova arquitetura do grupo Stellantis prevista para estrear no Peugeot E-208 em 2027. Desenvolvida para diferentes sistemas de propulsão, essa base permite oferecer versões elétricas e eletrificadas, incluindo opções híbridas leves. Segundo as primeiras informações divulgadas pela imprensa europeia, a nova geração poderá chegar ao mercado em 2028. A Jeep ainda não confirmou essa data. O Renegade tem uma importância particular para o Brasil. Foi o primeiro modelo produzido pela fábrica de Goiana (PE), inaugurada em 2015, e ajudou a consolidar a Jeep no mercado nacional. Por enquanto, não há informações sobre a produção da próxima geração no país. A ofensiva de produtos da Jeep também inclui a chegada do Recon ao mercado europeu em 2027. Produzido no México, o modelo é um 4x4 totalmente elétrico desenvolvido para oferecer capacidades fora de estrada semelhantes às do Wrangler. Com a ampliação de sua linha para até seis modelos em 2030, a Jeep pretende alcançar uma cobertura de 90% do mercado europeu de SUVs, ampliando sua presença em diferentes segmentos. Willys nasceu bem antes do Jeep Tudo começou com John North Willys, um comerciante de Nova York que vendia automóveis produzidos pela Overland Automotive, marca fundada em 1903, em Indiana, por Claude Cox. Diante das dificuldades financeiras da Overland, John Willys assumiu o controle da companhia para garantir o fornecimento dos veículos. Em 1909, transferiu a produção para Toledo, Ohio, onde consolidou a empresa com o nome Willys-Overland. O crescimento foi rápido: entre 1912 e 1918, era a segunda maior fabricante de automóveis dos EUA, atrás apenas da Ford! Durante décadas, a Willys-Overland produziu carros de diferentes categorias, como os luxuosos Willys-Knight, com motores de válvulas deslizantes (1914-1933), os populares Whippet (1926-1931) e os compactos Americar (1937-1942), que mais tarde se tornariam ícones da cultura hot rod. A grande reviravolta aconteceu na Segunda Guerra. Em 1940, a Willys participou de uma concorrência do Exército dos EUA para fazer um veículo militar leve com tração 4x4. O projeto original havia sido apresentado pela American Bantam, mas foram o Willys MB e seu gêmeo Ford GPW que entraram em produção em larga escala, tornando-se heróis no front. Terminada a guerra, a Willys adaptou o veículo ao uso civil e lançou o Jeep CJ-2A, em 1945. O sucesso foi tamanho que seu nome virou termo genérico para veículos 4x4 de qualquer marca: “jipe”. O foco nos utilitários todo-terreno fez com que a Willys abandonasse gradualmente os automóveis convencionais, embora ainda lançasse a linha Aero, em 1952. Em 1953, a Willys-Overland foi comprada pelo grupo Kaiser, que concentrou suas atividades na família Jeep. Dez anos depois, a empresa americana passou a se chamar Kaiser Jeep, eliminando o nome Willys-Overland. Curiosamente, a denominação sobreviveu no Brasil, onde uma subsidiária havia sido fundada em 1952. A Willys-Overland do Brasil produziu não apenas o Jeep, a Rural e a Pick-up, mas também automóveis como Aero-Willys, Itamaraty, Dauphine, Gordini e Interlagos. Em 1967, contudo, a operação brasileira foi adquirida pela Ford, que herdou até o projeto do futuro Corcel. Nos Estados Unidos, a Kaiser Jeep foi comprada pela American Motors (AMC) em 1970. A Renault tornou-se a principal acionista da AMC, que acabaria adquirida pela Chrysler em 1987. A partir daí, a Jeep acompanhou as mudanças de propriedade da Chrysler: a união com a Daimler-Benz em 1998, a separação em 2007, a entrada da Fiat em 2009 e a formação da FCA em 2014. Finalmente, em 2021, a fusão da FCA com o Grupo PSA deu origem à Stellantis. De mudança em mudança, a Jeep sobreviveu à empresa que a criou. Hoje, os nomes Willys e Overland ainda são usados ocasionalmente em versões e séries especiais de seus modelos, provavelmente como forma de preservar os direitos sobre essas marcas. Leia mais Jeep Avenger Limited 2027: os Prós e Contras da versão topo do novo SUV Avenger sobe de preço e Jeep não tem nenhum carro abaixo de R$ 120 mil Jeep Avenger e Renegade ganham série de 85 anos; Compass fica para depois Jeep Wrangler JL-2A resgata o charme do primeiro Jeep civil, de 1945