“Irresponsáveis”: grupo de Pablo Marçal corre risco de afogamento em Ironman e é desclassificado
14 Oct, 2026
Pablo Marçal precisou ser retirado da água durante a etapa de natação do Ironman 70.3 de Encarnación, no Paraguai, no último domingo (11). Segundo reportagem do Metrópoles, cerca de 30 coaches e integrantes do círculo próximo do ex-coach participaram da competição mesmo sem preparação adequada para águas abertas, em meio à correnteza do Rio Paraná. Eu caminhava pela margem do Tejo em direção ao Cais do Sodré quando li essa história e parei no corrimão. Porque discurso motivacional não é colete salva-vidas, minhas filhas. E colocar gente com medo de nadar num rio agitado para disputar uma prova de resistência não é superação: é risco. O Ironman 70.3 reúne 1,9 km de natação, 90 km de ciclismo e 21,1 km de corrida. Por causa da chuva e da força da correnteza em Encarnación, a organização reduziu a etapa aquática para 1,5 km. Mesmo assim, durante o reconhecimento do percurso, responsáveis pela prova perceberam que vários inscritos de um mesmo grupo não pareciam ter condição de nadar no rio. Rodrigo Recalde Larrea, organizador do evento, afirmou que a equipe precisou ampliar o esquema de segurança com mais 15 profissionais e dez caiaques extras. “Eles foram irresponsáveis. Em 23 anos no triatlo, eu nunca vi algo parecido”, disse. A organização informou que levou o caso à direção global do Ironman para discutir como evitar episódios semelhantes. Entre 386 inscritos, 64 ultrapassaram o tempo limite da natação e foram eliminados. Desse total, 35 eram brasileiros e ao menos 18, segundo a coluna, pertenciam ao grupo ligado a Marçal. Quatro atletas teriam se recusado a entregar o chip e abandonar a competição, conduta que pode resultar em suspensão de dois a quatro anos. Eu olhei para a correnteza tranquila do Tejo e pensei que a natureza não negocia com frase de efeito. Água aberta exige técnica, preparo físico, leitura de percurso e respeito pelo risco. A pessoa pode ter a mente mais determinada do planeta, mas não existe mentalidade capaz de substituir treino quando o rio resolve cobrar. Alguns participantes do grupo celebraram nas redes a tentativa de completar a prova com pouco tempo de treinamento. Um deles disse ter decidido participar com 11 dias de antecedência; outro afirmou que aprendeu a nadar em um dia e se preparou em cerca de 20. Já Paulo Henriques, apresentado como sócio de Marçal, reconheceu que o grupo tentou encarar o desafio com apenas 15 dias de preparação e aconselhou seguidores a “treinar de verdade”. “Não tem como se preparar para uma prova dessas em 15 dias”, afirmou Henriques. Segundo ele, seriam necessários ao menos seis meses de preparação. Eu segui andando e só consegui pensar que essa deveria ser a frase estampada antes de qualquer promessa de transformação milagrosa: preparo não é detalhe, é o que separa uma prova de uma emergência. O episódio reacende a lembrança da expedição ao Pico dos Marins, em 2022, quando 32 pessoas precisaram ser resgatadas após uma atividade liderada por Marçal. Ele responde a processo por expor vidas a perigo e está proibido de promover atividades externas em montanhas, rios, lagos e mares sem autorização prévia da Polícia Militar, Corpo de Bombeiros, prefeitura e Defesa Civil. A equipe de Marçal nega que ele tenha organizado ou liderado a ida dos participantes ao Paraguai. Em nota, afirmou que os integrantes foram voluntariamente, treinaram individualmente e participaram por conta própria. Também disse desconhecer desordem ou violação das regras do evento e negou relação entre a competição e episódios anteriores. Eu cheguei mais perto do Cais do Sodré já pensando nas minhas amigas, mas sem conseguir tirar a história da cabeça. Prova de resistência não é palco para imprudência. E, quando uma equipe de segurança precisa ser reforçada porque adultos decidiram enfrentar um rio sem condições, a lição vem antes da medalha.